sábado, 28 de julho de 2012

REGULAÇÃO DA MÍDIA E IMPRENSA "POPULAR"


Por Alexandre Figueiredo

Quem entende a regulação midiática a sério sabe que seu processo é muito mais complexo. Envolve não apenas questões técnicas como disciplinar o serviço de TVs por assinatura ou evitar os abusos de aluguel de horários na TV aberta. Envolve, também, questões que vão muito além de domar o mau humor de comentaristas políticos de televisão, ou de posturas anti-sociais adotadas por revistas tipo Veja.

A regulação democrática da mídia envolve outras coisas. Mesmo aquelas em que parte mediana da opinião pública de esquerda julgam "divertida" e "revolucionária". Isso porque a causa da regulação midiática envolve, acima de tudo, valores ligados à cidadania e ao progresso social dos brasileiros.

É enganoso que alguém que deseje uma regulação dos meios de comunicação exemplar queira que o "mau gosto" continue prevalecendo, só porque certos intelectuais o definem como uma "causa nobre e revolucionária". Por debaixo dos panos, porém, há um desejo de que certos "defensores" da regulação da mídia queiram, na verdade, empastelá-la e transformá-la numa "letra morta", quando muito limitada apenas a uns ajustes paliativos.

Se, agindo dessa forma, as únicas conquistas que teremos com a regulação da mídia é ver Miriam Leitão se limitando a falar de índices econômicos e Arnaldo Jabor de cinema, isso significa que a regulação da mídia se tornou apenas um potente automóvel que enguiçou no começo de seu caminho.

É de se desconfiar que até Fernando Henrique Cardoso e o empresário-DJ funqueiro Rômulo Costa se digam "favoráveis" à regulação dos meios de comunicação. Ou até mesmo Roberto Civita, da decadente revista Veja. De repente, todo mundo passou a ficar a favor, até aqueles que naturalmente se posicionariam contra. Em tempos em que Paulo Maluf, anos depois de chamar Lula de "incomPTente", posa ao lado de seu antigo desafeto para apoiar um candidato a prefeito, tudo é possível.

Mas essa aparente defesa esconde dois medos. O primeiro deles é que, posicionando-se abertamente contra a regulação da mídia, se deixe vazar que quer manter os abusos cometidos pela mídia. O segundo é de ver que a regulação da mídia, sem o controle dos oportunistas, se torne um processo audacioso que comprometa seriamente os interesses dominantes em jogo.

No caso da mídia "popular", a regulação da mídia poderá comprometê-la de forma ainda mais rígida do que em relação aos comentários reacionários da grande imprensa. O rótulo "popular" parece uma palavra mágica que a opinião pública média entende por "necessariamente progressista", mas esconde um processo de manipulação da opinião pública e da cultura popular que não é da especialidade de jornalistas claramente impopulares e antipáticos como o pavio-curto Reinaldo Azevedo e o antiquado Merval Pereira.

A missão de "completar o trabalho" da "urubologia" está através dessa suposta "cultura popular" que ainda encanta os incautos "progressistas de primeira viagem". Tudo por causa do rótulo "popular" e por uma visão paternalista de que "o povo está feliz, é isso que o povo sabe e quer fazer, isso é a cultura popular de hoje, queiram ou não queiram...", alegações típicas, mas "docilmente" cruéis.

Por isso a chamada "imprensa popular", que glamouriza a miséria e endeusa como "grandes figuras humanas" jovens vazios vindos do Big Brother Brasil, funqueiros, popozudas e jogadores de futebol "noctívagos", promove o ridículo para as classes populares, produzindo "munição" para depois os comentaristas políticos botarem a culpa no povo.

E nem pense que essa "imprensa popular" é "progressista" só porque explora o "popular". Pelo contrário, muito dos valores que um jornal tipo Meia Hora defende não são muito diferentes daqueles defendidos pelas Organizações Globo ou pelo grupo Folha de São Paulo, ou mesmo por Caras e Contigo, da Editora Abril, que faz parcerias promocionais com os proprietários de Meia Hora e jornal O Dia.

E isso é apenas o lado mais suave da coisa. Imagine então quando Meia Hora comete abusos mais graves, com suas eventuais "gracinhas" que usurpam até a memória de falecidos, como no caso recente do ator norte-americano Heath Ledger? É mesmo "divertido" usar o ator para o triste episódio do massacre do cinema de Denver, nos EUA, durante uma estreia de um filme com o Batman?

Mas o endeusamento de musas "popozudas" mostra o caráter sexista e machista do jornal, que também acha ótimo quando funqueiros, pagodeiros e jogadores de futebol compram carros importados, mesmo dentro de um esquema de contrabando. E, quando ocorre alguma encrenca com algum famoso, a "denúncia" mais "diverte" do que esclarece os leitores, da forma como ela é feita.

Se Veja comete um jornalismo irresponsável, não menos responsável é o de periódicos como Meia Hora ou o Expresso, o nosso "News Of The World". A banalização da violência, a glamourização da pobreza, a exaltação de uma imagem machista da mulher brasileira são valores retrógrados que nada podem ser vistos como "progressistas".

O rótulo "popular" não pode ser usado para permitir qualquer barbaridade feita "em nome das classes populares". Esse é o maior medo daqueles que dizem defender a regulação da mídia "de verdade", mas torcem para que ela se torne apenas uma letra morta de efeitos mais brandos. Porque, para eles, evitar a degradação da cultura popular torna a vida "sem graça" e "sem o humor natural (sic) do nosso querido povo pobre".

Se, para uns, querer dignidade e melhorias de vida para as classes populares é "tornar a vida sem graça", isso mostra o quanto tem gente retrógrada disfarçada de "progressista". Gente que condena o "elitismo" dos outros, mas é incapaz de reconhecer seu próprio elitismo. A regulação da mídia chega a ser mais apavorante para esses "pensadores da cultura popular" do que para qualquer "urubólogo" de plantão na grande mídia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...