quarta-feira, 18 de julho de 2012

QUANDO A MÚSICA BRASILEIRA DANÇA O RITMO DO "PSOL-DEM"


Por Alexandre Figueiredo

A aliança de dois aparentes extremos que se vê na política, o semi-trotskista PSOL e o ultradireitista DEM, em várias chapas eleitorais ou, ao menos, em alguns protestos políticos contra o Governo Federal, também possui similar na cultura brasileira.

Visando proteger a mediocridade cultural que movimenta milhões no mercado, um poderoso lobby de intelectuais surge para fazer blindagem ao que provocativamente chamam de "mau gosto".

Para que a intelectualidade associada não seja vista como inimiga da MPB de qualidade, eles tentam puxar o saco também da parte da MPB que, mesmo competente, não adota postura rebelde no mercado e, em certos casos, aceita compactuar com a breguice reinante apoiada pelos barões da mídia e pelo latifúndio.

A intelectualidade que defende o brega-popularesco costuma tratar o cantor Chico Buarque como o grande vilão da "cultura popular" que eles defendem. Mesmo tentando fazer proselitismo na imprensa de esquerda, tentam espinafrar a MPB esquerdista com o apetite de um Merval Pereira. Mas, como nossa intelligentzia se diz "amiga do povo", pouca gente desconfia.

Só que, para não pegar mal, a intelectualidade tenta evitar fazer o mesmo com outros cantores de protesto da mesma origem pós-cepecista do filho de Sérgio Buarque, como Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo. Ou, do lado mais bossanovista, nomes como Marcos Valle e Sérgio Mendes, mais maleáveis ao mercado, em que pese a sofisticação musical que os consagrou.

Geraldo Vandré é um caso à parte. Ele poderia ser espinafrado pela intelectualidade etnocêntrica que prefere atribuir como "canções de protesto" homenagens inócuas de um Wando a um líder comunitário ou uma canção de dor-de-corno de Waldick Soriano "reinterpretada" por um medíocre trabalhinho de estudantes universitários.

Afinal, "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores", conhecida pelo subtítulo "Caminhando", é um convite às manifestações de protesto de rua, uma ode às "primaveras sócio-políticas" como as que se vê no Oriente Médio e nos países desenvolvidos. Ou seja, a letra soa indigesta para aqueles que acham que "uma boa música de protesto" é "Aguenta Coração" de José Augusto, mas que abominam qualquer música de protesto séria.

Só que Vandré, mesmo aderindo à linguagem metafórica da MPB sob censura, fez "Disparada", que, embora esconda uma letra contundente contra a alienação social e o coronelismo, pôde ser interpretada por ídolos breganejos apoiados pelo mesmo latifúndio criticado pelo compositor. Tudo por conta de um Jair Rodrigues que, num momento mediano de sua carreira, foi chamado a gravar com Chitãozinho & Xororó. Além disso, Vandré, embora mantenha no fundo a lucidez que os milicos tentaram eliminar, não é um nome que assuste o mercado, estando à margem dele e compondo letras pouco críticas.

Sérgio Ricardo, então, também está fora da mídia. É um sujeito que produz à margem das regras de mercado e já fez até trilha sonora para o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Gláuber Rocha, com direito a musicar poemas do próprio cineasta. Mas como adotou uma atitude rebelde na mesma época que Caetano Veloso, reagindo às vaias quando tocava a "despolitizada" música "Beto Bom de Bola" quebrando o violão, ele passou a ser bajulado pela intelligentzia atual.

Juntando o elenco de "malditos" bajulados pela intelectualidade etnocêntrica, temos também os músicos Itamar Assumpção, do cenário da Lira Paulistana, e Sérgio Sampaio, que havia sido membro da Soeicdade da Grã-Ordem Kavernista. Claro que os dois não estão mais aí para reclamar, mas eles são usados pela intelectualidade festiva para autenticar qualquer porcaria brega que "cause polêmica".

O ÚNICO PONTO EM COMUM É A VAIA

Desse modo, a intelectualidade etnocêntrica junta os "malditos" de verdade e os malditos bem-sucedidos da música brega no balaio de gatos que vendem como "a mais provocativa cultura transbrasileira pós-moderna e etc e tal".

Só que a única coisa que junta a MPB underground e os bregas é apenas a vaia que recebem, num momento ou em outro, da plateia ou da crítica especializada (se bem que, no caso do brega, raramente se vê hoje em dia alguma crítica negativa, pois quase todo mundo fala bem).

Que critério é esse, o de medir o valor das coisas pelas vaias recebidas? De repente, todo mundo virou "gênio" porque foi vaiado um dia. Só que existem artistas de verdade que são vaiados porque são incompreendidos, e outros porque são medíocres mesmo. Lá nos EUA, ninguém tem a frescura de comparar uma Lady Gaga a uma Laura Nyro, só porque uma e outra foram vaiadas um dia.

Mas aqui a vaia é quase que um atestado de "genialidade". E serve para a intelectualidade etnocêntrica, por puro oportunismo, juntar os alhos com bugalhos na música brasileira e promover uma espécie de "aliança PSOL-DEM" cultural, juntando o esquerdismo da MPB alternativa com o direitismo dos bregas.

Isso acaba produzindo uma nova geração esquizofrênica da MPB. Performáticos porraloucas desprovidos do senso crítico que dizem ter. Pessoas que acham que basta posar em fotos ao lado de computadores, revistas e discos de vinil fazendo caretas será "artista de vanguarda". Gente que, no entanto, é complacente com o comercialismo musical e com a mídia, falsos rebeldes que apenas consomem mais informações na Internet. Mas não se tornam artistas melhores com isso.

Tudo isso é feito para promover o neoliberalismo histérico do hit-parade brasileiro sob as pretensões de "vanguardismo cultural" erroneamente atribuídas ao brega. Empurra-se a tal ditabranda do "mau gosto" para um público mais intelectualizado, tal qual chá de losna para criancinha doente. Isso pode favorecer a vaidade dos intelectuais associados, mas de modo nenhum vai contribuir para a elevação da cultura brasileira.

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