sexta-feira, 6 de julho de 2012

A MPB? DEIXA QUE AS "ELITES" ENSINEM...


Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco, sabemos por aqui, é a pretensa "cultura popular" desenvolvida pelo mercado e pela velha grande mídia, mas que a intelectualidade dominante insiste em dizer que é a "nova cultura verdadeiramente popular". A "MPB com P maiúsculo", a "cultura realmente popular", "a expressão popularíssima do povo".

São alegações de cunho liberal-populista, mas com um tom claramente conservador, apesar do proselitismo "progressista". E que nada contribui para a evolução da cultura das classes populares, que, como se não bastasse a precária escolaridade, ainda é culturalmente castrada por um mercado controlado por "especialistas" no entretenimento "popular".

Isso influi na mediocrização que, de tão enraizada, não é resolvida apenas com uma escolaridade mais abrangente ou maior assimilação de informações via Internet. Pouco importa se o grupo de "pagodão" baiano passou a sacar o que é trance music (uma variação da música eletrônica), uma "mulher-fruta" saber quem foi Marilyn Monroe e um breganejo saber quem é Neil Young e seu grupo Crazy Horse.

Pouco importa tudo isso. Pois o que os intelectuais brasileiros, tão isolados em sua vaidade e visibilidade fácil, ignoram é que saber um pouco de tudo não significa necessariamente saber mais e melhor. Em certos casos, é uma assimilação confusa de informações, algo só para ter uma "noção".

E é isso que os ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas fazem nos últimos anos. Todo mundo quer dar uma de "inteligente", se apropriando de referenciais que não são mais do que pálidas citações em suas entrevistas ou campanhas de divulgação pela mídia. É gente que sabe tão pouco e que apenas apressadamente copia um ou outro dado, no Wikipedia, no YouTube.

Ninguém fica mais criativo nem mais sábio porque amontoa informações. A maioria das pessoas que é leiga em qualquer coisa enche seus "porões" cerebrais de joias e entulhos que nunca irá usar de fato. E o que vimos de bregas, neo-bregas e pós-bregas pegando carona na MPB que fazia sucesso nas rádios ou naquilo que os críticos musicais divulgavam como "cultura alternativa", sem que haja qualquer melhoria artística com isso, lá se vai tempo, lá se vão muitos casos.

A "BOA AÇÃO" DAS "ELITES" ARTÍSTICAS

O que há por trás da "generosa" adesão intelectual à essa multidão de bregas e derivados não é o "verdadeiro reconhecimento artístico" desses modismos, claramente comerciais. Primeiro, porque são canções de consumo sem muito valor artístico, e se desgastam em seis meses. O que está por trás é algo muito mais perverso e que mostra o quanto as elites intelectuais usam as classes populares para essa dupla tapeação.

A tapeação é dupla porque, primeiro, o brega-popularesco, mera "cultura de massa",  não é a verdadeira cultura das classes populares, porque não produz o saber do povo que uma cultura popular de verdade - que não é necessariamente a dos lotadores de plateias - produz. É algo decidido de cima, dos escritórios das empresas de entretenimento, para o povo consumir através de rádios e TVs.

Segundo, porque a atribuição que os intelectuais mais festejados fazem às classes populares é outra falsidade que nada contribui para fortalecer sua verdadeira cultura. Afinal, a verdadeira cultura popular, do contrário que hoje se alardeia, se compromete com o saber do povo e não com o tal "mau gosto".

O QUE SE VÊ É O "NÃO SABER"

O que se vê nesses tais "sucessos do povão" não é a expressão do saber, mas a expressão do "não saber". E, o que é pior, a intelectualidade ainda se resigna ao apoiar essa mediocridade. A professora da UFBA, Malu Fontes, quando escreveu no jornal A Tarde um artigo sobre o arrocha - ritmo inspirado no brega de Amado Batista - , disse que é o que "o povo (do Recôncavo Baiano, a que o ritmo é geograficamente atribuído) sabe fazer".

Nada mais elitista do que tal comentário. A não ser que o comentário tenha sido feito por boa-fé. Mas em todo o caso o povo do Recôncavo Baiano merece algo melhor do que o arrocha, cujos cantores Sylvano Sales e Nara Costa chegaram, ao vivo na TV Bahia, a ensaiar um rebolado patético, para mostrar o tom da mediocridade do gênero.

