domingo, 24 de junho de 2012

OS PORTEIROS DE TIO SAM


Por Alexandre Figueiredo

A opinião pública de esquerda mais mediana erra por estar vulnerável a inúmeras armadilhas. Formada por leitores apressados, de gente que só apreende as coisas pelos enunciados, essa "elite pensante" pensa muito menos do que pensa pensar, e questiona muito menos do que imagina fazer.

Isso se torna claro quando o assunto é entretenimento, cultura, cidadania. As armadilhas se tornam mais sutis, sedutoras. Elas não oferecem perigo para o poder dominante, e até agradam aos detentores do poder, mas os analistas médios de esquerda acabam fascinados por esse "cavalo de Troia" pós-moderno, pelo qual acreditam sair alguma revolução socialista em nosso país.

Sabemos que todo o discurso neoliberal relacionado à cultura popular se traveste de "socialista", prometendo a "morte do mercado", a implantação de "novas mídias" e a transformação de qualquer cidadão comum em "revolucionário", sem que seja necessário sequer uma "causa". Ser "rejeitado pela crítica" já é uma "causa" e verdadeiros tolos são convertidos em "ativistas sociais" por conta desse discurso míope.

Mas a coisa é muito mais séria do que se imagina. Se já é preocupante a implantação das regras do hit-parade norte-americano a pretexto de "modernizar" o folclore brasileiro, promovendo uma suposta "cultura hiperconectada transbrasileira pós-moderna", no âmbito do jornalismo investigativo a coisa parece ser ainda muito mais grave, e mais grave ainda porque poucos, como este blogue, conseguem perceber as armadilhas.

É o caso do Jornalismo nas Américas, projeto do Centro Knight em parceria com a Universidade do Texas, já comentado aqui, num processo pioneiro de questionar uma das notórias armadilhas do imperialismo norte-americano, e uma das primeiras que pegam o povo desprevenido. Afinal, as jovens gerações desconhecem armadilhas históricas como o New Deal de Franklin Roosevelt e a Aliança para o Progresso de John Kennedy.

Os porteiros de Tio Sam são escolhidos, vários deles nos países latino-americanos, para oferecer uma mitologia de sonho e fantasia para as pessoas. Tudo parece ser perfeito e justo, e no caso do Jornalismo nas Américas, promete-se o "aperfeiçoamento" do jornalismo investigativo e da liberdade de imprensa. É um discurso que, em muitos aspectos, até o Projeto Folha prometia, há quase trinta anos.

O jornalista Rosenthal Calmon Alves (ou Rosental, para uns), com seu ar bonachão, é o articulador dessa medida. Virou uma "unanimidade" entre os esquerdistas médios, como se fosse um "papai noel" das novas mídias digitais. Com um papo envolvente, "titio" Rosenthal seduziu a esquerda média a ponto de um deles sonhar em visitar o Texas, sem perceber que lá existe um Geraldo Alckmin em cada esquina.

Só que Rosenthal apenas difere dos jornalistas conservadores na elegância que tem em adotar posturas conservadoras. Neste sentido, um Reinaldo Azevedo é um troglodita. Rosenthal arrumou um jeito de defender a condenação de Julian Assange, o jornalista fundador do portal Wikileaks, dentro dos "princípios da democracia americana". Só não pode explicar se são os mesmos métodos que a "democracia americana" usa para o principal informante de Assange, Brad Manning.

Em compensação, Rosenthal elogiou a tendenciosa e oportunista Yoani Sanchez, definida como o "farol da liberdade". A esquerda média não percebeu, como já não percebe o conservadorismo de um Waldick Soriano, no âmbito da cultura. E acreditar que o jornalismo de esquerda possa ser guiado pelo "titio" Rosenthal tendo justamente a blogueira cubana como "farol" (ou guia), é cair em contradição. E não se pode ser feliz sendo contraditório.

Até o Método Paulo Freire ensina muito mais da investigação jornalística que o Jornalismo nas Américas. Afinal, o jornalismo investigativo é, acima de tudo, uma questão de motivações sociais, e não apenas uma técnica. Mais do que o "como fazer", que não deixa contudo de ser fundamental, o "para que fazer" é um imperativo e a questão primordial de um jornalismo investigativo.

O Jornalismo nas Américas apenas adequa o jornalismo investigativo dentro dos padrões aceitos pela "democracia americana". Ele segue um paradigma do jornalismo comercial norte-americano e define o profissionalismo dentro de seus padrões. O projeto é mais um em que os EUA se tornam articuladores de uma "integração panamericana" que não é mais do que uma "estadunização" da América Latina, em mais uma de suas campanhas seculares.

Dessa forma, a opinião pública brasileira deveria tomar cuidado, antes de expressar seu deslumbramento com algo que não representa um benefício real. Pregadores como Rosenthal Calmon Alves, Ronaldo Lemos, Pedro Alexandre Sanches, Pablo Capilé e outros, dos mais diversos, só querem mesmo é defender o neoliberalismo na sua acepção mais crua, mas a pretexto de falsos motivos sociais, que só servem para garantir o lucro das empresas associadas.

Dar as nossas chaves para esses porteiros de Tio Sam será oferecer nosso país de graça para o controle das autoridades norte-americanas.

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