terça-feira, 24 de julho de 2012

PROTESTO X BUBBLEGUM: E SE FOSSE NOS EUA?


Por Alexandre Figueiredo

Imagine um grupo de estudantes da Universidade do Texas que, de pirraça, criou uma tese delirante de que "This Land is Mine", sucesso de Pat Boone da trilha do filme Exodus (1961), produção baseada no livro de Leon Uris, é uma "canção de protesto".

Junta-se um autor esperto o suficiente para convencer a opinião pública, e a partir dessa canção cujo título quer dizer "Essa terra é minha", se constroi a imagem de que o conservador Pat Boone seria um "militante de esquerda" e um "cantor de protesto".

Para reforçar essa tese, o astuto escritor passe a comentar que Bob Dylan foi um "farsante", se enriquecendo às custas de "pretensas" letras de protesto, fazendo fama às custas da suposta credulidade de seus fãs. E, desse modo, o hit-parade norte-americano, dos ídolos comportadinhos pós-1958 ao bubblegum, passa a ser visto como "canção de protesto" e "rebelião popular" enquanto a verdadeira canção de protesto, nessa inversão ideológica, passa a ser vista como uma "farsa".

Pois é justamente isso que ocorreu no Brasil. Substitua Bob Dylan por Chico Buarque, e Pat Boone por Odair José. Dá no mesmo. No entanto, a "tese universitária" se deu através de estudantes da PUC de Belo Horizonte, há exatos 40 anos atrás, e o foco era outro, Waldick Soriano e sua música "Eu Não Sou Cachorro Não".

Desqualificar a canção de protesto autêntica, às custas de frescuras sem sentido, são o tom de uma intelectualidade pouco confiável, talvez uma intelectualidade mais anti-intelectual do que realmente intelectual, para seduzir a opinião pública com essa pretensa polêmica fabricada para causar frisson nas plateias juvenis.

Numa verdadeira demonstração de "urubologia" cultural, apesar do proselitismo insistente na opinião pública de esquerda - como na revista Fórum, na Caros Amigos e até em alguns blogues progressistas - , credita-se os ídolos bregas e neo-bregas, equivalentes exatos dos ídolos comportadinhos dos anos 50 e 60, como se fossem "rebeldes" ou "vítimas", conforme permitirem as circunstâncias.

E para que finalidade se faz essa inversão de valores, às custas de uma elite de intelectuais que detém o monopólio da visibilidade e da formação de opinião? Por que eles querem tanto que ídolos inócuos como Waldick Soriano, Odair José ou Wando - este por uma homenagem pueril a um líder comunitário - sejam reconhecidos como "cantores de protesto", enquanto os verdadeiros cantores de protesto são em geral desqualificados como "farsantes"?

Aliás, o alvo maior dos ataques da "urubologia" intelectual, o cantor Chico Buarque, precisa ser "isolado" diante dos ataques dessa turma de "pensadores" à música de protesto. Claro que a turma que defende Waldick Soriano e Odair José como se eles fossem "cantores de protesto" gostaria de partir para cima, também, de Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo, ou de um Carlinhos Lyra envolvido com cepecistas. Mas se eles têm que engolir seco até as críticas ácidas de José Ramos Tinhorão, terão que poupar os outros também.

Afinal, o protocolo exige. Esses intelectualoides se encontram num contexto em que precisam fazer proselitismo na opinião pública de esquerda. Precisam engolir seco as abordagens, para eles indigestas, de um Tinhorão ou de um Emir Sader, enquanto por outro lado precisam fingir que odeiam Eliane Cantanhede, Otávio Frias Filho, Marcelo Tas e outros.

Esses intelectuais precisam isolar Chico Buarque de seus colegas de causa, como Sérgio Ricardo, Carlinhos Lyra e Geraldo Vandré. Primeiro, para evitar a impressão de que tal intelectualidade defende o brega em detrimento da MPB de qualidade. Segundo, porque precisa se apoiar da cultura séria para defender a mediocrização cultural.

Esses "pensadores" já possuem posições estranhas o bastante para que suas contradições não sejam ocultas. Sem falar de um grotesco Eugênio Arantes Raggi, para o qual a brilhante MPB de 1930-1964 é "fantoche do DIP", num claro posicionamento anti-trabalhismo e anti-socialismo que o posicionaria, em 1964, numa tendência anti-Jango e pró-golpe que seu pseudo-esquerdismo não consegue esconder. Aliás, dizem as más línguas que Raggi virou um pé-frio para a esquerda mineira, que vive um período de desentendimentos e fracassos.

Mas mesmo o óbvio posicionamento contrário à MPB de esquerda já é uma contradição forte dessa intelectualidade pró-brega que jura ser "de esquerda". Afinal, uma "esquerda" criticando a esquerda, não pelo natural direito da crítica, mas pela ojeriza reacionária, é estranho. Principalmente se essa "esquerda" intelectual antepõe a MPB esquerdista com a defesa de ídolos bregas claramente de direita.

Evidentemente, interesses estão em jogo. E são interesses do mercado. E quando um Pedro Alexandre Sanches fala que "o mercado morreu", ele não está indo contra o mercado. Seu raciocínio segue exatamente a ideia de que um economista dizendo que o nacionalismo e o sindicalismo morreram, o que vale agora é o neoliberalismo.

Sanches defende o fim de um mercado ainda vinculado a propósitos sociais da cultura, aquele que permitia expressões culturais genuínas, com um quê de folclóricas, um mercado que abriga a "intragável" MPB "biscoito fino", alvo das "urubologias" do colonista-paçoca. Ele quer é aquilo que ele e o seu mestre maior Fernando Henrique Cardoso definem como "flexibilização" e que nós e até o mundo mineral entende por "desregulamentação" e "mercantilismo".

O que Sanches quer é hit-parade feito no Brasil, em contextos brasileiros, mas "hiperconectado" com as normas impostas pela indústria fonográfica dominante. Ele não quer necessariamente que uma Warner ou Universal Music comande o mercado em si, mas que suas regras sejam assimiladas pelos selos pequenos do Pará, de Salvador, de Recife ou coisa parecida. Que não produza uma nova Gal Costa, mas uma nova Beyoncé, uma nova Lady Gaga em linguagem brasileira.

Essa verborragia pseudo-etnográfica, pseudo-esquerdista, pseudo-modernista, desses intelectuais que defendem a música brega e seus derivados é apenas um discurso para impressionar. Isso enquanto a MPB não é derrubada e o folclore não é trancafiado em museus mofados. Uma vez concluída a tarefa, os intelectuais pseudo-esquerdistas "apunhalam" as esquerdas pelas costas e vão para a Rede Globo comemorar a conquista dos bregas nos terrenos remanescentes da MPB.

Aí, será a vitória do bubblegum brasileiro, que não precisará mais usar a máscara de "música de protesto" para enganar as pessoas. O neoliberalismo musical, neste caso, já teria cumprido seu objetivo.

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