segunda-feira, 30 de julho de 2012

ALCEU VALENÇA CRITICA MEDIOCRIDADE CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

Alceu Valença, a exemplo do ator José de Abreu e do nosso célebre (e injstiçado) Chico Buarque, é uma figura intelectual de esquerda que pode transitar até mesmo na grande mídia sem soar deslocado ou se tornar um traidor.

Eles não têm ilusões quanto aos mecanismos midiáticos dominantes, e possuem uma conscientização e uma visibilidade suficientes para que eles se posicionem acima até mesmo de qualquer trincheira midiática.

Portanto, não é qualquer um que pode usufruir de tamanho privilégio. Os bregas e seus derivados, por exemplo, soam bastante deslocados quando estão na mídia de esquerda, e seu baixo (embora, por vezes, pretensioso e tendencioso) nível de politização os faz parecerem mais à vontade quando estão felizes cumprindo os compromissos midiáticos com as Organizações Globo e os grupos Folha e Abril do que quando estão choramingando diante do pessoal de Fórum e Caros Amigos.

No último dia 22 de julho, a revista do Globo publicou um artigo de Alceu Valença, em que ele fala das questões políticas que aprendeu com seu pai. O cantor informa que seu pai foi político, por acreditar que a política é a "arte do possível", mas Alceu preferiu a música, por acreditar que esta é a "arte do impossível".

Em certo momento, ele criticou a mediocrização cultural que hoje domina a mídia. Alceu tem conhecimento de causa, porque sente que ele, seus colegas e mestres na militância da cultura brasileira de verdade, estão perdendo espaço devido à choradeira de centenas e milhares de ídolos bregas, celebridades popozudas, jornalecos policialescos e comediantes grotescos que usam o rótulo de "vítimas de preconceitos" para conquistar novos espaços.

Vale aqui reproduzir o parágrafo contundente de Alceu Valença, que contrasta, e muito, por exemplo, com aquela "etnografia de resultados" que os militantes do "funk carioca" fazem na sua eterna choradeira. Eis então:

"A falta de conceitos a que muitos artistas hoje se entregam veio de mãos dadas com a derrocada das ideologias. Vemos canais de rádio e TV nas mãos de políticos, que promovem o entretenimento vazio, anjos avessos a qualquer manifestação ideológica. Uma engrenagem de formadores de opinião sem opinião que glamouriza o lixo cultural e nos despe de lógica, pensamento e identidade".

Dá para perceber que tais frases lúcidas de Alceu Valença abalam feito um violento terremoto nas mentes dos tais "formadores de opinião", como Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, MC Leonardo, Ronaldo Lemos, Hermano Vianna e outros.

A frase do cantor pernambucano despe qualquer ilusão que tais "formadores" vendem a atacado ou a varejo, tentando comprar apoio até mesmo de alguns nomes da MPB séria, acreditando que um Sérgio Ricardo vá assinar embaixo de qualquer baixaria que Mr. Catra, por exemplo, fizer.

Sabemos que Sérgio não vai embarcar numa coisa dessas. Mas é certo que gente que já se foi, como Itamar Assumpção, Sérgio Sampaio e Nara Leão também não, e nem por psicografia. Mas a intelectualidade etnocêntrica dotada de muita visibilidade, mas no fundo um bando de "garotos de recados" dos departamentos de entretenimento da velha grande mídia, tenta o possível para enganar a opinião pública.

Mas vamos então a uma outra frase de Alceu, desta vez retirada do seu perfil do Facebook:

"POLÍTICA PARA MIM SERIA A ARTE DO POSSÍVEL e A ARTE A POLÍTICA DO IMPOSSÍVEL. No entanto, essas minhas assertivas filosóficas caem por terra quando vejo a política se transformando em cartel, corrupção, traição e outras sujeiras. A arte deixa de fluir da alma e vira entretenimento, jingle, puro comércio. Domina veículos de comunicação com sensualismo grotesco e um discurso vazio. O Brasil precisa pensar. Democracia não significa alienação. Será que seremos para sempre escravos dos tentáculos do poder econômico e suas artimanhas?"

E pensar que seu nome foi citado, levianamente, numa música da banda baiana Chiclete Com Banana, um dos nomes dessa mediocrização cultural atroz. Bell Marques deveria sentir vergonha dessa apropriação, afinal o Chicletão não é mais do que um bando de magnatas que integra esse verdadeiro neoliberalismo musical chamado axé-music, e Bell, explorador de músicos, sonegador de impostos, compositor medíocre e monotemático (suas músicas só falam da própria banda), é um dos maiores símbolos desse cenário "cultural" alimentado pelo antigo poder de Antônio Carlos Magalhães.

A verdadeira cultura não se dá através de lotadores de plateias, que se enriquecem às custas da credulidade popular. E Alceu, ícone da MPB setentista, músico que encantou um Jackson do Pandeiro que, a princípio, parecia desconfiado com o visual hippie do seu discípulo, é um dos artistas que não precisam se apoiar no sucesso dos "excluídos" e "injustiçados" ídolos bregas para obter visibilidade.

Alceu Valença sabe dos espaços que têm e em Pernambuco ele é respeitado e admirado o bastante para pegar carona em bregas metidos a coitadinhos que lhe ofereçam alguma vaga em qualquer mega-festival do interior do país. Isso é que é ter consciência humana e artística.

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