sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A "DITABRANDA DOS ESCRITÓRIOS"


Por Alexandre Figueiredo

Uma das ilusões que leva o deslumbramento da opinião pública mais mediana é a excessiva confiança na superioridade dos tecnocratas, na mística que ronda os escritórios e as decisões feitas de forma privativa, às ocultas da sociedade.

Essa mística garante a supremacia de decisões que a sociedade não vê, não nota e nem sabe se realmente são feitas em benefício delas, mas pela visibilidade e pelo status de quem decide são vistas como se fossem dotadas de indiscutível superioridade e sabedoria.

Pouco importa se os sacrifícios são imensos, a ponto de causar prejuízos, porque a promessa que os tecnocratas garantem de "benefícios futuros" - na verdade, bem menos benéficos do que o discurso alardeia - deslumbra a todos, sobretudo aqueles que aparentemente têm pouco a perder.

É assim que ser tecnocrata, no Brasil, ainda apresenta uma aura de "superioridade" que custa a ser derrubada ou posta em xeque, por conta da visibilidade garantida de seus integrantes, através de aparentes qualidades que os colocam no contexto do poder de influenciar aqueles que estão sob sua influência.

Desde 1974, surgiu uma geração de tecnocratas que, sobretudo nos anos 90, "desenharam" o país dentro de seus conceitos vinculados a uma ideologia que se apresentava como "progressista", mas segue princípios que se identificam, até de forma explícita, com o neoliberalismo.

É a "ditabranda dos escritórios", a tradução tardia do "milagre brasileiro" através de diversos setores, mesmo coisas aparentemente neutras como o urbanismo ou a cultura popular. São economistas, arquitetos, sociólogos, antropólogos, jornalistas, advogados, juristas, historiadores e outros especialistas que, adaptando os princípios do "milagre brasileiro" - a ilusão de prosperidade da ditadura militar, que vigorou entre 1967 e 1974 - para a chamada democracia liberal e civil.

Algumas dessas figuras são conhecidas. Fernando Henrique Cardoso, sociólogo que foi presidente do Brasil por dois governos consecutivos, é um desses paradigmas do tecnocrata moderno. Ele, nos últimos anos, anda sendo questionado por uma opinião pública de esquerda, e também pela opinião pública de centro ou até mesmo de direita, mas outros ainda gozam da "superioridade" da visibilidade perante a sociedade.

A imprensa até que também foi posta na berlinda. Mas, até pouco tempo atrás, os jornalistas da chamada grande mídia eram dotados de uma aura quase divina, na prática eles eram "donos" da opinião pública, as vidas dos cidadãos seguiam as linhas editoriais dos jornalistas de sua preferência. Mas os abusos dos comentários reacionários de vários deles acabaram eliminando a credibilidade de antes.

Mas hoje vemos a "superioridade" de gente como Jaime Lerner, no urbanismo e na busologia, e de Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo na abordagem da cultura popular. Tanto as teses de Jaime, arquiteto e político paranaense, quanto de Pedro, jornalista cultural, e Paulo César, historiador, são no fundo risíveis, mas eles gozam ainda da visibilidade que os garante ainda um prestígio astronômico.

Jaime Lerner, como político, nem tem tanta credibilidade assim, porque como prefeito de Curitiba e governador do Paraná, realizou medidas claramente antipopulares, cuja afronta aos interesses das classes populares não dava para esconder.

Filhote da ditadura, o bom aluno da UFPR comandada pelo depois ministro da ditadura Suplicy de Lacerda (que provocou as históricas revoltas estudantis no Brasil dos anos 60) e originalmente filiado à ARENA privatizou estatais, congelou salários, cometeu descasos e omissões e ainda apadrinhou políticos que, nos últimos anos, estavam ligados a esquemas de corrupção, recentemente atraindo até mesmo o bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira.

No entanto, Lerner ainda impôs seu projeto de transporte coletivo - em acelerada decadência na cidade de origem, Curitiba, cuja falência e desastres nem seus defensores mais apaixonados conseguem esconder - em outras cidades, como Teresina, Rio de Janeiro e Niterói, como se ainda vivêssemos na ditadura militar. E o "ranço" ditatorial é tal que, recentemente, vemos busólogos cariocas com um reacionarismo digno de "moleques" do CCC ou "soldados" do DOI-CODI.

