sábado, 16 de junho de 2012

O QUE O ORIENTE MÉDIO TEM A VER COM O BRASIL?


Por Alexandre Figueiredo

O título, por si só, é polêmico, mas é bom avisar que o texto não reprova a preocupação dos brasileiros com assuntos sobre o Oriente Médio.

O texto apenas chama a opinião pública brasileira para uma análise sobre o que os assuntos sobre os países árabes podem interferir, mesmo de forma indireta, na realidade brasileira.

Escreve-se isso porque, há pouco tempo atrás, houve um modismo, dentro de setores medianos da opinião de esquerda, de superestimar o Oriente Médio, não porque ele se tornou realmente destaque na geopolítica mundial, mas por uma questão de modismo mesmo.

Ocorria as chamadas "primaveras árabes" nesses países, situados na África e na Ásia, e tomados por ideologias supostamente religiosas, com crenças e princípios muito antigos. E há tiranias tanto "independentes" quanto aquelas protegidas pelos EUA.

O país da vez é a Síria, que a grande mídia quer definir como uma "ditadura sanguinária". No entanto, o presidente Bashar Al-Assad não é protegido dos EUA, que tentam enviar tropas militares junto a outras da OTAN (Organização Tratado do Atlântico Norte), nem se relaciona com Israel, principal país árabe protegido pela nação imperialista.

Consta-se que a "repressão organizada" que dizima centenas de pessoas diariamente vem de milícias, forças militares apoiadas pela OTAN e até por grupos criminosos. O que mostra que a Síria tem uma realidade bem diversa da do Egito, por exemplo.

São notícias que atravessam as fronteiras, mostrando a realidade sangrenta em vários países árabes. Recentemente, um atentado ocorreu no Iraque pós-Sadam Hussein, deixando 21 mortos. E viver nesses países é uma experiência de alto risco, pois de repente pode haver qualquer explosão ou tiroteio que tire a vida de qualquer um que estiver pela frente.

O assunto é grave, não há a menor dúvida. Mas o problema não é que ele seja amplamente reportado por gente realmente interessada no assunto, como o blogueiro Raphael Tsavkko Garcia, de ascendência árabe, mas em pessoas que pegam carona na discussão e não refletem as coisas.

Há gente que realmente analisa a abordagem da velha grande mídia em relação aos assuntos do Oriente Médio e identifica claramente as distorções que o noticiário brasileiro distorce, mas mesmo assim é por conta da própria receita ditada pelas agências internacionais. E sabemos que, se de um lado temos a CNN, a France Press e outras que seguem a visão do "moderno ocidente", temos a Al-Jazeera que procura trazer ao mundo uma visão diferente daquela que "entendemos".

Mas a influência do Oriente Médio em nossas vidas deve ser identificada por dois aspectos: um, pelo interesse daqueles que, vivendo no Brasil, são familiares e amigos de cidadãos árabes. O outro é quanto às implicações que os fatos históricos nos países árabes podem haver nas relações internacionais e na geopolítica mundial.

São nesses dois contextos em que a análise do Oriente Médio é válida em nosso país. O que é muito diferente quando oportunistas que não entendem da realidade dos países árabes entra na euforia e embarca no modismo das "primaveras" sem entender profundamente do assunto e tratando a realidade árabe como se fosse a realidade direta de nosso país.

Aí as coisas se confundem. Cria-se uma ênfase exagerada na análise dos conflitos entre palestinos e judeus, uma histeria de gente que passa a "apoiar" a causa palestina sem saber direito do que se trata. Imagine então como seriam os pretensos "líderes de opinião" da antiga blogosfera, que outrora só eram garotos de recados de sindicatos, prefeituras e autarquias e bajulavam a chamada "mídia boazinha", enchendo seus blogues de assuntos árabes, só para passar uma falsa imagem de "progressistas"?

Dentro desse carnaval todo, surge logo a intelectualidade etnocêntrica querendo ainda mais confundir as coisas. Eles chegam com uma verborragia sedutora, cheia de citações das mais diversas, misturando Patti Smith, Julian Assange e Noam Chomsky com Michel Teló, Calcinha Preta e Gaby Amarantos, ou usando as "vozes do além" (Oswald de Andrade, Gregório de Matos, Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção etc) para "defenderem" as baixarias do entretenimento atual.

OTAN E "O TCHAN"

E aí, com suas argumentações cafajestes, tentam promover o mero entretenimento consumista de nosso país como se fosse um "ativismo social". Foi isso que, aproveitando a onda da "arabização" da opinião pública brasileira, gente como Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos e Hermano Vianna, não bastarem juntar o joio com o trigo, queriam "politizar" a despolitização mais alienante do brega-popularesco.

Vendo os analistas mais medianos distraídos com as discussões sobre Israel e Estado Palestino e sobre as crises e derrubadas de longas ditaduras nos países árabes, o mesmo imperialismo que interfere no Oriente Médio através da OTAN investe nas pregações brasileiras de nossos "queridos" intelectuais, através dos patrocínios de George Soros e dos herdeiros de Henry Ford e Nelson Rockefeller à etnografia de boutique desses antropólogos, historiadores, críticos musicais e cientistas sociais que defendem o brega.

Sabemos que eles tentam manipular o discurso ao seu bel prazer. Têm a seu favor plateias lotadas, muita visibilidade, e a "neutra" capacidade de articular contatos que os façam transmitir os mesmos pontos de vista nas páginas de Veja, O Globo, Estadão e Folha de São Paulo e nas telas da Rede Globo, assim como nas páginas de Caros Amigos e Fórum.

Por isso, chegam a creditar como "ativismo social" o mero consumismo brega-popularesco. Quem é que não se cansou em ouvir falar que, nos eventos "populares" de forró-brega, tecnobrega e "funk carioca", o povo pobre fazia "ativismo social" apenas indo às casas de espetáculos verem seus ídolos? Essa lorota era difundida com argumentos bastante sutis, e muita gente aplaudiu seus pregadores sem perceber a armadilha em que caiu.

E sabemos que isso não é de hoje. Quando havia o fenômeno É O Tchan, dizia-se que as dançarinas eram "feministas" porque "sustentavam elas próprias com seu próprio trabalho". Algo tão simplório e ridículo, uma vez que o "trabalho" delas é bem de acordo com as normas machistas das mulheres-objetos. Mas a lorota pegou e foi reproduzida no "funk carioca", através de MCs "raivosas" tipo Tati Quebra-Barraco ou de calipígias como Valesca Popozuda.

Pedro Alexandre Sanches havia tentado creditar como "primaveras" o mero consumismo brega-popularesco das "décadas explosivas dos anos 00-10". Ou seja, se as "primaveras" do exterior são as rebeliões populares nos países árabes e os movimentos de ocupação na Europa e nos EUA, no Brasil elas "são" o alegre consumismo da cafonice dominante.

Isso é o mesmo que dizer: "Enquanto, no exterior, as pessoas se tornam sábias pelas lutas cotidianas e pela visão crítica do mundo, no Brasil nós nos tornamos sábios sendo idiotas felizes". Está na cara que o consumismo brega-popularesco nada tem de "primaveras", até porque o povo vai de forma submissa aos eventos através do "estímulo" das emissoras de rádio e TV controladas por oligarquias regionais.

O povo é tratado como um gado pelas rádios e TVs. Estas criam uma visão caricata de povo pobre. Através dessa visão, o povo é induzido ao conformismo e ao consumismo. Portanto, não existe ativismo social nessa pretensa "cultura popular" midiática.

Se a velha grande mídia tivesse esse mesmo poder sobre o povo palestino, Tio Sam dormiria tranquilo.

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