segunda-feira, 2 de julho de 2012

BREGA NÃO MELHORA FICANDO "MAIS INFORMADO"



Por Alexandre Figueiredo

Já descrevemos a obsessão das atuais gerações da música brega em desenvolver uma espécie de "programa de qualidade total", como se quisessem ser levados a sério a todo custo.

Recentemente, a dupla breganeja César Menotti & Fabiano, aquela que só grava DVD ao vivo, deu entrevista ao portal Terra citando duplas caipiras antigas como sua suposta influência musical.

É apenas um pequeno exemplo entre tantos. E há ainda outros exemplos de como a mediocridade cultural, numa época de grande trânsito de informações na Internet, tenta se passar por "culta" e "bem informada" para enganar a opinião pública.

Um deles é o já citado grupo "Sambô". Num contexto de memória curta, em que as pessoas aceitam que filmes comerciais de Hollywood num canal de "cinema alternativo" (o TeleCine Cult), em violento contraste às missões cinéfilas de Walter da Silveira, e em que as esquerdas mais medianas se deslumbram com o projeto imperialista Jornalismo nas Américas, se esquecendo de armadilhas históricas semelhantes, o Sambô é tido como "genial banda de samba-rock".

É evidente. Se lá nos EUA existe uma "panelinha" de críticos que tentam nos fazer crer que o "metal farofa" é também "rock clássico", mesmo com seus ídolos construindo reputação mais pelos escândalos do que pelo talento e mesmo os "mais sérios" grupos da leva, Mötley Crüe e Guns N'Roses, ainda são risíveis em muitos momentos, no Brasil um grupo que faça covers de rock em ritmo de sambrega é tido como "unanimemente genial".

Mas o Sambô, prestando muita atenção, não é mais do que a união de dois universos semelhantes, o do metal farofa (ou poser metal) e o sambrega. Seus ídolos são "pegadores" e geralmente têm seus primeiros casamentos com musas "boazudas" terminando de forma problemática. E prometem "música de melhor qualidade", evocando as palavras "rock" e "samba" como se tivessem descoberto a origem do universo.

Neste sentido, que diferença tem Pamela Anderson e Tommy Lee (Mötley Crüe) e Solange Gomes e Waguinho (Os Morenos)? Nenhuma. E, desse modo, o Sambô é a junção, no contexto brasileiro, desses dois contextos poser de farofeiros prometendo "samba de verdade" e "rock de verdade".

SAMBÔ ESCULHAMBA CANÇÃO POLÍTICA AO REGRAVÁ-LA

Até mesmo a gravação de "Sunday Bloody Sunday" é descontextualizada, para mostrar o caráter patético do Sambô, não bastassem os vocais afetados (neste sentido, o Massacration honra muito mais o rock, num perfeito equilíbrio entre rock de verdade - mesmo - e humor criativo). Vemos o que diz a letra da música do U2, gravada originalmente em 1983.

Segundo o Wikipedia, "Sunday Bloody Sunday" é uma das canções mais políticas feitas pela banda de Bono Vox (a letra é dele e a música de todo o grupo), e fala de um protesto em Derry, na Irlanda do Norte, em 1972, onde as tropas britânicas reprimiram a bala as manifestações pelos direitos civis, deixando várias vítimas fatais.

Vemos o saldo do Domingo Sangrento: 14 mortos e 26 feridos. A manifestação era pacífica, mas mesmo assim o Exército britânico agiu dessa forma assassina, naquele 30 de janeiro de 1972. O mais grave disso é que, quarenta anos depois, a dramática canção agora é cantada alegremente por um bando de "engraçadinhos" exibindo afetação e pedantismo.

Imagine Mr. Catra e suas dançarinas gravarem "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores (Caminhando)", de Geraldo Vandré. Dá no mesmo. Esculhambar canções de protesto através de regravação fora de contexto, soa uma gozação e até mesmo uma falta de compreensão do contexto original de uma música, o que mostra o inglês apressado que os membros do Sambô aprenderam nos cursinhos e mostra a desinformação do sentido dramático das letras cantadas com sorrisos arreganhados.