Tudo por conta do tal Bus Rapid Transit, projeto que parece maravilhoso, prometendo corredores exclusivos de ônibus e veículos bastante longos. Um "futurismo" com quase 40 anos. E que traz diversos transtornos como o desmatamento, a expulsão de moradores de casas populares destruídas, a maioria sob parca indenização, e até mesmo problemas nos próprios BRTs, que enguiçam ou provocam acidentes.

Na cultura popular, o que se vê é a prevalência de intelectuais que, em vez de zelar pela verdadeira cultura popular, prefere defender, a pretexto de um "novo folclore", tendências mercadológicas de gosto bastante duvidoso. Mas aí vem a manobra, de classificar o "mau gosto" popularesco como se fosse uma "causa nobre", supostamente revolucionária, como se sofrer vaias e "levar pau" da crítica fosse transformar qualquer pessoa num gênio.

São teses duvidosas, contraditórias, mas enquanto elas prometem "milagres" e "progressos", a opinião pública mais mediana e numerosa, mesmo sendo ela claramente elitista e antidemocrática - mas pretensamente "democrática" e, hoje em dia, supostamente "progressista" - , endeusa os tecnocratas num deslumbramento que em muitas vezes soa infantil e fantasioso demais.

E esse deslumbramento até contradiz, e muito, com o caráter "objetivo" atribuído a esses tecnocratas. E mostra o quanto a "racionalidade" associada a eles tem um pouco de irracional, de místico, de sentimentalista.

Isso diz tudo nas relações de poder entre tecnocratas e seus seguidores. Eles detém uma aura de "racionalidade" e "objetividade" que seus seguidores e adeptos encaram com o oposto disso, numa mística de "subjetividade" e "emotividade" que chegam ao ponto da mais infantil pieguice. Enquanto os tecnocratas ficam com a "razão", os seus adeptos ficam com a "fé".

É contraditório, mas funciona assim. Os tecnocratas são endeusados pela presumida especialização técnica (às vezes, sem diploma universitário, mas por algum status conquistado), pela "sabedoria" oculta nos escritórios, no círculo de relações ou nas atividades feitas.

Jaime Lerner vira "semi-deus" pela sua especialização "técnica". Pedro Alexandre Sanches vira "semi-deus" porque entrevistou o who is who da MPB (desde que não seja a turma do Biscoito Fino, sobretudo Chico Buarque).

Mas até Mário Kertèsz, sem qualquer diploma de jornalismo ou de radialismo, chegou a ser um "semi-deus" por conta das relações de poder, do poder midiático conquistado pelas conveniências e pelo pedantismo intelectual que ele ostentava para a alta sociedade baiana. Nem mesmo sua (falta de) formação técnica foi contestada por seus adeptos, cegos no deslumbramento infantiloide à sua supremacia midiática.

Foi por isso que, nos tempos em que jornalistas exerciam também esta mística, me impressionei com o deslumbramento quase folião que havia na comunidade da rádio Band News Fluminense FM no Orkut, quando se esperaria um mínimo de objetividade dos seus membros.

Tudo era infantilmente mistificado, o deslumbramento impedia que as pessoas discutissem objetivamente as notícias veiculadas pela emissora noticiosa, tudo era fascinação, e havia até mesmo gente pedindo o aumento de horário dos programas. Queriam uma programação de 48, 96 ou 192 horas num horário de apenas 24 horas.

Ultimamente, esse deslumbramento era visto diante dos modelos de "mobilidade urbana" lançados por Jaime Lerner ou dos de "cultura popular" lançados por Paulo César Araújo e "modernamente" defendidos por Pedro Alexandre Sanches. Não se avaliam contradições nem restrições nos seus discursos, acredita-se neles com um otimismo infantil e pronto.

Desse modo, os tecnocratas pintam e bordam porque o que eles defendem a opinião pública mediana assina embaixo. Pouco importa o sentido de suas ideias, o que elas são, importa quem é que diz, seu statusde "especialista", suas presumidas qualidades "técnicas" e sua "experiência". Se suas ideias são realmente coerentes ou não, pouco importa a seus adeptos.

O que importa é a profissão de fé a esses modernos "sacerdotes" do Brasil neoliberal. O resto é mistério. E assim a opinião pública mediana vê as ratoeiras armadas contra ela com deslumbramento e alegria. A armadilha não lhes importa, com o saboroso queijo que está colocado nela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...