domingo, 1 de julho de 2012

O GRÃO-MESTRE CAETANO


Por Alexandre Figueiredo

Caetano Veloso é uma personalidade de altos e baixos. Como sua tese-antítese da música brasileira, o cantor Roberto Carlos, também tem seus altos e baixos.

É inegável que o filho de dona Canô Veloso tenha muita informação musical, que seu talento é indiscutível, que sua presença de palco é, até hoje, expressiva e atuante.

Também é surpreendente a jovialidade do cantor baiano, que com Gilberto Gil tornou-se o mais conhecido entre os fundadores e ideólogos da Tropicália (embora sabemos que o Tropicalismo também é Tom Zé e também havia sido Torquato Neto).

Caetano diz que sua idade espiritual é 14 anos. Um quinto da idade que completará em 07 de agosto próximo. O espírito jovem de Caetano Veloso, como no caso de Jô Soares, é uma qualidade inegável, e uma vantagem muito rara em homens da casa dos 70 anos, mas também em "meninos" nascidos na década de 1950, sobretudo médicos, empresários, advogados e engenheiros de 55 a 61 anos que, sisudos, brincam de serem velhos.

O disco que aparece aqui, Transa, é considerado um dos álbuns conceituais de Caetano Veloso e o melhor dele segundo os especialistas em MPB. Sem dúvida, a melhor fase do cantor baiano está entre os discos gravados entre 1967 e 1973, quando o Tropicalismo era novidade e tomada de muita ousadia. O álbum de 1973, Araçá Azul, também é outro álbum conceitual.

O problema é que Caetano Veloso era também deslumbrado com a "cultura de massa" e o Tropicalismo já tinha dado seu canto de cisne nos anos 70, de forma mais definitiva em 1978. A essas alturas, Caetano Veloso havia causado a vaia de muitos - sim, de muitos! - quando cantou ao lado de Odair José no festival Phono 73, reunindo o elenco de cantores e grupos contratados pela Phonogram (atual Universal Music).

No final dos anos 70, o Tropicalismo atingiu o establishment e a imprensa, naqueles anos da ditadura militar onde havia maior pressão social por mudanças - era o período de (relativa) abertura política do governo do general Ernesto Geisel - cobrava uma postura política que os dois líderes tropicalistas não tinham, como talvez nunca tiveram, embora a aura mística em torno deles sugerisse o contrário.

Caetano Veloso, a essas alturas, passava a dar declarações arrogantes, uma delas, registrada por Ricardo Alexandre no seu livro Dias de Luta a partir de pesquisas feitas na imprensa dos anos 70, em que o cantor se autoproclama "sagrado".

Com a despolitização dos líderes tropicalistas, não bastasse o falecimento do poeta Torquato Neto - que era o verdadeiro cérebro da teoria original da "geleia geral", que sugeria um debate e não uma contemplação resignada da "cultura de massa" no Brasil - e a ida de Tom Zé para o underground, Caetano Veloso e Gilberto Gil deixaram de ter aquela reputação de ousados, enquanto cooptavam a intelectualidade que os endeusava como se fossem "unanimidades".

Caetano Veloso compartilhava com outro cantor, o Roberto Carlos domesticado pela Rede Globo, os paradigmas dos rumos que a música brasileira foi obrigada a tomar. Caetano fazia a MPB se apegar à "cultura de massa", Roberto Carlos fazia os bregas e tornarem mais "luxuosos" e, por isso, "falsamente MPB". Só que era o mercado fonográfico que comandava tais regras, os cantores eram porta-vozes dessa "linha de montagem".

O "aburguesamento" da MPB acabou tendo como bodes expiatórios a chamada "MPB biscoito-fino" dos discípulos de Tom Jobim, quando na verdade ela teve raiz pós-tropicalista e suas regras foram seguidas com gosto pela geração neo-brega surgida nos anos 90 (Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo, Exaltasamba, Leonardo, Daniel, Belo).

A intelectualidade, por sua vez, era "orientada" pelo padrão proto-tucano da USP (Fernando Henrique Cardoso, sobretudo) a "repensar a cultura popular" dentro da necessidade de se construir uma "cultura de massa" brasileira, enquanto, aos poucos, se extinguia o patrimônio cultural brasileiro, "congelado" num passado confinado nos museus ou contemplado privativamente pelas elites "especializadas".

E aí Caetano, Roberto, Fernando Henrique e seus seguidores criaram os paradigmas neo-conservadores para a cultura brasileira. Juntos, fizeram escola para uma geração de intelectuais que inclui Paulo César Araújo, Hermano Vianna (aluno de um aliado de FHC) e Pedro Alexandre Sanches. Este último, que escreve na mídia esquerdista igualzinho Caetano em O Globo, foi saudar seu grão-mestre no texto da revista Fórum, no mês passado.

E Caetano Veloso, na semana passada, havia escrito que achava lindo o exemplo do jogador português Cristiano Ronaldo em divulgar Michel Teló "para o mundo". No fundo, é só para mostrar que o Brasil também tem hit-parade. Nada sério.

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