sábado, 23 de junho de 2012

A SEGUNDA "GUERRA DO PARAGUAI"


Por Alexandre Figueiredo

O impeachment do presidente democraticamente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, tornou-se mais um infortúnio envolvendo um governo popular no país sul-americano, um governo desfeito sob o patrocínio de uma potência econômica mundial.

Afinal, o impedimento foi dado pelo parlamento paraguaio dominado pelos poderosos empresários e proprietários de terras, ávidos de reconquistar os privilégios que tinham durante a ditadura longa de Alfredo Stroessner e que estavam sob risco durante o governo recentemente desfeito.

O pretexto foi a "incapacidade" do presidente paraguaio resolver o problema do conflito de agricultores sem-terra da região de Curuguaty, que deixou 17 agricultores e policiais mortos. Os protestos dos camponeses, no entanto, eram algo acima de um simples direito de posse de terra, mas um protesto contra a influência política e econômica dos 2% de ricos paraguaios que detém 80% das riquezas do país, inclusive o latifundiário Blas Riquelme, o mais poderoso de lá.

O golpe feito pelos congressistas paraguaios procurou adotar um verniz de legalidade, mas historiadores e cientistas políticos já o definem como um golpe de Estado. Lugo só teve 24 horas para fazer sua defesa contra o impedimento político, o que é muito pouco. Até um corrupto no Brasil possui um prazo maior de defesa, pelo menos uns dez dias. Um dia só é pouco para pensar e elaborar os argumentos necessários.

Lugo era um bispo católico ligado à Teoria da Libertação. Apesar de eleito pelo povo em 2008, o presidente não tinha o apoio do Congresso, que era majoritariamente conservador, sobretudo ligado ao Partido Colorado que sustentava políticamente a ditadura Stroessner. Até agora, Lugo governava sob violenta oposição política, que sempre pressioanva contra qualquer realização dos projetos de governo do presidente.

O cientista político Mark Weisbrot, também jornalista, colaborador do The Guardian inglês e co-diretor do Center for Economic and Policy Research (CEPR), sediado em Washington, já comentou sobre o apoio do presidente estadunidense Barack Obama ao impedimento de Lugo e a disposição do Departamento de Estado dos EUA de apoiar financeira e militarmente toda a oposição política às forças progressistas do Paraguai.

Isso lembra muito a Guerra do Paraguai, que nós, brasileiros, já aprendemos de forma torta e míope. A visão que recebemos era que o presidente Francisco Solano Lopez era um ditador populista, quando ele era um líder revolucionário, influenciado por Simon Bolivar, que estava realizando medidas em prol do crescimento do país.

O Paraguai estava se tornando uma nação em ascensão sócio-econômica e política, quando a Grã-Bretanha, a potência mundial da época, nos meados do século XIX, articulou Argentina, Brasil e Uruguai a se mobilizar militarmente para destruir o país. As tropas brasileiras chegaram a ter dois generais: primeiro, Dom Filipe Gastão de Orleans, o Conde d'Eu, marido da Princesa Isabel e genro de Dom Pedro II, e Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias.

O Brasil não tinha um Exército definido, e até mesmo escravos foram treinados para combater no Paraguai. A articulação de milícias foi a origem do que hoje conhecemos como jagunços e muito do nosso coronelismo se deve a essa campanha na Guerra do Paraguai, que durou de 1864 a 1870. A crueldade de nossos "soldados" foi tal que até civis e doentes que haviam entre os paraguaios foram mortos. E 75% da população masculina foi estimada no número de paraguaios mortos. Solano Lopez também foi assassinado.

Os proprietários de terras brasileiros que treinaram soldados para a Guerra do Paraguai foram premiados com o título de coronéis da Guarda Nacional, o que deu origem ao termo "coronelismo" que conhecemos. Mas fomos enganados com a lição que recebemos, sobretudo durante a ditadura militar, em nossas escolas primárias, que sempre definiam as tropas brasileiras como heroicas no confronto.

Hoje os contextos são outros, e a "Guerra do Paraguai" foi apenas interna. Mas os latifundiários, mais uma vez, agiram politicamente para expulsar um presidente popular, não da forma sangrenta que vitimou Solano Lopez, mas da forma cruel do golpe político. E, mais uma vez, sob os aplausos de uma poderosa potência capitalista.

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