quarta-feira, 20 de junho de 2012

OS "INJUSTIÇADOS" FERNANDO COLLOR E PAULO MALUF


Por Alexandre Figueiredo

Na música brega, sabemos que existem os chamados "injustiçados". São ídolos à beira do ostracismo que, se esquecendo que fizeram um estrondoso sucesso um dia, se julgam "vítimas de preconceito" e buscam de graça o reconhecimento pela ala nobre da MPB. Exemplos são muitos: Waldick Soriano, Odair José, José Augusto, Michael Sullivan, DJ Marlboro, Luís Caldas, Beto Barbosa, Leandro Lehart, entre outros.

Na política, há casos assim. Dois nomes originários do conservadorismo político, beneficiados pela ditadura militar, agora tentam passar a imagem de "progressistas", se aproveitando da memória curta dos mais jovens, que possuem a "vantagem" de não terem os "preconceitos (sic) éticos e estéticos" dos mais velhos.

Fernando Collor, o ex-presidente dos cantores bregas - seu governo simbolizou, no âmbito cultural, a ascensão ou o auge dos ídolos neo-bregas dos anos 90 (Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, Alexandre Pires, Belo, Leandro Lehart, Beto Barbosa, Netinho de Paula, Mastruz Com Leite, MC Júnior & MC Leonardo, Latino etc) - , era, desde a ditadura militar, membro de uma poderosa oligarquia em Alagoas, apesar de Collor ter nascido no Rio de Janeiro e ser neto de Lindolfo Collor, gaúcho que havia sido ministro de Vargas.

Fernando Collor possui sua raiz político-ideológica nos pais, Leda Collor e Arnon de Mello. Arnon, como senador, havia tentado matar o rival Silvestre Péricles, em 1963, mas na confusão ele baleou mortalmente outro senador, José Kairala, do PSD acreano, que tentava evitar o confronto. Detalhe: Arnon era do PDC, enquanto o rival Silvestre, que sobreviveu, era do PTB. Ironicamente, Collor é do PTB, mas hoje o partido não é sequer a sombra do que foi antes de ser declarado extinto em 1964.

Nessa época Leda e Arnon, com Fernando já adolescente, militavam no IPES, o "Instituto Millenium" dos anos 60, organizado como braço intelectual do IBAD para dar um verniz "científico" à oposição política a João Goulart. E, portanto, o casal defendia o golpe militar de 1964 e, consequentemente, apoiaram a ditadura que se seguiu e que acabou favorecendo politicamente o filho.

Paulo Salim Maluf também tem suas raízes no IPES, como um simples empresário. E sua atuação em defesa do golpe de 1964 foi "discreta" mas entusiasmada. E iniciou sua carreira política claramente beneficiado pelos generais, sendo inclusive prefeito e governador "biônico" (nomeado pela ditadura, sem qualquer pleito eleitoral), e recentemente foi divulgada uma denúncia de que Maluf teria ajudado os órgãos de tortura instalados na cidade de São Paulo.

Fernando Collor e Paulo Maluf possuem um histórico de corrupção e fisiologismo político notáveis. Mas tentam passar uma imagem de "grandes estadistas", sob o pretexto de que Collor, como presidente da República, "abriu a economia do país", e Maluf, como prefeito paulistano e governador paulista, "realizou grandes obras".

Collor recebeu o impeachment depois das denúncias do esquema financeiro do hoje falecido tesoureiro Paulo César Farias. Já Paulo Maluf tem uma longa ficha de corrupção, que o faz ser considerado um dos mais corruptos do mundo, famoso por "anabolizar" suas fortunas pessoais em pequenos países considerados paraísos fiscais (nome dado a países com uma política fiscal menos rigorosa).

Passado o tempo, Collor e Maluf, o primeiro tendo sido impedido de concorrer a cargos eletivos durante oito anos (1993-2000) e o segundo desgastado em sucessivas denúncias de corrupção, tiveram o apoio da grande imprensa para se rearticularem politicamente, ambos em 2006.

Paulo Maluf recebeu uma ajudinha de Amaury Jr. (não o Amaury Ribeiro Jr. das investigações sobre a privataria tucana, mas o colunista social mesmo), que apadrinhava a revista Flash, de curta duração (na tentativa de seguir o filão de Caras). Isso valeu a eleição de Maluf para deputado federal, em 2006.

Já Fernando Collor recebeu o apoio do empresário Domingos Alzugaray, da Editora Três, que através da revista Isto É, realizou uma campanha de "reabilitação política" do ex-presidente, que garantiu a sua eleição para o Senado, em 2006. Mas Collor também havia recebido páginas de apoio no Orkut, uma delas comparando o ex-presidente a Juscelino Kubistchek (!).

Fernando Collor, recentemente, se aproveitou do escândalo envolvendo a revista Veja no esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira para fazer ataques à publicação que, em outros tempos, havia trabalhado, até mesmo antes da Rede Globo, para criar o mito que o fez vitorioso nas urnas em 1989.

Já Paulo Maluf, esperto, resolveu apoiar a candidatura do petista Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo, depois de não conseguir acertar com o PSDB paulista para apoiar José Serra. Ultimamente Maluf e Collor, assim como José Sarney (outro beneficiário da ditadura militar e antigo integrante da ala moderna da UDN, chamada de "bossa nova" do partido), passaram a apoiar o PT de Lula.

Aqui vale lembrar tal postura do Partido dos Trabalhadores, que desgastou a imagem do partido e deu a Lula apetites de fisiologista político que mancharam a antiga imagem de corajoso líder sindical. E que faz o PT, até hoje, ser pouco ousado nas suas políticas governamentais, preferindo medir seus projetos às custas de alianças políticas nem sempre coerentes aos seus princípios originais.

Tudo isso fez o Partido dos Trabalhadores, que já era uma "torre de babel" envolvendo camponeses, operários e tecnocratas heterodoxos, dar origem a sucessivas dissidências, umas mais radicais, outras mais conservadoras. E revelou muitas surpresas nesse sentido, em muitos casos desagradáveis.

Enquanto isso, Fernando Collor e Paulo Maluf riem à toa, depois de se passarem por "injustiçados". É muito fácil posar de "vítima" num país sentimentaloide como o Brasil. Banca-se o coitadinho para esconder privilégios antigos, e assim o poder político ou midiático que não foi perdido pode assim ser renovado, com o apoio dos incautos, que "não têm os preconceitos éticos e estéticos dos mais velhos".

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