domingo, 22 de julho de 2012

O USO DA CULTURA SÉRIA NA DEFESA DA MEDIOCRIDADE


Por Alexandre Figueiredo

Nas revistas Fórum e Caros Amigos, prossegue o proselitismo desesperado de Pedro Alexandre Sanches (nas duas publicações) e MC Leonardo, apenas na segunda.

Ainda beneficiados pela visibilidade, os dois arautos da mediocrização cultural, diante do lançamento do Coletivo Fora do Eixo nas suas primeiras empreitadas eleitorais - fala-se na criação do Partido da Cultura, que será o PSOL de amanhã e o PPS de depois de amanhã - , tentam agora usar a cultura séria para justificar a mediocrização cultural que atinge níveis avassaladores.

Dando uma aparente folga na defesa do brega-popularesco, Sanches traça o plano de "isolar" a MPB "biscoito fino", classificando-a de "purista". Para tanto, ele se utiliza de dois artistas respeitáveis que, na sua retórica, são jogados contra Chico Buarque, a exemplo do que Gustavo Alonso, orientado por Paulo César Araújo, fez jogando Wilson Simonal contra o filho de Sérgio Buarque de Hollanda.

Os dois artistas, Erasmo Carlos e Sérgio Ricardo, são anteriores a 1967, mas foi a partir daí que eles buscaram maior visibilidade, através de uma associação, um tanto indireta, com o Tropicalismo, a "bússola" maior da intelectualidade cultural brasileira, tanto nas virtudes quanto nos defeitos (vistos como "virtudes").

Erasmo é injustamente lançado contra os chamados "puristas" da MPB. Só que Erasmo, um dos mais criativos nomes da Jovem Guarda, nunca expressou qualquer oposição à MPB "pura", Erasmo sempre demonstrou respeito e admiração por Chico Buarque, admirado até pelo amigo e parceiro Roberto Carlos.

Sérgio Ricardo, por sua vez, faz a mesma MPB de protesto associada ao "arquivilão" da intelectualidade festiva atual. E se Sérgio Ricardo faz a intelligentzia de hoje cair em delírio, reagindo furioso contra vaias enquanto tentava tocar a "alienada" canção "Beto Bom de Bola", quebrando o violão no famigerado episódio de 1967, é bom deixar claro que "Beto Bom de Bola" é tão "alienada" quanto "A Banda" do "insuportável" Chico.

E Nara Leão, a bossanovista que virou cepecista e depois tropicalista, estava nessas praias todas sem problema. Com Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Roberto e Erasmo, Caetano e tudo. Mas sempre dentro da qualidade e da honestidas artísticas, cuja defesa não deve ser vista como purismo algum.

INTELECTUALIDADE AOS POUCOS PASSA A DEFENDER VELHA MÍDIA

Enquanto isso, MC Leonardo, em mais uma daquelas choradeiras que os defensores do "funk carioca" sempre fazem, tentou associar, em seu artigo mais recente, o ritmo ao jongo (um dos derivados do samba). Recentemente, o MC Naldo comparou o "funk carioca" ao samba e a historiadora Mônica Neves Leme, anos atrás, havia feito o mesmo entre o lundu e o É O Tchan (grupo de "pagodão" baiano que, em parte, influenciou o "funk carioca", sobretudo através de um disco com o DJ Marlboro).

MC Leonardo havia participado de uma mesa redonda sobre jongo E, a certa altura, MC Leonardo comete um equívoco grave, que é de afirmar que as gerações mais jovens não devem ter o "peso de responsabilidade" pela tradição cultural de seus antepassados. Ou seja, ele disse que os jovens não devem assimilar o samba de raiz e seus ritmos (podemos inferir não só o jongo, mas o caxambu, o coco, o maracatu, o lundu etc), mas "acrescentar" o "funk carioca" à historiografia cultural.

Neste sentido, MC Leonardo junta dois pensadores numa pregação só: Fernando Henrique Cardoso e Francis Fukuyama, este por sinal presente no texto de Pedro Alexandre Sanches sobre Erasmo Carlos, através daquela visão de que 1967 representou o "fim da História" para a MPB.

