segunda-feira, 2 de julho de 2012

AGAMENON E AS BAIXARIAS CONTRA PARAGUAI E FERNANDO LUGO


Por Alexandre Figueiredo

O humor brasileiro tem seus problemas. Não é moralismo dizer que seus limites se esbarram no risco de que baixarias sejam cometidas com o pretexto de serem "engraçadas", já que em muitos casos é o respeito humano que é, de fato, ameaçado.

Na foto ao lado, há um possível fundamentalista islâmico que o "colunista" de O Globo, Agamenon Mendes Pedreira, na verdade um personagem fictício criado por Hubert Aranha e Marcelo Madureira, do Casseta & Planeta, atribuiu ao ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo.

É um daqueles recursos, que outrora chegaram a ser bem engraçados e às vezes até continuam fazendo graça, de usar uma foto de alguém para creditar outra pessoa, geralmente com algum trocadilho de sentido oculto nessa "troca de fotos".

No entanto, o artigo "Recuerdos del Paraguai" (título em portunhol rudimentar, com "Paraguai" escrito com "i", não com o "y" do idioma espanhol), na ironia de definir o país sul-americano como "vítima de bullying dos países do Narcosul (sic)", foi um verdadeiro bullying contra tudo contra todos, do tipo em que os valentões juram ser "só uma brincadeirinha".

Outra foto foi ilustrada para o texto, usando uma chinesa passeando numa rua na China - provavelmente, Pequim - creditada como uma "sacoleira do Paraguai". E o texto humorístico, para quem leu os lúcidos textos de Eduardo Guimarães no seu Blog da Cidadania, é de causar mal estar.

Para "Agamenon", o Paraguai é um país que vive do comércio ilegal, da venda de produtos falsificados e do roubo de carros, definidos como "principais atividades econômicas". Um péssimo estigma que Fernando Lugo havia tentado eliminar em seu governo bruscamente interrompido.

Já Fernando Lugo é tido como "mulherengo". Pode ter tido suas mulheres, sim, o ex-presidente, mas da forma como foi citado o caso, o reduz a um cafajeste de terceira ordem, que, "agora que sofreu impeachment, vai se dedicar ao seu projeto principal que é repovoar o Paraguai pessoalmente". "Repovoar", no caso, é produzir filhos com suas amantes.

Em um certo momento, o texto cita a Guerra do Paraguai, e ainda faz um comentário infeliz: "Para evitar uma carnificina, o Brasil, um país de índole pacífica, exterminou a população do Paraguai e quase foi varrido do mapa. E o que é pior: pra baixo da Bolívia!".

Desta vez, como em tantas outras em que o Casseta & Planeta sofre surtos reacionários - desde que Marcelo Madureira esqueceu que era humorista nas suas palestras no Instituto Millenium - , o texto, em vez de causar graça, foi um festival de humilhações.

Em vez do respeito à autodeterminação dos povos, sobretudo com o sofrido e problemático Paraguai, o texto é uma verdadeira depreciação gratuita ao país e, como se não bastasse, creditou o Mercosul, o bloco econômico dos países sul-americanos, de "Narcosul", seguindo o coro dos reacionários que não gostaram de ver o governo golpista de Federico Franco, sucessor de Lugo, barrado nas reuniões do bloco.

Portanto, o texto de Agamenon Mendes Pedreira publicado ontem não teve a menor graça. Foi só desgraça.

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