domingo, 1 de julho de 2012

A MPB JÁ ESTAVA AO ALCANCE DE TODOS. MAS, HOJE...


Por Alexandre Figueiredo

Houve um tempo em que a MPB, ou seja, a música brasileira que se valia por si própria, por sua linguagem musical e artística de qualidade, estava ao alcance de todos.

Pobres e ricos faziam, cada um à sua maneira, produções musicais de qualidade, porque eram expressões de suas almas, eram coisas espontâneas.

Havia quem fizesse isso de forma intuitiva, e quem fizesse isso de forma mais acadêmica. Mas isso não se relacionava necessariamente com a classe social, já que havia ricos e pobres tanto entre os intuitivos e os acadêmicos. Mas sempre havia qualidade artística, sendo ela mais simplificada, sendo ela mais sofisticada.

Infelizmente, hoje, isso não existe mais. A MPB virou um "Monte Everest" para o qual nem todo mundo mais tem acesso. O povo pobre quase não é mais capaz de fazer MPB, mas músicas medíocres de nível artístico esquizofrênico, para as quais a MPB é apenas o topo distante de um pico alto a ser atingido.

A velha grande mídia fez com que cada vez mais raros fossem os baiões autênticos, os sambas verdadeiros, as músicas realmente caipiras que saíssem das classes populares. Em vez disso, cria-se sonoridades confusas, sons "regionais" americanizados, caricatos, indigestos a não ser por estimulantes diversos, materiais ou mesmo publicitários.

Sambas, baiões, modinhas e outros ritmos autênticos agora são patrimônio privado das classes abastadas. A interrupção do debate cultural dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE), com o golpe militar de 1964, fez com que o povo deixasse de ter em mãos sua própria cultura e as elites não puderam devolver a bagagem cultural que absorveu das classes populares.

Dessa feita, a música popular que havia em todo lugar, até nas áreas mais miseráveis, virou um "artigo de luxo" dos festivais de TV. E, o que é pior, com as críticas da elite prototucana da USP (Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Fernando Gasparian, José Serra) ao projeto cepecista, eles passaram a defender uma visão de "cultura popular" voltada para o neoliberalismo e para o "livre mercado", representado pelo padrão ideológico do pop internacional.

A MPB já havia sido escrava das normas fonográficas das multinacionais. Que se tornou uma manobra bilateral que fez a MPB soar burocrática e tornou a música brega mais cosmética, para o consumo de públicos "mais exigentes".

Mas, na medida em que os artistas da MPB autêntica, oriundos dos anos 60 e 70, se recusaram a seguir as normas mercadológicas, abandonando as multinacionais, a MPB ficou ainda mais distante do grande público e, para piorar, veio uma "MPB de mentirinha" criada pela geração neo-brega dos anos 90 (sobretudo "sertanejos", "pagodeiros românticos" e ídolos de axé-music) que ocupou o nicho deixado pelos artistas de MPB.

Só que isso em nada melhorou a situação. Afinal, a verdadeira cultura brasileira não estava na alma dos neo-bregas pseudo-sofisticados. Eles não "redescobriram" a música de qualidade nem se tornaram mais espontâneos. Pelo contrário, mesmo quando tentam fazer o "dever de aula", como os breganejos Chitãozinho & Xororó e Daniel, a axézeira Ivete Sangalo e o sambrega Alexandre Pires, soam forçados, tendenciosos e até mais burocráticos do que os "elitistas" da MPB dos anos 80.

Além disso, essa tentativa de "sofisticar" os neo-bregas não resolveu o maior problema, que é a imagem da MPB como algo distante, um pico a ser alcançado pela "ascensão social". Primeiro, porque não é uma coisa espontânea, é algo feito por encomenda de executivos fonográficos e gerentes de rádio e TV, e segue geralmente o tendenciosismo de tributos comerciais de artistas de MPB ou efemérides brasileiras.

São apenas aparatos. Os ídolos neo-bregas reproduzem as mesmas regras da chamada "MPB burguesa", com muita pompa e luxo. Seu repertório é longe de ser autoral, gravando covers de MPB, o que não os torna mais criativos. E os ídolos neo-bregas são cercados de outros técnicos, seus discos são arranjados por outros músicos, nada do que eles fazem é mais criativo, com tantas interferências alheias para tentar "embelezar" um produto que já sai medíocre do mesmo jeito.

Não fosse isso suficiente, os neo-bregas ainda expressam, com essa "adesão" tendenciosa à MPB, que são sempre as elites abastadas que os socorrem com o aparente aprimoramento cultural. Não é algo que vem da alma dos ídolos neo-bregas, mas algo que é ensinado pelas elites que os encontram nos bastidores da televisão.

É por isso que torna-se inútil "desbregalizar" o brega, "ensinando" a MPB para ídolos que nunca se interessaram, de fato, em fazer MPB desde o começo. Eles preferiram transformar seus erros e omissões em milhões de cópias vendidas. Quando acharam que a MPB valia a pena, era tarde demais.

Afinal, os neo-bregas já estavam distantes demais da MPB para se aproximarem dela depois de muito sucesso com tantas breguices.

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