KUDURO NÃO É FOLCLORE

Outro sintoma da "boa informação" que não resolve no brega é a forma com que se divulga, no Brasil, um ritmo meramente dançante e comercial chamado de "kuduro". A divulgação é feita sobretudo pelo antropólogo Hermano Vianna, braço assumidamente midiático da "santíssima trindade" da intelectualidade etnocêntrica, junto ao "neutro" Paulo César Araújo e ao "esquerdista" Pedro Alexandre Sanches.

O kuduro não é muito diferente do que qualquer ritmo dançante inventado nos escritórios de entretenimento da Itália e da Bélgica, onde sai um mercado de pop dançante ao mesmo tempo canhestro e mafioso, com intérpretes muitas vezes conhecidos até pelo prenome e que gravam músicas sempre compostas por uma "panelinha" de produtores e DJs, que mandam nos "cantores" com mãos de ferro.

Nada muito diferente do esquema mafioso do miami bass, que também funciona da mesma forma. Mas, no Brasil, esses bastidores não são difundidos, e a pregação intelectualoide feita no Brasil quer nos fazer crer que todo mundo é "cidadão da periferia".

Ou seja, pelo discurso intelectualoide tão badalado, os riquíssimos empresários de ritmos dançantes comerciais, seja o eurodance dos escritórios de Roma, seja o "funk carioca", seja o miami bass dos EUA, seja o tecnobrega do Pará,são todos gente "pobrezinha", que "ganha menos que um jovem engraxate de rua".


Se ouvirmos o tema da novela Avenida Brasil, da Rede Globo, "Vem Dançar Kuduro" ("Danza Kuduro"), de Dom Omar & Lucenzo, na versão de Latino e Daddy Kall, difícil não nos lembrarmos do caso do tema da novela Salsa e Merengue, também da Globo, o sucesso "Maria" de Ricky Martin. Que diferença faz o "oi, oi, oi" do "Vem Dançar Kuduro" com o "um, dos, trés" de "Maria"?  Nenhuma.

CONCLUSÃO

O brega-popularesco, mesmo caprichando nas "informações" e "referenciais", não se torna melhor com isso. Nem quando sambregas, de repente, "descobrem" a Bossa Nova e o som de Wilson Simonal. E nem quando breganejos cantam com orquestras sinfônicas.

Isso porque o trânsito de informações não faz com que as pessoas se tornem mais sábias. Nem sempre quantidade é o mesmo que qualidade. Além disso, a supradose informativa faz confundir tipos e estereótipos, não permite a compreensão real de fatos e fenômenos e não raro acaba desinformando mais do que informando, porque sabe-se os significantes, mas não os significados.

Daí um grupo gravar com sorrisos arreganhados uma canção sobre um massacre de manifestantes civis. Ou entender como "folclore" um ritmo planejado nos escritórios de gravadoras e casas noturnas. Ou então o desfile de citações de artistas genuínos que qualquer oportunista da música brega pode colher, pelo "Ctrl+C/Ctrl+V", em qualquer texto na Internet.

Não é difícil constatar que muitos desses ídolos musicais da mediocridade cultural são treinados até mesmo para darem entrevistas. Calculam o que dizer ou não dizer não pela sinceridade de seus pensamentos e opiniões, mas como forma de tentar passar uma imagem "agradável" para o público.

César Menotti & Fabiano são apenas uma dupla de mercadorias "sertanejas", para a qual pouco importa se existiu ou de que forma se deu a música caipira no país. Pouco importa para esses diluidores da música caipira, como para outros diluidores desta e de outros ritmos brasileiros, os ritmos populares na sua forma original.

Eles estão apenas para produzir produtos de consumo, músicas para tocar em rádio em seis meses e só. Mas precisam serem levados a sério para não serem vistos como meros modismos. Mas é tudo por dinheiro. Nada pela cultura. E toda a linhagem brega-popularesca "sambô", no pior sentido do termo, nessa obsessão de parecer "mais cultural". A mediocridade continua evidente, e até pior.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...