quarta-feira, 25 de julho de 2012

VELHA GRANDE MÍDIA QUER SUFOCAR A ESQUERDA CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

É muito estranho os rumos tomados pelos militantes intelectuais do brega-popularesco. Aparentemente alinhados à esquerda, eles defendem valores que em nada assustam a velha grande mídia.

Suas ideias transitam nos mais reacionários veículos de comunicação sem qualquer tipo de problema. Seus ídolos e ícones aparecem até mesmo na revista Caras.

Até a revista Veja, que dispara seu ódio contra todo tipo de movimento social, recebe os bregas, pós-bregas e neo-bregas geralmente com alguma postura respeitosa, ou, quando muito, com alguma crítica menos enérgica.

Vamos raciocinar um pouco, deixando o véu da memória curta, essa miopia historiográfica capaz de absolver hoje os corruptos condenados de ontem. Se, nos tempos da ditadura militar, colaboradores da direita se infiltravam em organizações esquerdistas para depois denunciar seus atos aos poderosos, a ditadura midiática também não deixaria de mandar seus colaboradores para a mídia esquerdista e depois revelar para a mídia dominante o que ela anda fazendo.

Fico estarrecido quando vejo que a opinião pública mediana de hoje cai muito fácil nas armadilhas midiáticas que, há 48 anos atrás, seriam facilmente identificadas. Barbaridades como acreditar que o cinema comercial de Hollywood do passado é "tão alternativo" quanto o cinema europeu, ou encarar o imperialista Jornalismo nas Américas como um subserviente otimismo infantil, ou mesmo ficar feliz quando um grupelho de sambrega tipo Sambô tocar alegremente uma música sobre um massacre contra manifestantes é de assustar.

O fato de muita gente ter nascido mais recentemente, sobretudo a partir de 1978, não significa que tenhamos que distorcer a História a pretexto de assumir uma "nova visão". Não ter acompanhado os fatos históricos não significa que se tenha liberdade para interpretá-los de forma distorcida ou adotar hoje posturas que vão contra muitos procedimentos históricos similares no passado.

Ver que Fernando Collor agora é "um grande estadista", por exemplo, é estarrecedor. Reabilita-se com muita facilidade as pessoas e figuras traiçoeiras do passado. Daqui a 20 anos, vão promover o ex-jornalista Pimenta Neves como um ícone do movimento feminista e todo mundo vai acreditar.

COLABORADORES DA VELHA GRANDE MÍDIA

Leio os textos de Paulo César Araújo, MC Leonardo e Pedro Alexandre Sanches e já pesquisei coisas sobre o "polêmico" professor de Belo Horizonte, Eugênio Arantes Raggi. E noto que eles nem estão aí para regulação de mídia, reforma agrária, massacre de Pinheirinho, protestos contra Veja etc. Mas, quando as circunstâncias permitem, todos são "militantes de esquerda", "amigos" do Emir Sader, "leitores" de Paulo Henrique Amorim e coisa e tal.

Dá para perceber que esses caras, na verdade, colaboram com os interesses da velha grande mídia. Araújo teria sido o intelectual-símbolo da Era José Serra, se este não tivesse sido derrotado nas urnas em 2002. Sanches é cria do Projeto Folha, a artimanha neoliberal de Otávio Frias Filho. MC Leonardo escreve para o jornal Expresso, das Organizações Globo e Raggi, feliz da vida, já elogiou a Folha de São Paulo e as Organizações Globo.

O que eles fazem, na verdade, é evitar que se manifeste uma verdadeira esquerda cultural, aquela que reivindica uma cultura popular de qualidade, que produza conhecimentos para a população. Criam argumentos pseudo-folcloristas, pseudo-modernistas, aproveitam do pouco esclarecimento da opinião pública mediana e de seu pouco estímulo ao discernimento por causa da dose excessiva de informações recebidas, e tentam convencê-las com argumentos confusos, claramente panfletários e eventualmente "urubológicos" (reacionários).

Nenhum deles desmente seu direitismo ideológico. E até MC Leonardo prefere falar mal das esquerdas pelas costas. Mas mesmo os argumentos sonhadores e sedutores do "Pedro e Paulo" da intelectualidade festiva, o Sanches e o Araújo, também exibem, de uma forma ou de outra, uma "urubologia" digna de revista Veja, só que um pouco mais adocicada com alguma alegação "mais positiva".

QUEM QUER CULTURA MELHOR É VISTO COMO "ELITISTA" E "PRECONCEITUOSO"

Eles acusam de "puristas", "preconceituosos", "intolerantes" e "elitistas" todos aqueles que desejam uma cultura melhor, que criticam a mediocridade cultural que só faz gerar dinheiro às custas de expressões de gosto duvidoso e de valores sociais e morais de baixo nível. Da forma que esses intelectuais e seus consortes falam, tudo parece uma pregação progressista, mas não é. É o oposto disso.

As plateias levam gato por lebre e o que elas acabam creditando como "consciência social" na aceitação do brega-popularesco, na verdade expressam sua ingenuidade e subserviência a pregadores que só querem a farra da visibilidade, enquanto defendem o "deus mercado" com argumentos mais confusos possíveis, onde o "não" de repente pode se tornar o sinônimo oculto do "sim" e vice-versa.

Imagine se falarmos na necessidade de combater o analfabetismo geral ou funcional das classes populares? Seríamos considerados "elitistas" por causa disso? Lindo é o garotão falar "as mulé" em vez de "as mulheres". Para essa intelectualidade festiva, funciona o seguinte: primeiro leva-se um idoso banguela, colhido dos subúrbios e roças, para pagar mico na televisão, e depois leva ele ao dentista.

Primeiro o povo, transformado em marionete pelo mercado brega-popularesco, é exposto ao ridículo, ao patético, ao grotesco, ao piegas. Depois, quando as classes mais abastadas contemplam o ridículo popular com uma solidariedade paternalista é que o povo é "convidado" a uma "lapidação" ao gosto das elites.

É essa armação que tentou fazer os neo-bregas de 1990-1992 um simulacro de "verdadeira MPB" que, na prática, apenas repetiu os mesmos padrões realmente elitistas da "MPB comercial" dos anos 80, através de processos que um Djavan ou uma Joyce não aceitariam fazer, mas que um Alexandre Pires ou Ivete Sangalo topariam fazer da forma mais obediente possível.

Quanto aos intelectuais associados, o "efeito Lula" os fez parecerem integrados às esquerdas. Grande engano. O que Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, MC Leonardo, Mônica Neves Leme, Eugênio Raggi e outros defendem é tão somente a mercantilização da cultura popular, numa abordagem de "modernização" explicitamente inspirada nas teorias pregadas por Fernando Henrique Cardoso, o mestre maior dessa patota toda.

Sem falar que Hermano Vianna deve estar reservando uma cadeira cativa para qualquer um deles nas Organizações Globo, daqui a alguns anos.

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