terça-feira, 10 de julho de 2012

A NOVA AVENTURA ELEITORAL DO MALUF BAIANO


Por Alexandre Figueiredo

A Bahia ainda vive na sua fase pós-coronelista, com seu líder maior Antônio Carlos Magalhães falecido há cinco anos, mas com seu legado um tanto populista, mas bastante conservador, deixado por uma geração de herdeiros políticos, aparentemente nem sempre alinhados com o "saudoso painho".

Um dos "filhotes" políticos de Antônio Carlos Magalhães, o ex-prefeito de Salvador Mário Kertèsz, até havia deixado a vida política, tornando-se um dublê de radiojornalista dos mais tendenciosos e lamentáveis.

Eu mesmo, quando escrevi vários textos sobre mídia baiana no Preserve o Rádio AM, já descrevia o cargo de radialista de Kertèsz como "político", muito antes dos blogueiros de hoje afirmarem que a velha grande mídia hoje se comporta como um "partido político", e eu mesmo já questionava a prepotência e a supremacia do "jornalismo" na sociedade.

Kertèsz (que aparece na foto acima com camisa amarela) surgiu como um engenheiro a serviço de ACM. Foi promovido a prefeito de Salvador por nomeação, o que a crônica política definiu como "prefeito biônico". Em muitos aspectos, Mário é o Paulo Maluf baiano, em outros uma espécie de Sílvio Berlusconi temperado com dendê.

Como prefeito de Salvador, Mário criou um esquema de corrupção através de duas empresas fantasmas que desviaram verbas públicas para o patrimônio pessoal dele e de um aliado seu (mais tarde também envolvido no esquema mensaleiro de Marcos Valério). A partir dessa roubalheira, Mário Kertèsz comprou ações em rádios (Rádio Clube AM, Itaparica FM e Rádio Cidade FM de Salvador), em TV (TV Bandeirantes Bahia) e foi nomeado interventor do Jornal da Bahia, num episódio que oficialmente não foi bem esclarecido.

KERTÈSZ "MATOU" O JORNAL DA BAHIA

O Jornal da Bahia foi o primeiro periódico progressista da Bahia, fundado em 1958. Introduziu, no Estado, tanto a mentalidade intelectual da revista Senhor como as novidades editoriais da Última Hora e Diário Carioca. Teve, em sua equipe fundadora, nomes hoje famosos como João Ubaldo Ribeiro e um franzino cronista policial de Vitória da Conquista, chamado Glauber Rocha (cuja aparência lembrava o Rowan Atkinson), depois um dos maiores cineastas do país.

Como ato falho dos outros ex-jornalistas do Jornal da Bahia, João Falcão (já falecido) e João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, a intervenção de Kertèsz não foi criticada nos livros historiográficos sobre o JBa. No entanto, a atitude do ex-prefeito de Salvador como diretor do JBa foi bastante nociva, e podemos dizer com segurança que Kertèsz matou o Jornal da Bahia, até mais do que ACM, tido como único culpado. Porque Mário Kertész matou o que o Jornal da Bahia ainda tinha como sobra, que era sua alma, seu espírito editorial.

Os dois livros, o de Joca (Memórias das Trevas, sobre ACM e a luta deste contra o JBa) e o de Falcão (Não Deixe Esta Chama Se Apagar, sobre o JBa), foram publicados durante a ascensão de Mário Kertèsz na Rádio Metrópole FM (antiga Rádio Cidade, que havia virado um "Aemão" em 1998, dois anos antes de adotar o atual nome).

Kertèsz tentou "comprar" a sociedade baiana. "Abocanhou" vários radialistas da Rádio Sociedade AM (emissora de maior audiência na capital baiana), aliciou parte da esquerda baiana e estendeu seu tráfico de influência na alta sociedade soteropolitana.

A Rádio Metrópole é uma espécie de "CBN de porre". Como emissora, é um "rádio AM de quinta categoria", com transmissões esportivas em FM (uma praga numa cidade com poucas emissoras AM, como Salvador). É um "Aemão" ruim, desses que não chegam a dois dígitos de pontos de audiência. Até as vinhetas da emissora - acordes enjoados de teclado que soam "pim-pim-pim, pim-pim-pim" ou "pim-piririm-pim-pim" - são deploráveis.

Mas a badalação em torno da emissora fez com que ela se tornasse um totem inabalável, sendo seu proprietário, também o principal astro da emissora, uma espécie de "vaca sagrada" da mídia baiana. Kertèsz tem um programa próprio em duas edições na rádio, uma de manhã, outra de noite, e ele foi um dos primeiros a "flexibilizar" o horário da Voz do Brasil, visando interesses meramente comerciais.

