sexta-feira, 27 de julho de 2012

"DISPARADA" DEVERIA ENVERGONHAR BREGANEJOS


Por Alexandre Figueiredo

Uma das músicas da MPB autêntica que são regravadas de forma tendenciosa pelos pedantes cantores do neo-brega dos anos 90 (ídolos que cruzavam as regras da "MPB burguesa" com o brega "grande hotel" de Sullivan & Massadas), dentro daquele restrito repertório "inofensivo", é, na verdade, uma canção de protesto que vai contra os interesses de quem regrava tais canções.

É claro, a regra é de que ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas evitem gravar canções de protesto, já que isso vai contra toda a aura de "alegria" e "positividade" trabalhada por esses ídolos.

Mas, ultimamente, o desespero dos ídolos da Música de Cabresto Brasileira é tal que vemos um grupo como Sambô cantar alegremente a canção de temática triste, "Sunday Bloody Sunday" do U2 enquanto o inexpressivo grupo Inimigos da HP, para arrancar dinheiro do Ministério da Cultura, incluiu até "Apesar de Você" no tributo caça-níqueis a Chico Buarque, que pelo jeito só agradaria a Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches.

"Disparada", porém, não está nesse contexto. A música, aparentemente, tem uma letra "inofensiva", porque era o contexto da ditadura militar, o que fazia com que as mensagens de protesto tivessem que ser feitas através de metáforas.

Vandré é conhecido pela música "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores", bem naquele estilo docemente-contundente influenciado pelo chileno Victor Jara, muito arriscada para ser lançada primeiro. A canção é de 1968 e foi defendida pelo próprio cantor no III Festival Internacional da Canção. Em 1966, no II Festival de Música Popular Brasileira (então transmitido pela TV Excelsior), Vandré deu para Jair Rodrigues a missão de defender sua música.

Talvez a associação à figura aparentemente dócil de Jair Rodrigues, além da poesia metafórica da canção, fizesse com que "Disparada" fosse tranquilamente regravada pelos verdadeiros porta-vozes do latifúndio musical brasileiro, Chitãozinho & Xororó e Daniel (ex-João Paulo & Daniel), sem se darem conta do que eles realmente estão cantando, que vai muito além das emoções genéricas do "homem do campo".

A letra de "Disparada" é cortante, interpretada de forma subliminar. A letra fala da alienação dos trabalhadores rurais, explorados pela opressão do latifúndio, que trata o povo da mesma forma que normalmente trata o gado.

Quem acha, numa leitura superficial, que a letra poderia ser de uns breguinhas rejeitados, vaiados pela "crítica especializada" e que depois se tornam "reconhecidos" pelo seu "valor", é bom tirar o cavalo da chuva  porque a letra, na verdade, é de causar vergonha e asco a qualquer breganejo que nunca iria abrir mão de tocar nos eventos "culturais" patrocinados pelos seus patrões-colegas latifundiários.

E, além disso, Chitãozinho & Xororó são também latifundiários. E Zezé di Camargo & Luciano também, além de terem votado em Ronaldo Caiado para deputado federal na mesma época em que, vendendo a imagem de "petistas convictos" (um ano antes do principal cantor da dupla aderir ao "Cansei"), viraram queridinhos da intelectualidade etnocêntrica às custas de seu dramalhão cinematográfico.

Vejamos a letra. Há várias análises sobre ela na Internet, até no YouTube. Mas deixemos para você, leitor, pesquisar, refletir e pensar a respeito na mensagem cortante oculta pela poesia metafórica que enganou os breganejos que regravaram a canção de Geraldo Vandré. Sinceramente, a letra foi "caminhando" em "disparada".


Disparada
Geraldo Vandré


Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...


Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...


Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu...


Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei...


Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei...


Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente...


Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar


Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu...


Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...