domingo, 10 de junho de 2012

A ÚLTIMA CRÔNICA DE IVAN LESSA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Ivan Lessa foi um dos cronistas que mais personificaram o espírito bem humorado mas altamente inteligente do Pasquim. E certa vez fez uma dura crítica ao vício dos brasileiros de viver com memória curta, através da frase "A cada 15 anos o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos".

Ele era também um apreciador de música de qualidade, tendo feito parte da geração que frequentou a histórica Lojas Murray (apesar do nome no plural, era uma loja só), no centro do Rio de Janeiro, que vendia eletrodomésticos e discos, muitos deles importados, que mostravam os lançamentos de jazz que a turma da Bossa Nova comprava com muita ansiedade.

O falecimento de Ivan Lessa se deu poucos meses após a do colega Millôr Fernandes, também da turma do Pasquim. E Ziraldo Alves Pinto, ao lamentar os falecimentos dos dois e de outro amigo, o humorista Chico Anysio, se disse ameaçado, por ver que a turma está "se despedindo". E, certamente, Ivan Lessa era uma das referências da literatura brasileira e da mídia alternativa do país, com seu humor corrosivo e peculiar.

Ivan era cronista da BBC Brasil e sua última crônica foi escrita justamente em homenagem a Millôr. Ivan também foi filho dos escritores Orígenes Lessa e Elsie Lessa.

Ivan Lessa morre em Londres; leia sua última crônica

Do Portal Vermelho

Ivan Pinheiro Themudo Lessa nasceu em 9 de maio de 1935, em São Paulo, mas foi criado no Rio de Janeiro.

Segundo sua viúva, Elizabeth, ele sofria de enfisema pulmonar e tinha problemas respiratórios graves. Mas o motivo da morte ainda não é conhecido. Ela disse que, ao chegar à noite em casa, encontrou Ivan Lessa morto em seu escritório. Ela estima que ele tenha morrido entre as 16h e as 18h30, pelo horário local.

Foi fundador, em 1969, e um dos principais colaboradores do jornal critico e satírico "O Pasquim", durante os anos de resistência à ditadura militar brasileira.

No "Pasquim", ele escreveu, entre outras, a coluna "Gip! Gip! Nheco! Nheco!", "Fotonovelas" e os "Diários de Londres". Ele também criou, em parceria com o cartunista Jaguar, o ratinho Sig, símbolo da publicação.

Ivan Lessa trabalhou e colaborou com vários órgãos de imprensa, como a TV Globo, as revistas "Senhor", "Veja" e "Playboy" e os jornais "Folha de S. Paulo", "Estado de S.Paulo", "Jornal do Brasil" e "Gazeta Mercantil". Também trabalhou como publicitário.

Leia sua última coluna, publicada na manhã da sexta-feira (8) em que Lessa ironiza a morte:

Orlando Porto. Taí um nome como outro qualquer. Podia ser corretor de imóveis, deputado, ministro, farmacêutico. Mas não é. Trata-se de um anagrama de um escritor francês - e ator e ilustrador bom e autor e figurinha difícil francesa e aquilo que se poderia chamar de "frasista".

Feio como um demônio, no meio da década de 1950 cansei de dar com ele dando comigo lá pelo Boulevard St. Germain, cheretando o Flore, o Lipp, fazia uma cara que quem ia dizer algo importante e logo sumia na companhia do Jean-Pierre Léaud, aquele maluquinho dos filmes autobiográficos do Truffaut.

Dupla estranha. Os desenhos do - esse seu nome, artístico ou de batismo, Roland Topor- eram bacaninhas. Mas sempre foi Orlando Porto para mim.

Fez cinema também. O Inquilino do Polanski, o Reinfeld de Nosferatu, do Werner Herzog. Até que bateu o que ocultava seus pés: umas botas estranhas como ele.

De vez em quando, numa revista esotérica, dou com ele. Ei-lo numa em inglês com "100 boas frases para eu matar agorinha mesmo". Se chegou ao fim, e chegou, foi pelo cachê. Meros galicismos literários.

E aí trago à cena, mais uma vez, porque cismei, mestre Millôr Fernandes. Esse era profissional. Nada a ver com "frasista". Trabalhava com a enxada dura da língua. Nunca para dar a cara no Flore, principalmente com Topor e Léaud.

Reli umas 100 frases do Orlando, ou Topor, e não resisti à tentação de, em algumas delas dar-lhes uma ginga por cima e outra por baixo, à maneira do frescobol querido do mestre, só para exercitar os músculos muito fora de forma.

Cem razões: Faço por bem menos, mas mais Copacabana e Leblon. Algumas raquetadas minhas em homenagem ao mestre cuja falta continuo sentindo:

- Melhor maneira de verificar, antes, se já não estou morto.

- Mas não se mata cavalos e malfeitores?

- Pelo menos eu driblaria o câncer.

- Milênio algum jamais me assustará.

- Apanhei-te horóscopo! Pura enganação!

- Levo comigo a reputação de meu terapeuta.

- Pronto, agora não voto mais mesmo! Chegou!

- Aí está: uma cura definitiva para a calvície.

- Enfim cavaleiro do reino de sei lá o quê.

- A vida está pelos olhos da cara. Pra morte eles fazem um precinho especial, combinado?

- Enfim, ano bissexto nunca mais. Esses ficam para o Jaguar. O resto pro Ziraldo.

- Ao menos é uma boca de menos a sustentar.

- Só quero ver quanta gente vai sincera no meu funeral.

- Pronto! Inaugurei estilo novo: Arte Morta.

- Sabe que minha vida não daria um filme. O livro eu já escrevi. Deixem o desgraçado em paz, peço-lhes.

- Custou, mas estou acima de qualquer lei que vocês bolarem aí.

- Levou tempo, mas cortei enfim meu cordão umbilical.

- Roncar, nunca mais. Nem eu nem ninguém ao meu lado.

- Que desperdício nunca ter fumado em minha vida!

- Consegui preservar o mistério sempre girando em meu torno.

- Maioria silenciosa? Essa agora é comigo.

- Na verdade, nunca me senti à vontade nessa posição incômoda de cidadão do mundo.

- Ei, juventude, pode vir que pelo menos uma vaga está aberta.

- Emagrecer é isso aqui.

- Agora é conferir se, do outro lado, sobraram tantas virgens assim.

E assim, cada vez que um "frasista" passar por perto de mim, leve uma nossa: minha e de Millôr. Dois contra um, a gente ganha mole.

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