terça-feira, 17 de julho de 2012

A "SUPERIORIDADE" DE JORNALISTAS E INTELECTUAIS


Por Alexandre Figueiredo

A hierarquização do saber cria mitos e totens que acabam seduzindo a opinião pública por conta de qualidades que, em tese, são associadas a eles.

Dentro de uma perspectiva herdada do misticismo católico conservador, que pega desprevenidos até mesmo agnósticos ou ateus que embarcam em certos fenômenos do conservadorismo midiático, jornalistas e intelectuais de elite foram beneficiados por uma "aura de superioridade" que os faz tornarem semi-deuses aos olhos de suas plateias deslumbradas.

Foi assim durante muito tempo com os jornalistas. Com base numa interpretação maniqueísta sobre o papel do jornalista na ditadura militar, durante anos prevaleceu a informação, um tanto errônea, de que a imprensa se opunha radicalmente ao regime militar. E, pasmem, TODA a imprensa.

É muito fácil criar maniqueísmos assim, através de um revisionismo histórico em que os fatos deixam de corresponder à realidade objetiva para darem lugar a uma visão dominante que favorece apenas alguns beneficiários e oportunistas. E colocar as Forças Armadas, do lado dos vilões, e a Imprensa, como a heroína maior, foi uma estratégia que permitiu interpretações nada verídicas, mas sedutoras o suficiente para trem sido vistas como "verdadeiras" por muitos.

Durante muito tempo éramos induzidos a acreditar que todo jornalista, mesmo o mais reacionário comentarista político e o mais conservador âncora de TV e rádio, era um "guerrilheiro da democracia", um mito heroico, corajoso, batalhador. E muitos jornalistas conservadores pegaram carona em exemplos realmente batalhadores como o falecido Wladimir Herzog, da TV Cultura de São Paulo, enforcado pelos guardas do DOI-CODI em 1975.

Com a Internet, novas vozes vieram para interpretar a História e mostrar que a coisa não é bem assim. Nas Forças Armadas, nem todo mundo concordava com a ditadura. Nos circulos militares, também há uma variedade de tendências ideológicas que não raro entravam em conflito. E na grande imprensa, se havia jornalistas contrários ao regime, havia por outro lado aqueles que eram completamente a favor, ao lado de outros apenas defendendo a ditadura conforme interesses de conveniência.

A informação de que a velha grande imprensa defendeu o Golpe de 1964 e o AI-5 foi durante um bom tempo ocultada. Até mesmo o passado de militante do Comando de Caça aos Comunistas de Bóris Sasoy foi ocultado. E isso de uns cinco anos para cá, quando sabemos que até mesmo os grupos Abril e Folha colaboraram com a repressão militar em São Paulo e que até Heródoto Barbeiro era vinculado à ARENA.

Mas até isso foi uma trabalheira que só mesmo uma ação integrada de blogueiros - como Paulo Henrique Amorim, Altamiro Borges, Luiz Carlos Azenha, Emir Sader e Eduardo Guimarães, entre outros - , junto a jornalistas como Mino Carta e Mauro Santayana, pôde derrubar, porque ainda prevalecia o mito de que "jornalista" era um "guerrilheiro revolucionário armado de caneta, papel e gravador".

Até mesmo um político corrupto como o baiano Mário Kertèsz sentiu o oportunismo do mito atribuído à imprensa brasileira e ele, que havia sido prefeito biônico durante a ditadura militar, ligado à ARENA, decidiu "comprar" a sociedade baiana (e até parte do elenco da Rádio Sociedade) através de uma Rádio Metrópole que tentou ser um paradigma (muito falso, por sinal) de mídia progressista.

Muita gente acreditou neste e outros embustes da mídia "boazinha", aquela parte da mídia conservadora que, não estando no topo do mercado (onde estão Globo, Abril, Folha e Estadão), queriam parecer "progressistas" para se apropriar e se assenhorear dos movimentos sociais, evitando reais transformações.

Só que muitos sonhavam. A Bandeirantes, a Isto É, a Metrópole, ou mesmo a CBN e a Rede Brasil Sul, ou mesmo a Transamérica e a imprensa "popular", eram tidas como "reais alternativas" ao golpismo midiático das demais concorrentes. Sim, pasmem, até a CBN e o jornal Expresso (tabloide carioca), mesmo ligados às Organizações Globo, pareciam ser vistas por alguns como "ovelhas negras" do reacionarismo midiático. Mas eram as mesmas ovelhinhas brancas pintadas de preto para parecerem "mídia progressista".

Muitos caíram na cilada e viram que essa "mídia progressista" nada tinha de progressista. Desde que Mário Kertèsz deu ataques raivosos, no seu programa de rádio, a figuras eminentes da esquerda baiana, como Emiliano José, até o recente caso da Band News FM de Belo Horizonte ter demitido o blogueiro mineiro Rudá Ricci, fora uns surtos reacionários da revista Isto É e da TV Bandeirantes, a desilusão derrubou o mito de "mídia boazinha" feito dominó.

E a CBN e o Expresso são hoje reconhecidos dentro do contexto da velha grande mídia. E a imprensa virou um "quarto poder" que não podia mais fingir que estava fora do poder, e logo o reacionarismo de comentaristas políticos associados tornou-se ainda mais evidente, sendo a revista Veja o caso mais extremo.

Hoje são os intelectuais que lidam com a "cultura popular" que gozam da "superioridade" que os comentaristas políticos da velha granda imprensa perderam. Se antes muitos acreditavam, ingenuamente, que as FMs allnews iriam transformar qualquer brasileiro num intelectual e que Mário Kertèsz iria trazer de volta a Bahia dos anos dourados em matizes socialistas, crenças hoje superadas, ainda acreditamos que um Paulo César Araújo ou Pedro Alexandre Sanches vão trazer a democracia socialista para o folclore brasileiro.

Grande engano, grandes desilusões. O Pedro e o Paulo da intelectualidade etnocêntrica, propagandistas maiores e mais espertos da mediocrização cultural brasileira, mostram-se aos poucos mais reacionários, chocando a opinião pública oito anos depois de Mino Carta citar, pela primeira vez, o termo "barões da mídia" que muita gente, na época, achou uma "frescura de comunista".

Hoje as pessoas não conseguem entender por que contestamos Sanches e Araújo nas suas "urubologias". Mas antes também ninguém entendia por que blogueiros chamavam Gilberto Dimenstein e Otávio Frias Filho de conservadores. No momento, os intelectuais "sagrados", mesmo atacando a MPB esquerdista e elogiando conservadores como Waldick Soriano e Odair José, são consagrados pela opinião pública média de esquerda, assim como levou tempo para que a Folha de São Paulo fosse reconhecida como um jornal conservador.

Só que, na medida em que fatos e posições são melhor esclarecidas, certos totens caem nos pedestais. Antes, por exemplo, ninguém estranhava em ver um Merval Pereira virar "imortal" da Academia Brasileira de Letras às custas de uma reles coletânea de textos chinfrins. Hoje já se questiona mais essa "façanha". O que renderão as futuras disenterias de certas "paçocas" e "farofa-fás" ingeridas pelos leitores...

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