segunda-feira, 18 de junho de 2012

PORQUE O NOSSO 'HIT-PARADE' NÃO É ALTERNATIVO


Por Alexandre Figueiredo

O que funciona, no Brasil, é o pretensiosismo que trata até mesmo a indústria cultural como se fosse "causa nobre" de um suposto "ativismo social".

Isso faz com que nosso hit-parade seja promovido às custas de uma gororoba teórica e metodológica de intelectuais e críticos musicais que não medem escrúpulos até mesmo para romper as barreiras naturais do argumento lógico para defender seus pontos de vista.

Através deste blog, sabe-se que os intelectuais mais badalados do país chegaram até mesmo a se apropriarem de ideias de intelectuais e artistas falecidos para defender seus pontos de vista, distorcendo contextos e conceitos.

Exemplo disso é o caso de Oswald de Andrade, que agora "assina embaixo" de qualquer processo de desnacionalização cultural, agora na garoupa de qualquer tese globalizante (de tendência neoliberal) aplicada à "(pós-)moderna cultura popular transbrasileira".

Mas sabe-se que o Brasil tenta adotar uma postura "diferente" para sua indústria cultural em relação à dos EUA. No fundo, o hit-parade norte-americano é o mesmo que o brasileiro, até porque o primeiro serve de modelo para o segundo, mas há um mito ideológico do Brasil como um país "mais inocente" e "puro", no qual o capitalismo selvagem "não encontra" terreno.

Por isso, vemos o quanto o cinema comercial brasileiro se vale de uma mística cinemanovista que há muito rompeu e que, no fundo, diverge completamente. A Conspiração Filmes se configura, no entanto, como uma indústria de filmes comerciais, não muito diferente de uma Miramax Films, quando a Globo Filmes também não é menos mercenária do que uma Warner, Universal, Metro Goldwin Meyer, Columbia ou 20th Century Fox.

Mas nós somos "ingênuos". Somos "mais puros". Daí que vem um TeleCine Cult com a lorota de que o cinemão antigo de Hollywood é "alternativo", em claro confronto com a memória histórica de tantos cinéfilos alternativos contestando a hegemonia hollywoodiana. Até Glauber Rocha teria reprovado o TeleCine Cult, que não passa de uma gororoba saudosista cinematográfica.

Na música, porém, há a glamourização do hit-parade que dá até mesmo o caráter sobrehumano a ídolos como Michael Jackson, Whitney Houston e Bee Gees, para citar nomes finados (dos Bee Gees, dois terços do famoso trio já faleceu), ou mesmo nomes vivos como Mariah Carey, que no Brasil contam com fãs fanáticos e até mesmo agressivos. Coisa que não existe nos próprios EUA, em que tais ídolos são considerados hasbeen (ultrapassados).

Não bastasse isso, é o brega-popularesco, o hit-parade brasileiro, querer adotar uma imagem "arrojada" para ampliar seus mercados. Agora, sob o pretexto de "novas mídias", "novas culturas" e "novas visões", o brega-popularesco, que sempre desprezou a MPB autêntica e via nos roqueiros brasileiros um bando de "derrotados resmungões", agora apela para seus desprezados para levar vantagem e atingir mercados antes inimagináveis.

Ainda vamos falar dessas manobras. Mas sabe-se que, para elas terem sentido, a intelectualidade insiste, desesperadamente, até mesmo empurrando suas teses goela abaixo na imprensa de esquerda, nas argumentações mais escalafobéticas para convencer suas plateias através de um discurso confuso. E pior que convencem, hábeis que são.

Aí vendem o brega-popularesco como se fosse uma "cultura alternativa". Pedro Alexandre Sanches (sempre ele) chegou a dizer que o cantor de sambrega, o "injustiçado" Leandro Lehart, era underground. Coisa parecida a imprensa baiana - a partir de um jornal A Tarde reformulado por Ricardo Noblat (ele mesmo) - fez com o "pagodão" baiano da linha de Psirico e Pagodart.

Completando o festival de lorotas, credita-se como "independentes" as gravadoras regionais de brega-popularesco, só porque elas possuem uma estrutura financeira pequena e um perfil administrativo modesto - não há um CEO nessas companhias - e não possuem escritórios na Avenida Paulista, em São Paulo, e muito menos sucursais em Los Angeles e Miami.

Só que gravadora independente não se define pela estrutura financeira e administrativa, mas pela filosofia de trabalho. E muitas dessas gravadoras "independentes" do Brasil possuem uma mentalidade tão mercenária quanto qualquer grande gravadora multinacional, seus chefões manobram tanto quanto os executivos de uma Warner Music e Universal, só não vestem ternos caríssimos e calçam tênis até em festas de gala.

Mas a intelectualidade insiste. Eles acham que o mercado "morreu", que a velha grande mídia "está agonizante" e comemoram aquilo que eles tentam definir como "revolução cultural sem precedentes", uma "rebelião popular explosiva" que no entanto não passa de um mero trololó para definir a hegemonia brega-popularesca que já domina o "falecido" mercado. Só falta chamar Michel Teló de "Julian Assange" brasileiro para o ridículo ficar completo.

A manobra discursiva da intelectualidade, que ainda credita como "ativismo social" o consumismo passivo dos chamados "sucessos do povão" e já tentou classificar as musas "popozudas" como "feministas" às custas de desculpas esfarrapadas, e define os "artistas" popularescos como se fossem "militantes hiperconectados", nem sempre tem êxito nos seus discursos confusos mas persuasivos.

Afinal, fica difícil creditar como "rádios alternativas" emissoras comerciais que estão no topo do Ibope, como a Beat 98 carioca, a Nativa FM e a Band FM. Ou mesmo a paraense O Liberal FM e a baiana Piatã FM. Resta o consolo de dar o falso crédito às rádios comunitárias que também tocam o mesmo repertório musical, embora sabemos que várias delas são controladas por políticos locais ou por gente ligada aos proprietários de terras da região.

Essas manobras ganham respaldo porque o entretenimento neoliberal do Brasil tenta parecer "mais humano" do que seu original norte-americano. Seus princípios tentam parecer "mais nobres", seus processos mais "transparentes" e "revolucionários".

No entanto, como muita gente não percebe o verdadeiro espírito da coisa, o pessoal vai acreditando, e a memória curta até permite que ídolos conservadores do passado, como Waldick Soriano, Odair José, José Augusto e Michael Sullivan sejam hoje tidos como "rebeldes", até delirantemente tratados pelo discurso intelectualoide como se fossem "militantes guevaristas".

Passada a "novidade", porém, veremos que se trata do mesmíssimo hit-parade norte-americano, apenas adaptado para as caraterísticas brasileiras. Mas é tudo o mesmo mercenarismo, a mesma busca selvagem para o lucro e o mesmo rol de hipocrisias e pressões que vão contra o sentido verdadeiro de arte e cultura.

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