sábado, 16 de junho de 2012

O QUE É MESMO O POVO?


Por Alexandre Figueiredo

A velha mídia faz suas manobras. A intelectualidade associada também. Muitas dessas manobras discursivas são tão habilidosas que só mesmo alguém com muita visibilidade para contestá-las.

 Só que chega um momento em que a distorção ideológica entra em contradição, quando a análise mais cautelosa começa a ver equívocos na imagem distorcida do povo pobre trabalhada pela velha mídia e pela intelectualidade associada.

Pois vemos que, no âmbito do entretenimento, o povo pobre é trabalhado de forma bastante caricata. E isso ocorre não somente nos programas da Rede Globo, mas também através das pregações "intelectuais" de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo etc. Eles trabalham uma visão estereotipada de classes populares, aparentemente generosa mas cheia de preconceitos.

Se for pela visão tanto desses intelectuais quanto de Luciano Huck, Fausto Silva e quejandos, veremos que o povo pobre é visto como se fosse uma massa de debiloides ingênuos.O povo só é "bom" quando expressa alegremente o seu "mau gosto", para a vaidade etnocêntrica dos intelectuais festejados.

Para a intelectualidade, funciona o seguinte: se aparece um miserável banguela, com os dentes da frente faltando, primeiro os intelectuais expõem o pobre homem nesta sua limitação séria, sem medir escrúpulos para explorar o lado pitoresco e exótico do caso, para depois, com a classe média admitindo uma "nova beleza" através da feiura banguela, o homem, "aceito" pela opinião pública, ganha um tratamento dentário para reparar seu mal.

Sim, primeiro a intelectualidade trata a ignorância, a miséria, o grotesco, com exotismo, depois a opinião pública é induzida a ver "uma cultura superior" na degradação cultural, através da distorção da imagem do outro. Isso glamouriza a miséria, deturpando a aceitação do outro através de uma contemplação ao mesmo tempo passiva e hipócrita.

Dessa forma, surge então teoria da "projeção" de Sigmund Freud, prática muito comum no Brasil, e cuja análise rende um texto à parte. No caso da intelectualidade festejada, essa "projeção" se dá através da "transferência" de defeitos próprios dessa intelectualidade para os outros.

Dessa forma, eles são preconceituosos, mas acusam os outros de "preconceito". Sendo elitistas, acusam os outros de "elitismo". Sendo etnocêntricos, atribuem o "etnocentrismo" aos outros. Acham que a MPB que eles depreciam está "parada no tempo", quando na verdade é o brega-popularesco que é anacrônico e ultrapassado.

Com isso, eles também não acham que estejam distorcendo a imagem do povo pobre. Tentam desmentir que estejam estereotipando o povo pobre, promovendo uma imagem infantilizada, domesticada e grosseira. Acham eles, na sua "superioridade" da visibilidade fácil, que estão promovendo a "verdadeira abordagem" das classes populares, e acham que eles estão sendo fiéis à interpretação dos desejos e crenças naturais do povo.

No entanto, eles distorcem. E, quando desmentem, fazem pior, porque o povo pobre é bem diferente daquela visão ao mesmo tempo patética e conformista que a mídia brega-popularesca trabalha. Uma evocação da miséria que mais parece divertir os cientistas sociais e críticos culturais que defendem a cafonice dominante no país. E que também alimenta suas vaidades pessoais, às custas de aplausos de plateias enganadas por seu discurso.

A máscara cai quando se vê que os dramas populares não aparecem no tecnobrega, no "funk carioca", no "forró eletrônico", no "sertanejo universitário" e nem no brega de "gente simples" (sic) como José Augusto, Michael Sullivan e Leandro Lehart.

São deslizamentos de terra em dias de temporais, o desemprego, a violência no campo, as ações de despejo (como no caso de Pinheirinho, em São José dos Campos), a criminalidade, o machismo, o racismo, coisas nada divertidas, pois, lamentavelmente, o sofrimento do povo pobre ainda serve para a diversão esnobe de intelectuais que ainda gozam do poderio de formadores de opinião.

Tudo é "brincadeira" para um antropólogo, sociólogo, historiador ou crítico musical que, exaltando a breguice nacional, aprova as baixarias que deixam o povo pobre em situações ridículas. "Nós é que achamos ridículas, mas o povo vê nisso a sua felicidade", diz, arrogantemente, o intelectual badalado, sob aplausos entusiasmados de suas plateias desavisadas.

Para tal intelectualidade, o povo pobre "sabe contornar seus sofrimentos" e "sente alegria na dor". Uma visão perversamente romântica, docilmente elitista que, autoproclamada "sem preconceitos", é bastante preconceituosa.

Por isso, precisamos ver com muito cuidado o que realmente é o povo brasileiro. O povo pobre e, agora, a chamada classe C, estão em processo de domesticação pela velha grande mídia. As classes populares viram caricatura cujos estereótipos, apegados à noção de "mau gosto" que tanto alimenta vaidades intelectualoides, são trabalhados pela indústria do entretenimento.

Infelizmente, essa caricatura vira o padrão oficial de "vontade popular". As classes populares, assim, são jogadas à própria sorte na exploração do grotesco, do pitoresco e do piegas. Cria-se uma distorção esquizofrênica da cultura popular, que glamouriza a pobreza e oculta os problemas sociais.

E, nesse processo infeliz, os agricultores mortos, as vítimas fatais de deslizamentos, as vítimas da violência e da fome acabam enriquecendo toda essa indústria brega-popularesca que garante o poderio midiático de todas as formas, nem que seja apenas por um canal no YouTube.

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