quinta-feira, 5 de julho de 2012

O POP É O NEOLIBERALISMO FEITO SORVETE


Por Alexandre Figueiredo

É muito fácil intelectuais que defendem uma visão neoliberal de "cultura popular" - principalmente na defesa chorosa da música brega - tentem fazer um proselitismo na opinião pública esquerdista.

Mesmo vestindo a camisa da velha mídia, eles, ao adotarem o pretexto da defesa das "culturas das periferias", eles dão a falsa impressão de defenderem as classes populares, ao atribuir a elas um tipo de "cultura popular" que sabemos claramente ser criado por executivos especializados e abertamente apoiado pelos barões da mídia.

Quase a esquerda entregou suas rédeas a essa intelectualidade, graças ao discurso altamente sedutor de seus pregadores, que misturava alhos com bugalhos no seu discurso, como se quisessem, no plano cultural, defenderem o "livre mercado" a pretexto de uma falsa revolução socialista.

Mas se estivermos bem atentos, o discurso que pessoas como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Ronaldo Lemos, Milton Moura e outros é do nível do mais paranoico neoliberalismo. É algo como Otávio Frias Filho, Merval Pereira e Miriam Leitão falando sobre folclore brasileiro. Arnaldo Jabor não conta, porque ele é contra o brega-popularesco por questões pessoais, e por ter sido um cepecista. Reinaldo Azevedo também não, porque ele defende as "joias" de seu castelo medieval.

Todavia, um Gilberto Dimenstein, que fala muito mal dos professores da escola pública, que propaga um padrão neoliberal de "cidadania", defendeu em um texto o "funk carioca" com tamanho entusiasmo paternalista. Em muitos aspectos, suas ideias se afinam rigorosamente com as de MC Leonardo.

Certa vez, numa manifestação de protestos contra o fim do programa Manos e Minas da TV Cultura, Gilberto Dimenstein e Pedro Alexandre Sanches se reencontraram para uma conversa animada e, provavelmente, para falarem dos "áureos tempos" de Sanches na Folha de São Paulo, quando o crítico musical foi um dos primeiros a promover a funqueira Tati Quebra-Barraco como "grande coisa".

Não dá para definir como um "movimento de ocupação" um Rio Parada Funk, por exemplo. Assim como não dá para dizer que o Michel Teló é o "nosso Julian Assange". Do Occupy Wall Street, o único ponto comum com o Rio Parada Funk é apenas a ocorrência de uma época próxima, e Teló apenas coincide com Assange na cor do cabelo.

Mas, pasmem, a intelectualidade etnocêntrica parte para esse absurdo, mesmo. Tentam definir o entretenimento brega-popularesco como "uma onda de movimentos sociais". Foi isso que fez o "funk carioca" e o tecnobrega apostarem no lobby político-partidário para tendenciosamente ganharem o rótulo de "patrimônios culturais". Nada que fosse realmente sério, mas sim feito para arrancar verbas estatais para irem para os bolsos de seus "paupérrimos" empresários.

Com uma observação mais cautelosa, não é difícil desmacarar esse discurso que, entre outras coisas, plantão até uma falsa indicação ao Nobel da Paz para a Banda Calypso, lançada por um pseudo-líder "revolucionário" do Pará. As omissões e contradições de seus defensores e adeptos é gritante, e mostra o quanto há de analogia entre a "cultura pop" que inspira seus discursos e o neoliberalismo, até mesmo em alguns de seus jargões.

Primeiro, a própria desculpa da "diversidade cultural" equivale literalmente à ideia de "democracia" veiculada pela velha grande mídia. A expressão "novas mídias", embora tenha sido tomada emprestada da retórica informática, é desenvolvida da mesma forma que o "livre mercado" dos cronistas políticos mais conservadores.

Mesmo o termo "transbrasileiro" lançado pelos textos de Pedro Sanches não deixa de ter uma conotação neoliberal. O sentido é rigorosamente o mesmo de "transnacional", o que quer dizer algo "nem tão brasileiro" assim, dentro dos padrões de subordinação ao Primeiro Mundo da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso.

A única diferença que o discurso "cultural" dessa intelectualidade e o discurso dos "urubólogos" da velha imprensa tem é que os primeiros evitam o discurso pessimista e raivoso dos segundos. O pop é o neoliberalismo feito sorvete para o deleite dos incautos. E é isso que acaba iludindo muita gente, porque é um discurso de falsas esperanças, aparentemente livre do catastrofismo habitual dos "urubólogos".

Livre, entre termos. Quando o assunto é Chico Buarque e a MPB esquerdista em geral, a intelectualidade etnocêntrica age da forma mais "urubológica" possível. E mostra as sérias contradições em defender figuras conservadoras como Waldick Soriano e Odair José e combater esquerdistas autênticos como Chico Buarque. Neste sentido, Paulo César Araújo mais parece ter surgido não da PUC, mas dos porões da revista Veja.

Com esse discurso, a intelectualidade etnocêntrica quer substituir a cultura brasileira pelo hit-parade brasileiro, com a diferença de que se empenhe a sufocar as outras manifestações sócio-culturais, isoladas em espaços cada vez mais fechados e restritos, de preferência quase nada. A ideia é que se um figurão da MPB autêntica, ou um emergente da MPB alternativa ou alguém do Rock Brasil tiver algum espaço na mídia e no mercado, que faça dueto com Ivete Sangalo, Mr. Catra ou Banda Calypso para ter algum lugar ao Sol.

Dessa forma, a intelectualidade dominante quer que a cultura brasileira fique mais próxima do Michael Jackson do que do Jackson do Pandeiro. E que seja obediente e submissa às regras do mercado, promovendo a mediocrização que garante o consumo fácil. E as classes mais esclarecidas terão que engolir tudo isso, achando que o "mau gosto" que impera o brega-popularesco é uma "causa nobre".

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