O PÉSSIMO JORNALISMO DE KERTÈSZ

Kertèsz queria dar a impressão de que era um "jornalista moderno". Péssimo cronista, apresentador caricato, oscilante entre uma locução forçosamente elegante e uma fala informal que beira o grotesco - algo entre a fala de um gerente de hotel e a de um dono de botequim - , Kertèsz era o símbolo do tendenciosismo jornalístico que era timidamente criticado pelos setores mais influentes da opinião pública.

Imagine um seguidor mais incompetente ainda do Bóris Casoy pensar que é o Mino Carta. Pois é, esse foi o jornalismo que transformou Mário Kertèsz num hype baiano, num desempenho que juntava um pedantismo pseudo-intelectual, com falso refinamento cultural e um claro cafajestismo não só político, mas também galanteador. Sim, Mário chegava mesmo a dar "cantadas" nas suas jornalistas, transmitidas em todo o rádio.

Seu jornalismo político era a coisa mais rabugenta possível. Comentários tendenciosos, bajulações a políticos locais, denuncismo contra desafetos. Em mais de uma ocasião Mário Kertèsz foi processado, e a Rádio Metrópole chegou a ficar um dia fora do ar. Kertèsz chegou a se promover como "vítima", com reflexos até no Observatório da Imprensa, usando o pretexto da "liberdade de imprensa" em causa própria.

O tendenciosismo é tal que a Rádio Metrópole criou um braço impresso, primeiro uma revista, depois um jornal (em formato tabloide), devido aos custos de papel, distribuído de graça para seduzir a opinião pública. O nome do jornal é o mesmo da rádio, e segue a estética visual adotada pela emissora até na Internet.

Boa parte dos exemplares são distribuídos, em estratégia de "marketing de guerrilha",  em frente à sede do jornal A Tarde, no Caminho das Árvores, junto à Avenida Tancredo Neves, novo polo financeiro de Salvador. Eu mesmo, quando morava na capital baiana, não cansava de ver vários desses exemplares jogados no chão ou no lixo, depois de uma leitura superficial por parte de muitos soteropolitanos.

OUTROS TEMPOS

Seu bonapartismo midiático, no entanto, iria mostrar, mais cedo ou mais tarde, seu reacionarismo. O Kertèsz que era convidado até a fazer locução para as campanhas eleitorais de Lula - sua adesão ao PT, no entanto, era condicionada porque Kertèsz é amigo do publicitário Duda Mendonça, que serviu ao petista - passou a dar lugar a um direitista histérico e rabugento.

De repente, aquela aparência de "Allen Ginsberg idoso", só que mais matuta, espinafrava, no ar, dois jornalistas de esquerda que, visando a visibilidade midiática (a blogosfera, iniciante, ainda não era reconhecida como uma nova força midiática), elogiavam o "astro-rei" da Rádio Metrópole, mesmo sabendo que Kertèsz tem origem política na ARENA e foi afilhado político de ACM.

Os dois jornalistas, Oldack Miranda e Emiliano José, autores de um livro sobre o guerrilheiro Carlos Lamarca (Lamarca, o Capitão da Guerrilha, que inspirou até a produção de um filme), foram atacados duramente por Mário em seu programa transmitido em toda a Bahia. Enquanto isso, o jornal Metrópole atacava tudo que era esquerda, do PT ao PSTU.

Mas Mário quase morreu do coração - sério - quando o jornal Correio da Bahia denunciou um esquema de jabaculê e politicagem envolvendo dirigentes esportivos e donos de rádios, o que mostra a gravidade que o jabaculê esportivo nas FMs exerce enquanto parte da opinião pública média faz vista grossa, presa à velha ideia de jabaculê de trinta anos atrás. A denúncia foi em dezembro de 2008.

Depois de tanto resistir em voltar à vida política, Mário Kertèsz, este ano, decidiu concorrer à Prefeitura de Salvador. Filiou-se ao PMDB, partido que era ligado na sua segunda gestão (a mais corrupta) como prefeito da capital baiana. A Tribuna da Bahia é um dos veículos que apoiam o candidato que, em depoimento recente, disse que, se não for eleito, no dia seguinte volta ao rádio, que é "o seu lugar".

Mas os tempos são outros. A Rádio Metrópole já não pode mais enganar os baianos como mídia pseudo-progressista. A Internet já questiona ainda mais os "coronéis" políticos que fingiram ter rompido com o carlismo (mas não com as lições dadas por ACM), como Kertèsz e Marcos Medrado. E, além disso, já existe uma Secretaria de Comunicação Social que é o começo de uma "lei da mídia" que irá botar ordem na mídia baiana. Os tempos de "mídia sem lei", como se via há 20 anos atrás, terminaram.

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