Mas isso é só um entre milhares de casos. O brega-popularesco é sempre manifesto pela "expressão" do não saber, onde a mediocridade se lança como um caminho para o sucesso, conforme o mercado determina às classes populares transformadas em estereótipo, através da cafonice cultural.

Primeiro, toda a mediocridade é feita, divulgada e transformada em milhões de discos vendidos, mais audiência para rádios e TVs, mais revistas vendidas, mais sítios da Internet visitados e mais plateias cheias. Os "artistas" acabam se afirmando através dessa mediocridade artística, "relativizada" pelo proselitismo ideológico da intelectualidade associada.

DEIXA QUE AS "ELITES" ENSINEM O QUE É MPB

A intelectualidade tenta "relativizar" a mediocrização cultural pelo discurso, um tanto hipócrita: "a gente pode achar isso medíocre, mas o povo acha genial". Típico desprezo sobre o que está por trás desse império do "mau gosto", que empurra lixo cultural para o consumo passivo das classes populares, que apenas são induzidas a "gostar" do que as rádios e TVs tocam.

Tudo isso é feito trabalhando os ídolos por muitos anos para que eles continuem fazendo sucesso na sua mediocridade triunfante. Até que, em dado momento, a mídia arruma lugares para eles em espaços que deveriam ser da MPB autêntica e do folclore brasileiro, num pretensiosismo que é defendido às custas da falsa imagem de "vítimas de preconceitos" dos ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas.

Para ajudar nessa conduta paternalista a espaços mais nobres, os bregas e seus derivados contam com um lobby formado não só por cientistas sociais e críticos musicais, mas também de cantores, atores, produtores culturais, promotores de eventos e outros envolvidos.

Transformados em "mascotes" da intelectualidade "apiedada", os ídolos bregas e seus derivados passam a gravar covers de MPB ou fazer duetos com os medalhões da tal "MPBzona". Ganham banho de loja, tecnologia etc, e tentam ocupar o nicho deixado pela nata da MPB que abandonou as multinacionais, com sua "MPB de mentirinha".

Essa pseudo-MPB é feita com todos os macetes ensinados pelas "elites solidárias". O cantor de sambrega é convidado a "descobrir" Wilson Simonal, Lupicínio Rodrigues e Ataulfo Alves. O do "pagodão baiano", tipo Psirico e Harmonia do Samba, é convidado a "descobrir" Jackson do Pandeiro e Riachão. O breganejo, a "descobrir" o Clube da Esquina, Renato Teixeira e o cancioneiro caipira mais antigo. As elites "ensinam MPB" para os bregas e derivados, e sabemos o quanto os neo-bregas se aproveitaram com isso para usarem o rótulo "MPB" em causa própria.

Aí eles seguiam a cartilha da "MPB burguesa" condenada pelos intelectuais. Pura hipocrisia, porque o que os intelectuais reprovam em nomes como Zizi Possi e Chico Buarque são exatamente os mesmos procedimentos quando feitos por gente como Alexandre Pires, Zezé di Camargo e Ivete Sangalo. Que acabam sendo muito mais "MPB burguesa", no sentido pejorativo da palavra MPB, do que a MPB "biscoito fino" tida como bode expiatório do elitismo cultural brasileiro.

Só que a experiência se mostrou inútil. O "povão" não se estimulou a se aprofundar na MPB. Para o grande público manipulado pela velha grande mídia, tanto faz se Lupicínio Rodrigues existiu ou não ou se Djavan continua gravando discos. Os covers apenas servem para reforçar o sucesso dos neo-bregas, tapeando sua falta de criatividade que em dados momentos nem medíocres sucessos autorais conseguem ser feitos.

Com tudo isso, a mediocridade cultural continua, apenas com alguns paliativos. Mas tudo soa cafona, antiquado, e o "mau gosto" não passa a ser de boa qualidade só porque mídia e intelectualidade dão um jeitinho para "lapidar" os bregas da moda. "Mau gosto" continua sendo "mau gosto" até em roupagem de luxo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...