quinta-feira, 21 de junho de 2012

TRANSPORTE: A FALÊNCIA DO MODELO "CURITIBANO"


Por Alexandre Figueiredo

Ônibus enguiçados, com letreiros digitais quase em todo apagados, motoristas em trabalho sobrecarregado e adoecendo sentados ao volante, trânsito congestionado, longas esperas dos passageiros para um ônibus, desemprego, ônibus lotados (até articulados!) e acidentes de trânsito com mortos.

Junta-se a isso a dificuldade dos passageiros comuns de reconhecerem as empresas de ônibus que servem as linhas, "embaralhadas" por uma padronização visual que não tem a menor serventia e mais atrapalha do que ajuda, mais corrompe que disciplina. E, para piorar, ainda há busólogos sofrendo do "mal de Diogo Mainardi", partindo para o pior reacionarismo.

Fatos comprovam: nos últimos quatro anos, 14 milhões de curitibanos largaram os ônibus. No Rio de Janeiro, entre março e abril passado nada menos que 643 ônibus municipais foram enguiçados. Na capital paranaense, uma empresa de ônibus, Água Verde, foi extinta às costas dos passageiros, e no Rio a linha 296 Castelo / Irajá trocou de empresa e o "povão" foi o último a saber.

Os ônibus pioraram e a renovação de frota que as autoridades sempre faziam para tentar calar os protestos revela-se inútil. Afinal, a própria URBS (Urbanização de Curitiba S/A) admitiu que o sistema de ônibus da capital paranaense está em falência, devido à compra de caríssimos novos carros de motor Volvo, usados como meio de "minimizar" a decadência. E, mesmo assim, foram ainda encomendados mais novos carros.

É a decadência de uma forma de "mobilidade urbana" que só é vista como "moderna" num país sem referenciais como o Brasil, em que até a redemocratização ocorreu de forma confusa e orquestrada pelas mesmas forças civis que defenderam o golpe de 1964.

O principal astro desse tipo de "mobilidade", o arquiteto Jaime Lerner, demonstrou-se um político bastante conservador e antipopular, embora, nos âmbitos do urbanismo ou mesmo na busologia, ele ainda seja visto como um semi-deus. Mas mesmo nesses setores, o "futurismo" de Lerner, planejado durante o governo do general Emílio Médici, de cujo partido, a ARENA, o arquiteto era ligado, já começa a mostrar seu desgaste claramente.

Nas últimas semanas, as denúncias de irregularidades atingem cidades em que esse "moderno" modelo de transporte coletivo e mobilidade urbana foram implantados, uns há mais tempo, outros recentemente. Os infortúnios mais comuns vão desde demissão em massa de rodoviários até mortos em acidentes de ônibus, além das superlotações que atingem até mesmo os articulados (chamados de BRTs).

Mas, dentre os infortúnios pouco divulgados, está a frequência com que passageiros pegam ônibus errados por conta da padronização visual, não somente da parte de idosos, gestantes, pobres analfabetos e deficientes, mas por pessoas cheias de afazeres na vida, com tantos compromissos pessoais a fazer. Imagine um office-boy com todas as contas a pagar e documentos a baixar, em plena Av. Pres. Vargas, no Rio de Janeiro, pegar um 254 da Viação Acari pensando ser o 232 da Rodoviária A. Matias devido a tantas preocupações com seu trabalho.

E o reacionarismo busólogo por conta de um membro de extrema-direita infiltrado entre os busólogos cariocas - e que já havia aparecido num programa de TV paga - , quase desmoralizou o hobby, chegando a criar um blogue para humilhar desafetos, sob o pseudônimo "Crítico", usando a desmoralização dos outros (que já incluiu declarações racistas) para eliminar concorrentes na sua escalada pessoal de ascensão política.

Só esse parágrafo mostra o quanto o "moderno" modelo que, no Rio de Janeiro, foi imposto, sem a menor consulta popular, por Eduardo Paes e seu secretário de Transportes, Alexandre Sansão, é de caráter conservador, até mesmo na sua base de apoio. Um modelo que apenas atende a interesses político-tecnocráticos, em detrimento do interesse público, que só é "valorizado" no discurso demagógico.

O povo é o que está mais sofrendo com esse sistema, tão antiquado que mais parece uma "busologia da República Velha", tamanha a politicagem que está por trás. Até mesmo a padronização visual tem por objetivo camuflar as empresas de ônibus com um visual unificado, favorecendo a corrupção, enquanto a ênfase na prefeitura e no governo estadual (no caso de linhas metropolitanas) mostra a evidente publicidade politiqueira.

A decadência está a olhos vistos, e notícias diversas ocorrem em Belém, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Teresina, Goiânia, Brasília, Fortaleza, Curitiba e Porto Alegre, capitais que implantam o sistema. E, na antiga capital fluminense, Niterói, o mesmo Jorge Roberto Silveira que deixou acontecer a tragédia do Morro do Bumba quer implantar o mesmo sistema decadente.

Isso mostra o quanto no Brasil existe o costume de implantar o "velho" como se fosse o "novo". Só que não se fazem coisas antigas como antigamente. Até 1964, muitas coisas aparentemente tradicionais e hoje "antigas" eram feitas visando o interesse público, a funcionalidade e se fazia pensando no futuro.

Com a ditadura, vieram coisas mais antiquadas mas que, vindas depois, parecem "novas" e "à frente do tempo". Mas elas são feitas pensando no presente ou "no futuro" visto como mera cópia (ainda mais radical) dos tempos presentes. Só que o futuro nem sempre aceita imitar o presente e a tragédia que se encontra o modelo "curitibano" de transporte coletivo diz muito mais de ruim do que o que as palestras tecnocráticas tentam dizer de melhor.

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