domingo, 29 de julho de 2012

O BLOQUEIO EMPRESARIAL DA CULTURA POPULAR


Por Alexandre Figueiredo

Do contrário que a intelectualidade delirantemente alardeia, a dita "cultura popular" não é mais do que um mercado dominado por empresários "especializados" que controlam ideologicamente todo o processo, do padrão de criação musical até mesmo ao nível de opiniões que deve dar um "artista".

Já foi escrito que, para evitar problemas, a intelectualidade associada precisa creditar os ricos empresários do brega-popularesco como "gente humilde" ou, quando muito, como "pobres que ganham dinheiro com seu suor".

Desse modo, o dono de um grupo de forró-brega, por exemplo, pode ser daqueles bem ricos, que detém até o nome do seu conjunto musical e a decisão de acrescentar ou substituir integrantes, trocar cantores, aumentar as dançarinas, e até mesmo decidir qual música poderá ser gravada, ou se aquela composição enviada por um chapista de automóvel ou por um mecânico de borracharia tem tudo para fazer sucesso na próxima temporada.

No entanto, a abordagem "segura" daquele crítico musical bastante festejado ou daquele sociólogo, antropólogo ou historiador, que sempre vive de plateias lotadas, sempre credita esse empresário como "pobrezinho". O empresário até contribui com isso, com escritórios modestos e usando roupas informais.

Isso tem um preço. A cultura popular acaba se tornando a Música de Cabresto Brasileira, controlada por uma elite de empresários do entretenimento que, associados a oligarquias regionais da mídia - desde rádios e TVs das capitais até aquelas no mais isolado interior do país - , controlam o que o povo pobre deve pensar, acreditar e produzir sob o rótulo de "cultura".

Não são mais as comunidades que transmitem valores, crenças e hábitos e nem promovem criações artísticas. É, infelizmente, o poder midiático regional, associado com os empresários do entretenimento (como donos de casas noturnas e de agências de famosos) e outros "comerciantes", como redes de supermercados e de lojas de varejo e atacado, fabricantes de bebidas (sobretudo cerveja) e até mesmo latifundiários.

Ninguém mais pode criar por conta própria. A criação "por conta própria" precisa passar pelo poder empresarial. A produção artística virou mercadoria. E isso desmascara de vez a intelectualidade, porque ela tenta manobrar o discurso. Dessa forma, em vez dela dizer "tudo é mercado", ela acaba dizendo "o mercado é tudo". São ideias diferentes, mas a ordem dos fatores não altera o nível ideológico em ambas.

Até quando se compõe coisas nas horas vagas, a mercantilização é cruel. Se você é um sanfoneiro modesto, terá que não só "vender" seu talento nos botequins de sua cidade, bairro ou vila - pressão dos distribuidores de cerveja na "cultura popular" - , mas terá que escolher temas mais "maliciosos" para ser bem sucedido.

Isso "matou" o baião brasileiro, pois antigamente não havia essa obrigação. Mas hoje um sanfoneiro precisa compor coisas tipo "Beijei a boca dela" (notem o cacófato), falar de brigas conjugais ou de sexo na cama, em vez de falar coisas do cotidiano.

A intelectualidade não deixa. O "ídolo popular" que falar de sua vida simples é visto como "choroso". "É triste demais", diz, paternalmente, o etnógrafo de boutique de plantão. Nada como "cacófatos" ou "brigas de amor" para tornar o "ídolo popular" mais "querido". Quando muito, deixa-se para "sertanejos" de asfalto cantarem a "saudade do sertão", dentro dos arranjos padronizados da "MPB burguesa"...

O empresariado associado, mesmo com seu jeitão "informal", não deixa que as classes populares desenvolvam sua cultura espontaneamente. Jagunços modernos da indústria cultural regional, eles "intermediam" as expressões artísticas, que já nascem atrofiadas pelo padrão radiofônico que dizima as culturas nacionais e as substitui por caricaturas matutas de referências estrangeiras. Aquilo que a intelectualidade diz, por eufemismo, ser a "natural capacidade do povo recriar o que vem de fora".

Esse empresariado aproveitou a interrupção do processo de diálogo entre a antiga intelectualidade cepecista e as classes populares, através dos CPCs da UNE, do ISEB e dos Movimentos de Cultura Popular, rompido nos primórdios da ditadura militar.

Esse rompimento deu a falsa impressão de que os sambas, baiões, modinhas e outros ritmos vindos das classes populares hoje não é mais do que um patrimônio privativo das elites acadêmicas e das classes abastadas, meio IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), meio Biscoito Fino Discos e inteiramente Academia Brasileira de Letras.

Mas o fato de que o povo pobre não pode mais criar suas próprias expressões hoje consideradas "de raiz", porque fica "muito burguês" (sic), mas brincar de Michael Jackson, de John Wayne, de Beyoncé Knowles. Lindo é um rapagão trajado feito um corredor italiano de Fórmula 1, com violão a tira-colo, com suposta "sabedoria pop", dormir uma noite numa estação de trem antes de ser apadrinhado por um gerente de rádio para fazer seus primeiros sucessos.

Alguns intelectuais sinalizaram que o povo pobre não pode mais ter a cultura de raiz, o legado natural de seus antepassados. Separa-se o patrimônio cultural popular de seus próprios herdeiros. E fica-se estarrecido quando as pessoas que pregaram tais pontos de vista são intelectuais como a baiana Malu Fontes e o blogueiro Leonardo Sakamoto e gente dotada de visibilidade como o funqueiro MC Leonardo.

Ou seja, os jovens não podem curtir jongo, não podem fazer modinha de viola, não podem fazer samba de verdade, nem sequer baião. Ou, se tiverem que fazê-los, terá que ser pelo "filtro" da grande mídia ou através de aventuras pedantes de ídolos bregas e neo-bregas na "MPB burguesa", a "MPB de mercado" que, para a intelectualidade, é "abominável" quando feita por artistas de MPB autêntica, mas "admirável" quando feita por ídolos ligados à bregalização cultural.

Esse processo em nada beneficia a cultura popular autêntica. A intelectualidade tenta desconversar, se aproveitando de seu privilégio de visibilidade. Mas o que está por trás disso é a ideia de que ao povo pobre se atribuem coisas ruins - que apenas devemos fingir acreditar que são boas - , enquanto as elites sempre levam a melhor. Até mesmo quando expressam sua complacência com a bregalização cultural.

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