terça-feira, 10 de julho de 2012

O "PAÍS-MULHER" DO IMAGINÁRIO MACHISTA


Por Alexandre Figueiredo

Há uma situação completamente estranha. Anda-se nas ruas, em quase todo lugar, sobretudo nos bairros populares. Homens para tudo quanto é canto. Por outro lado, procura-se na Internet por mulheres que sejam um pouco mais interessantes e a maioria é comprometida.

No entanto, as estatísticas batem o pé: o Brasil é um "país-mulher", dizem, até exagerando na aparente proporção de 96 homens para 100 mulheres, que não é assim tão otimista quanto se parece. Até porque a proporção é menos generosa do que aparenta, sendo um homem para uma mulher. Não existe 0,96 homem para cada mulher, como também é impossível haver 1,04 mulher para cada homem.

E isso se considera se os dados censitários realmente correspondem à realidade. Isso porque centenas de milhares de homens simplesmente são ignorados pelos recenseadores. São homens muito ricos que vivem sempre viajando de avião. Ou então são pobres que de alguma forma são considerados "socialmente desagradáveis", como os mendigos, isso para não dizer os bandidos que por razões óbvias se recusam a receber os recenseadores.

O êxodo rural, então, é um caso típico. Mostra homens que "não têm lugar". Eles não vivem nas suas áreas de origem porque sofrem com o desemprego e a pobreza, além da opressão coronelista. Vão para as capitais. Mas as capitais não os consideram sequer como números estatísticos, e muitas vezes eles só viram números quando vítimas de assassinatos, através dos registros policiais (que nem sempre registram tudo que acontece no submundo social).

FEMINICÍDIO CONFRONTA DADOS ATUAIS E DE 1960

E o feminicídio? Por que, ocorrendo o feminicídio, que sofreu um aumento de 217% de 1980 a 2010, oficialmente ainda há "mais mulheres" que 1960, quando havia a proporção populacional de 102 homens para cada grupo de 100 mulheres? Os dados censitários de 1960 eram de uma sociedade mais recatada, com a violência ainda incipiente, algo que mudou muito ao longo das décadas.

O feminicídio, fruto da reação machista contra a emancipação feminina, registra, no intervalo de 1980 a 2010 cerca de 91 mil mulheres assassinadas. Isso é quando se noticia esses homicídios, porque o machismo, em muitas vezes atrelado a conveniências sociais e até político-econômicas, costuma omitir também outros homicídios.

E outros infortúnios, como os acidentes de trânsito, as doenças, os erros médicos, as omissões dos hospitais, os latrocínios e outros que dizimam mulheres diariamente? Será suficiente que se omita a gravidade da situação com fantasias estatísticas que só servem para estimular a libido machista, da forma como elas são veiculadas pela mídia?

Se vemos cerca de 100 mil homens que, ignorados pelo Censo do IBGE, não são considerados "homens" e muito menos uns simples números estatísticos, e milhares de mulheres mortas pela violência ou por outras causas circunstanciais, não há com nos deliciarmos com os dados oficiais que prometem "mulherada para todo mundo" e "quórum" para as manifestações políticas feministas.

É DESAGRADÁVEL, MAS É REALISTA

Soa desagradável para muitas mulheres que se conteste a imagem de "país-mulher" atribuída oficialmente ao Brasil. Soa incômodo, irrita até. Mais confortável seria feministas e machistas andarem de mãos dadas acreditando que "tem mais mulher neste país", com as falsas solteiras "popozudas" escondendo seus maridos nos cafundós do Norte e Centro-Oeste do país, ou então todo mundo ocultando serenamente as mulheres mortas pelos cônjuges que, livres da prisão, se preparam para seduzir outras mulheres.

Mas o mito do "país-mulher" pouco favorece o feminismo, cuja importância está acima de questões de maioria ou minoria. Favorece muito mais o machismo, aliviando a culpa dos feminicidas, que apenas dizimaram "umas poucas mulheres". E esse machismo atenuado pelos dados oficiais acaba sendo tolerado até de maneira institucional, o que dificulta, muitas vezes, a superação dos valores machistas mais retrógrados que ainda vigoram em nosso país, até mesmo entre muitos garotões "sarados".

E tem também o interesse do mercado hoteleiro e turístico que, pelas leis oficiais, abomina e condena o turismo sexual, mas, por debaixo dos panos, se alimenta da comercialização da sensualidade feminina, seja pela propaganda, seja pela prostituição. É interesse que se junte à paisagem tropical do Brasil - a exemplo do que ocorre, por exemplo, em alguns países do Caribe - a imagem da "morena faceira", criando o mito do "país-mulher" que atrai os homens do exterior ou faz a rotatividade dos brasileiros dentro do país.

O machismo ainda vigora até mesmo no mercado. E os dados oficiais, que ocultam centenas de milhares de homens para não atrapalhar o turismo sexual, também "aliviam" as dívidas públicas, porque a multidão masculina "desaparecida" dos dados censitários deixa de exigir investimentos em educação, saúde e emprego.

A obrigatoriedade de sempre associar a paisagem tropical à imagem feminina cria muitas distorções. Sem falar que uma paisagem tipicamente veraneia e praiana não indica necessariamente que o aprazível local seja sempre de maioria feminina na população.

Essas distorções criam estereótipos que, embora sejam trabalhados seriamente a partir dos dados oficiais, são muito risíveis, se comparados com a realidade sociológica. No interior do país, o estereótipo masculino é o equivalente moderno ao Jeca Tatu, com trajes de funcionário público, feliz porque ganha um mísero salário e mal consegue ter um sítio. Isso contraria a necessidade natural que muitos homens do interior têm de possuir uma casa de praia, um desejo não só típico mas também muito frequente.

Já outro estereótipo risível é o da adolescente do interior que, ainda apegada na sua inocência infantil, da noite para o dia decide viajar sozinha para as capitais, como se tivesse virado uma valentona tão de repente. Tanto a adolescente durona que mal largou as bonecas e viaja sozinha para as capitais quanto o caipira moderno que vive feliz isolado na roça são estereótipos que vão contra realidades concretas, incapazes de oferecer qualquer explicação lógica a tais estereótipos estimulados pelos dados estatísticos oficiais.

Por isso, pedimos desculas às mulheres que, lendo este blogue, se sentiram indignadas com textos contra o mito do "país-mulher". Parece desagradável, mas é realista. Junta-se os dados da realidade concreta, colhidos fora dos limites burocráticos do IBGE, e se vê que o Brasil é um país com uma maioria masculina que "não existe", enquanto "continuam existindo" mulheres que o feminicídio faz não existirem mais.

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