sexta-feira, 1 de junho de 2012

QUANDO A PRÓPRIA INTELECTUALIDADE PROFANA O LEGADO DOS MORTOS


Por Alexandre Figueiredo

Existe uma prática infeliz na Internet que soa como uma verdadeira pegadinha. Textos atribuídos a autores ilustres mas cujo conteúdo destoa completamente dos respectivos estilos de quem é atribuída a autoria.

Esse verdadeiro ghostwriting pirata teve várias vítimas, de Clarice Lispector a Luís Fernando Veríssimo, em supostos textos reproduzidos na rede virtual.

Mas há também a prática de intelectuais de nome de se apropriarem de nomes ilustres para, a qualquer momento, usá-los para "justificar" a defesa da mediocridade cultural que domina o entretenimento do nosso país, sobretudo na música.

Claro, eles não estão aí para reclamar. Nem Raul Seixas, "usado" sem dó pela dupla breganeja Chitãozinho & Xororó, que alardearam aos quatro ventos em nosso país que sua "perseverança" na carreira musical se deu ouvindo a música "Tente Outra Vez", do roqueiro baiano.

No entanto, o próprio Raul Seixas, numa de suas últimas entrevistas, já afirmou que detestava a música tocada por Chitãozinho & Xororó. Como Raul havia afirmado que detestava a axé-music que quase pegou carona na sua imagem, não fosse uma ação judicial da viúva e parceira Kika Seixas.

Está certo que Chitãozinho & Xororó não são intelectuais, mas como são queridos pela intelectualidade pró-brega, a usurpação tem o mesmo sentido.

No "funk carioca", usa-se de Antônio Conselheiro a Malcolm McLaren, de Zumbi dos Palmares a Andy Wahrol, para as mais delirantes apologias intelectualoides, que definem o medíocre estilo como se fosse "mais genial" do que realmente é. Ou melhor, do que não é.

Mas Oswald de Andrade foi um dos mais utilizados para a defesa do brega-popularesco. Se o "pagode romântico" tem menos samba do que a encomenda, se o "forró-brega" tem mais disco music e country do que baião, basta um douto antropólogo, sociólogo, jornalista ou historiador tomar para si qualquer frase do Manifesto Antropofágico de titio Oswald e interpretar da forma mais distorcida possível. O escritor modernista, falecido há 58 anos, não está aí para reclamar.

Foi justamente o caso de Pedro Alexandre Sanches, que convenceu os editores da revista Fórum a colocar Gaby Amarantos na capa de uma edição, usando o pobre escritor modernista para "justificar o "fenômeno" do tecnobrega. A edição foi um fracasso nas bancas.

Gregório de Matos, que tem até os restos mortais desaparecidos - a igreja onde o poeta baiano foi enterrado foi destruída - , é outro que no entanto acumula recibos jogados pela intelectualidade.

Se o "pagodão" baiano tem muita pornografia e o "funk carioca" tem baixaria demais, a intelectualidade festiva corre logo para a Boca do Inferno para atribuir ao pobre Gregório as mesmas baixarias dos funqueiros ou "pagodeiros" de hoje. Como se Gregório de Matos escrevesse "proibidões", não poemas satíricos.

Foi justamente isso que Mônica Neves Leme, numa tese de pós-graduação (!), resolveu fazer em relação ao É O Tchan, enchendo sua monografia de um monte de inverdades que tentou transformar a armação do empresário Cal Adan num caleidoscópio indie-modernista-sensual. O livro foi um grande fracasso editorial.

Fernanda Abreu foi longe. A cantora e "discípula" dos delírios brega-pop de Hermano Vianna, num artigo, chegou a se apropriar de um trecho de "Pra Que Discutir Com Madame?", do sambista Haroldo Barbosa (em parceria com o também sambista Janet de Almeida), substituindo "samba" por "funk", num caso gritante do uso do legado de mortos para defender a mediocrização cultural de hoje.

Na sala de espera, estão Itamar Assumpção, um dos "cabeças" da "cena" da Lira Paulistana, Sérgio Sampaio, um dos nomes da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista junto a Raul Seixas, Miriam Batucada e o hoje remanescente Edy Star.

Imagine Sérgio Sampaio ser usado para "justificar" o sucesso de João Lucas & Marcelo, mais um nome do chamado "sertanejo pegação" com seu "Tchu Tcha". Ou então Itamar Assumpção sendo usado para "defender" ídolos como Anderson do Grupo Molejo e Márcio Victor do Psirico. Aí será uma grande bagunça.

Profanar os falecidos dessa forma, usando-os como "porta-vozes" póstumos da mediocrização cultural de hoje, é um grande desrespeito à memória deles.

E não se está sendo moralista nem preconceituoso com esta constatação. E, na melhor das hipóteses, isto nada tem a ver, afinal os contextos sócio-culturais são bem outros.

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