sábado, 7 de julho de 2012

"SERTANEJO PEGAÇÃO" NÃO INOCENTA BREGANEJOS VETERANOS


Por Alexandre Figueiredo

O atual fenômeno do "sertanejo pegação", que mostra nomes como Michel Teló, Gusttavo Lima e João Lucas & Marcelo, mas que tem em Luan Santana seu precursor mais próximo, não pode significar a absolvição cultural dos breganejos mais antigos.

Infelizmente, a mediocridade cultural brasileira tem seus truques na longevidade cronológica, dando a falsa impressão de que o medíocre de hoje será sempre o gênio de daqui a vinte anos.

Com a banalização de sucessos como "Ai Se Eu Te Pego" e "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha", alguns espertos de plantão já estão creditando a geração breganeja dos anos 80-90, aquela que animou a vitória eleitoral de Fernando Collor numa festa na Casa da Dinda, em 1989, como "música de raiz".

Até a TV Cultura, na sua atual fase "PSDB", tratou logo de empurrar Chitãozinho & Xororó e um cantor de nome Daniel - banal demais para ser um mero nome artístico - para o programa Viola Minha Viola, apresentado por Inezita Barroso e produzido por Fernando Faro, ambos zelosos pela verdadeira cultura brasileira, mas que pelos interesses comerciais da "nova fase" da emissora hoje deseducativa, tiveram que engolir breganejos parasitando o cancioneiro caipira mais antigo.

Pois não há como inocentar os breganejos mais antigos - Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo (hoje resta o segundo), Zezé di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel (resta o segundo, o tal Daniel acima citado), Gian e Giovani, Rick e Renner e outros - , que hoje parecem "sofisticados" e "tradicionais" diante dos sucessos atuais, ainda que beneficiados pela memória curta que vicia tantos brasileiros.

Isso porque eles também têm culpa pela geração atual, que apenas investe até as últimas consequências o que os "sofisticados e tradicionais sertanejos" dos anos 90 já faziam. Eles é que abriram o caminho, inspirados mais em Waldick Soriano e Odair José do que em qualquer cancioneiro caipira tradicional e mais antigo.

A essas alturas as gravadoras que outrora eram vinculadas a cantores de serestas e marchinhas carnavalescas, a Copacabana e Chantecler, estavam apostando na bregalização brasileira muito antes desta virar o carro-chefe das multinacionais e da Rede Globo de Televisão. E isso incluiu a música caipira, que sofreu um duro golpe quando foi obrigado a se diluir de vez, adotando fórmulas do romantismo pop dos Bee Gees e elementos manjados dos ritmos mariachi e bolero, além da própria country music.

Esse golpe, iniciado nos anos 70, condicionou o surgimento dos breganejos hoje mais veteranos. Que, em que pese terem ouvido na infância o cancioneiro caipira tradicional que seus pais e avós ouviam, começaram ignorando completamente qualquer compromisso por esse cancioneiro, preferindo caricaturas de moda de viola diluídas em boleros, countrys e mariachis.

Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo, há 20 anos atrás, estavam entre os maiores símbolos da baixaria musical de nosso país, juntamente com Latino, Só Pra Contrariar (de Alexandre Pires), Soweto (de Belo), Negritude Júnior (de Netinho de Paula), Art Popular (de Leandro Lehart), DJ Marlboro, Chiclete Com Banana, Mastruz Com Leite, José Augusto, Amado Batista, Michael Sullivan & Paulo Massadas e Wando.

Hoje todo mundo é "genial", "música de qualidade", "poesia de gente simples", "cultura sofisticada", sem falar da atitude cínica de definir toda essa geração neo-brega da virada dos anos 80 para os anos 90 de "verdadeira MPB", rótulo bastante falso e tendencioso.

Da parte dos breganejos, até eles gravavam músicas de "gandaias", como "Cerveja", do repertório de Chitãozinho & Xororó, um brega "country" que teve também versão no programa Amigos (Rede Globo), ao lado de Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano e virou até jingle do comercial da cerveja Bavaria.

Rick e Renner também são conhecidos por faixas assim. Eles já faziam, nos anos 90, aquele breganejo "festeiro" que hoje João Lucas & Marcelo, por exemplo, fazem. E, querendo costurar ritmos brega-popularescos, Rick e Renner já gravou até mesmo uma canção em ritmo sambrega (o estilo de Alexandre Pires, Belo e Exaltasamba), antevendo a "costura de tendências bregas" das gerações mais recentes.

A imagem "genial" que os breganejos mais antigos possuem hoje foi forjada pela Rede Globo, quando jogou os neo-bregas de 1989-1992 para gravar covers de MPB em tributos caça-níqueis. As gerações mais recentes de ouvintes, que nunca tiveram contato com a música caipira de verdade, viu nos breganejos a "verdadeira música caipira", só porque ouviram eles "coverizarem" músicas de Renato Teixeira, Geraldo Vandré e do Clube da Esquina. Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

A gente imagina o que vai acontecer nos próximos anos, se ninguém fizer alguma coisa. Será que "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha" também será conhecida como "genuína canção de moda de viola", depois que coisas piores surgirem ao longo dos anos?

Que estragos podem causar a memória curta ainda vigente no Brasil...

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