sábado, 21 de julho de 2012

HIT-PARADE BRASILEIRO, MEMÓRIA CURTA E PRETENSIOSISMO


Por Alexandre Figueiredo

Muitos problemas envolvem a questão da cultura popular hoje no Brasil. O comercialismo caraterístico do brega-popularesco, altamente tendencioso e oportunista, é fruto de um controle empresarial ferrenho, que a intelectualidade faz vista grossa se recusando a admitir as relações de poder que estão explicitamente por trás.

Muito do que se entende por "popular" é negociado em escritórios, planejado conforme as circunstâncias. Tudo é negócio, e quando se fala em "negócio da música", não se pode ser ingênuo a achar que tudo é um "mercado alternativo e independente" e que os empresários da música brega e seus derivados são gente pobrezinha sem dinheiro para comprar um sítio, mas detém tecnologia de ponta para a produção de ídolos e espetáculos.

Aliás, essa visão é absurda. Os empresários do entretenimento, oficialmente conhecidos como "humildes produtores culturais", têm dinheiro não só para comprar um sítio, mas grandes hectares de fazendas e grandes manadas bovinas. E vários deles são fazendeiros, sim. Na pior das hipóteses, são capatazes modernos a investir na Música de Cabresto Brasileira, controlando integrantes de grupos de forró-brega, "funk carioca", tecnobrega, axé-music, "pagodão", tchê-music etc com mãos de ferro.

O brega-popularesco já é, há muito, o nosso hit-parade. E existe uma clara diferença entre hit-parade e folclore, como existe diferença entre entretenimento e cultura. Hit-parade e entretenimento são feitos para o momento, são efêmeros, folclore e cultura são feitos para a posteridade, são eternos. Mas muita gente confunde uns e outros seja pela ignorância de uns, seja pelo pretensiosismo de outros.

E aí, surge uma intelectualidade, amestrada por abordagens neoliberais da cultura popular na USP, que diz que o brega-popularesco é o "novo folclore brasileiro". Alguns, em teses delirantes, o definem com expressões um tanto tolas como "folclore multifacetado, pós-moderno, hiperconectado" e "viajam" vendo esquerdismo onde não existe, fazendo Contracultura num copo d'água.

E haja memória curta. Para que suas abordagens façam efeito, temos que acreditar que a cultura brasileira nasceu em 1967 com o berro de Caetano Veloso contra os que o vaiavam durante a apresentação de "É Proibido Proibir" no III Festival de Música Popular Brasileira.

O resto é Antiguidade e pré-história. Antiguidade da música popular feita por gente do povo, sem as deturpações que o empresariado fez com os donos de rádio que veio a constituir na canção cafona que conhecemos. E pré-história aquela música popular produzida antes da implantação da indústria fonográfica no Brasil.

Por isso, "amarrar" a cultura brasileira no intervalo cronológico nada anterior a 1967 - até os artistas que vieram um pouco ou talvez muito antes precisam se localizar em algum contexto nos anos 70 para serem lembrados pelo mainstream intelectual, seja Inezita Barroso ou Jorge Ben Jor, seja Cartola ou Assis Valente, fora as apropriações distorcidas das ideias de Oswald de Andrade e Gregório de Matos - permite que se desenvolva a memória curta musical, evitando uma compreensão mais crítica e mais honesta.

BREGAS PSEUDO-GUEVARIANOS

A memória curta permite muitas distorções, e, aliada ao círculo de visibilidade do qual se beneficia a intelectualidade dominante de hoje, faz com que a cultura brasileira seja muito mal entendida, com sua problemática quase nunca questionada e todas as contradições e equívocos aceitos de forma submissa pela opinião pública média.

O mito de que o brega-popularesco foi um "movimento revolucionário", plantado pelas teses pouco confiáveis mas tidas como "verdades absolutas" por um Paulo César Araújo e endossado por outros intelectuais associados, é uma aberração ideológica feita justamente para fazer frente aos verdadeiros esquerdistas da MPB, tidos hoje como "chatos" e "puristas", fora as acusações de "preconceito" e "elitismo" atribuídas equivocadamente a eles.

A ideologia pró-brega constrói, em seu discurso, a imagem de "ídolos coitadinhos", que fizeram muito sucesso mas nunca foram "levados a sério". Eles passam a ser trabalhados como "vítimas de preconceitos", e tratados feito mascotes ao lado dos interessados na retórica, os artistas, intelectuais e celebridades que constroem sua vaidade através desse paternalismo sócio-cultural.

O pior é que, em abordagens mais pretensiosas, os ídolos bregas e derivados são tratados, num ato falho risível, como se fossem "cantores de protesto", e qualquer vírgula é usada para "justificar" tal abordagem altamente tendenciosa. Canções como "Pare de Tomar a Pílula", de Odair José, "Eu Não Sou Cachorro Não" de Waldick Soriano e "Você Não Me Ensinou a Te Esquecer" de Fernando Mendes são as "pérolas" desse tipo de abordagem.

E haja memória curta. Michael Sullivan foi o chefão do entretenimento dos anos 80, de mãos dadas com a Globo, mas duas décadas depois se passava por um "coitadinho escorraçado pela mídia". José Augusto teve até tema de novela da Globo e hoje é tratado como se nunca tivesse posto os pés na velha mídia.

Há muitos casos, beneficiados pela memória curta que vicia o grande público. E que impede que abordagens históricas, nem sempre generosas mas verdadeiras, sejam honestamente assumidas. E injustiças são feitas, não só da maneira "negativa" mas também da maneira "positiva" de ver qualidades que os chamados "ídolos da massa" na verdade nunca tiveram ou têm.

E a cultura não é beneficiada nem fortalecida pela memória curta. Porque memória curta é, em parte, um resultado da falta de cultura.

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