MC Leonardo, também querendo evitar a memória do passado envolva os jovens favelados de hoje, também evoca FHC, quando este disse para esquecer tudo que ele ensinou e escreveu. O dirigente funqueiro quer que os jovens pobres também esqueçam tudo que aprenderam de cultura e só fiquem com o "funk". O samba, o jongo e outros ritmos é que têm que se submeter à máquina de fazer grana funqueira.

Quanto a Pedro Alexandre Sanches, seu pálido e postiço esquerdismo o faz cometer um deslize informativo no texto sobre Sérgio Ricardo. Querendo embarcar na agenda esquerdista, ele erra nos dados sobre o episódio de Pinheirinho, creditando o despejo de moradores ao bairro paulistano de Pinheiros, mediante um plano da especulação imobiliária articulado pelo ex-prefeito de São Paulo, o pessedista Gilberto Kassab.

Sabemos, no entanto, que se trata do episódio não de Pinheiros, o bairro de Sampa, mas de Pinheirinho, o grande bairro popular de São José dos Campos, já com toda sua rotina de vida, sua cultura e sua complexidade, desfeitos não pela ordem de Gilberto Kassab, mas pela imposição de Geraldo Alckmin, o governador paulistano.

Só que Alckmin patrocinou o último Congresso Fora do Eixo, e como membro do PSDB não deixa de estar vinculado, mesmo com os recentes atritos entre seus "caciques", a Fernando Henrique Cardoso, mestre maior de Pedro Alexandre Sanches, que como estudante da USP havia aprendido uma abordagem cultural pregada por intelectuais que, depois, estariam associados tanto à Folha de São Paulo, a TV Globo e o PSDB.

Como não dá mais para disfarçar, Pedro Sanches, além de poupar o governador da Opus Dei, parece mais condescendente à velha grande mídia. Em certo momento, ele ironiza o termo "grande mídia" usando aspas na palavra "grande", já que ultimamente ele anda muito feliz com o apoio que a Rede Globo dá para sua diva, a cantora Gaby Amarantos.

Mesmo as críticas que Sanches faz à indústria fonográfica, e mesmo assim juntando alhos com bugalhos, como colocar os bregas Chitãozinho & Xororó ao lado dos medalhões da MPB, encontram contradições e equívocos. Primeiro, por creditar as grandes gravadoras como "parceiras" da arrecadação financeira do ECAD, visto não como a instituição em si, mas quase que um alter ego da ministra da Cultura, Ana de Hollanda.

Embora critiquemos a cumplicidade da irmã de Chico Buarque ao ECAD - atitude reprovada pelo cantor - , é bom deixar claro que a MPB da gravadora Biscoito Fino é constituída por gente que largou as grandes gravadoras pelo autoritarismo delas, por regras que, depois, foram subservientemente seguidas por nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel e outros.

Tudo isso sem falar que a Som Livre, gravadora que acolhe os bregas supostamente "independentes" (sobretudo Banda Calypso, DJ Marlboro, Michel Teló e Gaby Amarantos), é uma grande gravadora brasileira, no sentido que a Warner é nos EUA. Isso está claro no controle empresarial das Organizações Globo, fato que não precisa de muitas explicações de tão óbvio que é.

Além do mais, para que se preocupar com a participação acionária do Banco Icatu na gravadora Biscoito Fino, se os maiores latifundiários do país patrocinam a suposta "cultura da periferia" de funqueiros, tecnobregas, forrozeiros-bregas, breganejos e coisa e tal? E os "coronéis", com muito gosto, compram espaços na Europa para jogar desde aquele funqueiro surgido do nada para excurcionar pelos países europeus até um Michel Teló que os brasileiros só passaram a conhecer a partir de um jogador português.

Usar a MPB autêntica e os ritmos folclóricos para justificar a mediocrização cultural é um artifício que nada vai enriquecer a cultura brasileira. Antes só vai permitir que a mediocrização se dê pelas comparações com a cultura séria. Mas isso não vai trazer o jongo para as grandes plateias nem fará com que Sérgio Ricardo seja mais conhecido pelas plateias jovens acostumadas com Michel Teló e João Lucas & Marcelo.

A associação da mediocrização cultural à cultura de verdade é apenas um mecanismo tendencioso para a intelectualidade festiva tentar afastar as críticas. Só que ela acaba complicando as coisas, porque contradições sempre aparecem.

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