quarta-feira, 11 de julho de 2012

A "CULTURA POPULAR" E SEUS DONOS


Por Alexandre Figueiredo

Os intelectuais que fazem defesa desesperada da música brega e de seus derivados costumam falar em "cultura das periferias", lançando uma visão fantasiosa da "cultura popular" que esconde um mercado de exploração e fraude.

As pregações, insistentes e persuasivas, chorosas e raivosas, chegavam a práticas "urubólogas" de chamar de "preconceituosos", "elitistas" e "intolerantes" todos aqueles que esboçarem qualquer crítica, por mais construtiva que seja, contra esses ídolos.

Eles juram que é o povo que está por trás dessa "cultura", e Hermano Vianna, antropólogo parceiro das Organizações Globo, teve a coragem de dizer que ela "não tem atravessadores". Ou seja, é o mito de que o brega-popularesco é uma "cultura pura", que "flui ao sabor do vento" e que é feita "do povo para o povo".

Para isso, até mesmo os riquíssimos empresários do brega-popularesco, muitos deles proprietários - isso mesmo - de conjuntos musicais (no forró-brega, "pagodão" baiano e axé-music, ou mesmo no "funk carioca", isso acontece, e muito), têm que ser enquadrados, nesse discurso intelectual, entre a "gente humilde" que "produz a cultura das periferias".

Manobra-se o discurso conforme as circunstâncias. Os empresários do entretenimento brega são inicialmente incluídos entre os "pobres que produzem cultura". Usa-se o eufemismo de "produtores culturais" e esses empresários procuram evitar aparecer frequentemente de terno e gravata, e muitas vezes eles aparecem em noites de gala com paletó mofado, camiseta comum velha, jeans rasgado e tênis furado para não despertar desconfianças.

Se não dá para esconder a riqueza desses "humildes produtores culturais", então a intelectualidade dá um jeito e logo os define como "pobres que deram certo". Então, eles passam a ser vistos como "pobres que chegaram lá" e "ganham dinheiro com seu suor".

JAGUNÇOS CULTURAIS

Mas não é difícil para nós questionarmos essa visão. Os "barões do entretenimento popular", na verdade, estão a serviço das oligarquias, e eles não podem ser confundidos com as classes populares que lutam por melhores condições de vida e trabalho. De jeito nenhum.

É só analisarmos as coisas. A cultura não está longe da realidade social, política e econômica no nosso país. Do jeito que a intelectualidade dominante argumenta, a "cultura popular" é algo que vive dentro de uma bolha de plástico, pura, inocente, e que deve ser zelada por toda a intelectualidade.

Por isso, as regiões onde se propaga essa "cultura popular" são controladas por latifundiários e políticos regionais. Eles também possuem seu raio de influência nas "políticas culturais", e vários deles controlam emissoras de rádio e afiliadas de redes de televisão aberta. E mais: vários desses oligarcas regionais já controlam rádios comunitárias e serviços de TV por assinatura, só para questionar o mito de que estes são setores nunca explorados pela velha grande mídia.

Mas não é de hoje que os barões do entretenimento brega controlam velhas e novas mídias. Nos tempos de Waldick Soriano, eram as oligarquias regionais que controlavam os serviços de auto-falantes de suas cidades. O fornecimento de equipamento era por conta deles. Os que burlavam esse poder o faziam por outras aquisições, sobretudo através de lojas "de fora".

Só que as rádios que tocavam brega sempre eram ligadas ao latifúndio. Mesmo os serviços de auto-falantes eram organizados por comerciantes que estabeleciam uma parceria com o poder oligárquico, até porque essas "rádios populares" eram feitas para neutralizar a crescente mobilização de trabalhadores rurais, através de um entretenimento mais domesticado e da assimilação subordinada de sucessos musicais estrangeiros.

Os "jagunços culturais" possuem uma analogia exata aos capatazes dos grandes proprietários de terras. Os "produtores pobrezinhos" que investem nos ídolos popularescos são capatazes modernos, e temos que deixar bem claro que os jagunços normalmente são também gente de origem pobre, mas que está a serviço dos interesses dos seus patrões. Alguns são DJs ou radialistas, mas nem por isso são "mais humildes".

Se ninguém é capaz de confundir jagunços com trabalhadores sem-terra, por que então confundir os empresários do entretenimento brega com o povo das periferias? Esses "simpáticos" empresários, tão "informais" e "joviais", controlam com mãos de ferro os grupos e cantores de forró-brega, arrocha, tecnobrega, "funk carioca", axé-music, "pagodão" e outros ritmos.

Em muitos casos, eles mesmos montam os grupos, contratando integrantes. Tudo é negócio, desde a contratação de dançarinos e dançarinas até na organização de repertório. A composição musical também é fruto desse comércio total, e há casos de feirantes, sanfoneiros de bar e chapistas de automóvel que vendem composições para as agências que controlam os grupos de forró-brega.

Recentemente, houve o caso de uma disputa entre o Aviões do Forró e outro conjunto por conta de um sucesso de um cantor menos conhecido. A disputa era para quem iria lançar a música em caráter nacional, com clara parceria com a Rede Globo, a partir do Domingão do Faustão, dentro de um processo que, do contrário que a intelectualidade prega (sobretudo Pedro Alexandre Sanches), é muito bem aceito e estimulado pela velha mídia.

A música "Você Não Vale Nada" foi outro exemplo típico de uma canção de um forrozeiro anônimo, incapaz de se tornar, por si, sucesso nacional, que teve que ser defendida em caráter nacional pelo grupo de forró-brega Calcinha Preta. E a Globo mergulhou com gosto no sucesso do grupo, e o pôs em trilha de novela tranquilamente. Nada do tal "preconceito da grande mídia" alardeado pela intelectualidade festiva.

Desde que o É O Tchan começou a fazer sucesso no país, o brega-popularesco se alimenta com centenas de milhares de cantores e grupos controlados por empresários, em qualquer canto do país. Esses empresários já são muito ricos, são autoritários e vários deles são até mesmo proprietários de terras. Portanto, eles não são "gente da periferia" e nem podem ser confundidos com as classes trabalhadoras.

Pouco importa a aparente falta de luxo e de elegância que sustentam. Talvez o verdadeiro luxo e as ricas posses estejam lá escondidas em fazendas e mansões administradas por terceiros. E, como esses "produtores culturais" se relacionam com o poder político dominante, eles também têm seus "laranjas". Tudo para passar a impressão de que eles "continuam pobres" e são "gente muito simples".

Enquanto o povo pobre acredita nessas lorotas, esses "humildes produtores" acumulam suas fortunas e bens ficando de mãos dadas com os oligarcas de suas regiões.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...