segunda-feira, 16 de julho de 2012

O FALSO HEROÍSMO DE FERNANDO COLLOR


Por Alexandre Figueiredo

De vez em quando, parte das esquerdas merece ser criticada, sobretudo pelas posturas completamente estranhas que adota às vezes. No âmbito cultural, sabemos, a esquerda mais mediana já recebe aqui duras críticas pela complacência que possui, abertamente, pela mediocrização cultural no país.

Mas, não bastassem os Waldicks, Wandos, Josés Augustos, Sullivans & Massadas hoje convertidos a "injustiçados artistas concretisto-guevariano-pós-moderno-pós-tropicalista-hiperconectado-transbrasileiros", até a política também mostra seu "coitadinho" de plantão. Se não se pôde salvar Paulo Maluf, salva-se, pelo menos, Fernando Collor de Mello.

Ávida por criar um maniqueísmo, a esquerda mediana decidiu endeusar Fernando Collor, só porque ele passou a fazer ataques à "ala vejista" do esquema de Carlinhos Cachoeira: Roberto Gurgel, Gilmar Mendes, Roberto Civita, Policarpo Jr..

Fernando Collor os critica não porque, de repente, virou o "bom moço concretista-bolivariano". E nem baixou o espírito de Leonel Brizola nele, em que pese o ato falho de Brizola ter apoiado Collor em 1992, a troco de verbas federais (Brizola, nessa época, não vivia uma boa fase). O senador apenas está sendo pragmático conforme suas posições políticas pessoais.

Collor, queridinho da Editora Três (de Domingos Alzugaray), evidentemente se lança contra Veja, apesar desta ter criado um mito ao lado da Folha de São Paulo, o de "caçador de marajás", fantasia que, reconheçamos, a Globo não criou e apenas popularizou ao ponto de causar a tal vitória nas urnas. Em algum momento a famiglia Civita traiu o então presidente, que se voltou contra antigos aliados na medida em que surgiram desavenças de interesses pessoais.

A Rede Globo, ontem, no Fantástico, exibiu a entrevista com a ex-mulher de Collor, Rosane Malta, antes conhecida como Rosane Collor, em que ela apenas reafirma informações dadas em outros depoimentos. Sobretudo o tal episódio da magia negra, cujos rituais, segundo ela, o então marido costumava fazer.

Talvez Globo esteja contra Collor apenas por desavenças pessoais. Assim como Veja. Mas não dá para criar maniqueísmo achando que Globo, Veja e Folha são o mal e Fernando Collor o bem. Talvez a tese seja válida pela metade, já que Globo, Veja e Folha em muitos momentos adotam posições canhestras. Mas Collor, promovido a "herói da temporada", não faz sentido.

O SIGNIFICADO DA ERA COLLOR

O que faz agitar a torcida animada em defesa de Fernando Collor é que ele simbolizou paradigmas que hoje a elite da intelectualidade e de setores dominantes da opinião pública apoiam e que, lançados desde a Era Geisel, foram reafirmados e fortalecidos pelo governo do filho de Leda Collor e Arnon de Mello.

Collor realizou um projeto neoliberal festivo, que no plano cultural simbolizou um populismo de caráter conservador que alimentou toda uma "indústria cultural" brasileira, incluindo rádios controladas por oligarquias políticas e empresas de entretenimento (inclusive casas noturnas e agências de cantores e conjuntos musicais).

Sua vitória eleitoral tinha até a trilha sonora que revelou a geração neo-brega posterior ao esquema de Michael Sullivan, por sua vez o chefão do entretenimento brega, aliado da Rede Globo que hoje posa de "coitadinho e pobrezinho". Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Chiclete Com Banana, Latino, Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano, Netinho de Paula, Asa de Águia, DJ Marlboro, Kaoma e Mastruz Com Leite são alguns dos neo-bregas que se ascenderam na Era Collor.

Collor contribuiu para a desnacionalização da economia fazendo o inverso de Juscelino Kubitschek. Enquanto este havia feito a substituição das importações pela fabricação nacional de produtos, mesmo por empresas estrangeiras instaladas no Brasil, Collor fez exatamente o oposto. E Collor ainda confiscou as poupanças dos brasileiros, o que pode ter incomodado as elites, sim, mas também incomodou as classes trabalhadoras.

Collor sofreu um impeachment num dos últimos episódios em que a grande imprensa exibia sua aura de idealismo, ainda que falsa. O jornalismo investigativo se banalizou em denúncias que, naquele momento, eram em muitos casos corretas, mas criou um narcisismo na grande imprensa que depois descarrilou com a exploração mentirosa dos boatos de estupro na Escola Base, em São Paulo, e nas posturas a cada ano contrárias aos interesses públicos, feitas pelos comentaristas políticos.

Nos últimos anos, porém, Collor passou a ser "reabilitado" por uma geração que era muito pequena para entender seu passado. O ex-presidente passou a ter uma blindagem antes inimaginável, até mesmo nas redes sociais, mas sobretudo nos veículos da editora do amigo Domingos Alzugaray, que jogou o ex-presidente, tendenciosamente, na lista dos "cem brasileiros mais influentes de 2005".

Foi a senha para colocar Collor novamente na vida política, desta vez como senador do PTB, ironicamente sigla partidária de um desafeto político do pai. Mas o PTB de hoje nem de longe é a sombra do partido trabalhista que foi, e os pais de Collor haviam se empenhado no IPES e IBAD para derrubar João Goulart.

Collor, antes arquirival de Lula na campanha de 1989, hoje tornou-se seu aliado, numa posição lamentável do Partido dos Trabalhadores. E não dá para ser esquerdista de verdade assim, dentro de um sectarismo cego, no plano político aprovando alianças fisiológicas só porque PT, PSOL ou coisa parecida decidiram, no plano cultural elogiando a "cultura" brega e seus ideólogos.

Se eu fosse político, não haveria um partido político onde eu iria me encaixar. Além do mais, o fisiologismo político nunca trouxe benefícios reais para a população. Diluem-se projetos e causas sociais em paliativos que escondem a corrupção política mais constrangedora, tornando inútil e irrelevante a causa progressista prometida. A politicagem continua a mesma, animando aqueles que a apoiam em nome de meras vantagens pessoais.

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