quinta-feira, 21 de junho de 2012

O PROBLEMA MAIOR NÃO É O MALUF. É A BURRICE


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Ainda vai falar a aliança de Paulo Maluf na chapa petista para a prefeitura de São Paulo. E certamente não trará benefícios para o candidato Fernando Haddad, que muito provavelmente perderá uma boa chance de derrubar o tucanato no maior reduto eleitoral do PSDB.

E isso envolve também questões de memória histórica do PT, traída pela aliança espúria e constrangedora.

O problema maior não é Maluf. É a burrice.

Por Camila Pavanelli - Blogue Recordar, Repetir e Elaborar

Aviso: este será um post ruim, bem ruim (deve-se, inclusive, pronunciar rúem e não ruín) – e nem poderia deixar de ser, dado o nível da disputa pela prefeitura da cidade de São Paulo.

Historinha verídica:

Era uma vez Ana, aluna de um curso de História da Arte. Como todos os cursos, esse um dia tinha que terminar. Mas, antes, Ana tinha que fazer uma prova. Chega o dia da prova final e Ana está insegura. Começa a responder – uma, duas, três questões. A quarta é sobre a influência da Psicanálise nas artes plásticas do século XX. Ana se desespera. Psicanálise, hã? Desesperada, ela – o que mais – gugla em seu telefone esperto: psicanálise + arte. Ufa. Na primeira página de resultados, ela encontra: “A partir de Freud, muitas considerações foram propostas entre psicanálise e arte e em inúmeras vezes a expressão artística, ou mesmo a biografia do próprio artista foram deitados no divã e tomados como objeto a ser interpretado.” Graças a Deus. Começa a escrever: “A partir de Freud, muit…” e, bem, vocês já leram o que ela escreveu. Uma questão a menos. Ana segue em frente. Termina e entrega a prova, confiante.

Como todos os cursos, chega o dia em que a professora lê as provas dos alunos. A de Ana está boa, indo bem. Mas vem a quarta questão e com ela a sensação estar na presença de algo estranhamente familiar… Incomodada, a professora gugla. Vocês já sabem o que ela encontrou, na primeira página de resultados do google.

Ana tira zero na prova e é reprovada do curso.

Pergunta: ela foi reprovada porque agiu em desacordo com as regras instituídas?

Sem dúvida. Mas eu diria que o motivo fundamental, o motivo maior de sua reprovação foi: ela não teve a perspicácia, o bom-senso, a tranquilidade e a nossãum de parafrasear o que encontrara, em vez de pagar de Pierre Menard.

Não saber nada sobre arte e psicanálise é o de menos. Até aí, ninguém sabe.

Colar na prova também é o de menos. Até aí, todo mundo cola.

O problema é quando você entrega uma prova sem nem ao menos se dar o trabalho de fingir que a) você efetivamente sabe algo sobre arte e psicanálise; b) você não colou.

***

Corta para Maluf.

O PT não deveria se aliar com Maluf porque Maluf é o demo, é o mal, é a ditadura encarnada e reencarnada?

É, também. Mas isso é o de menos.

Já que a realidade não está fazendo nenhum sentido mesmo, vamos pensar juntos em situações hipotéticas e imaginárias que façam menos sentido ainda, só pra zoar de vez.

Vamos imaginar que, numa realidade paralela ainda mais bizarra do que a nossa, fazer uma aliança com Maluf significasse a possibilidade concreta de parar Belo Monte.

Perdoem-me os idealistas de plantão. Véi, na boa: eu me aliava.

E é bem esse o argumento que petista vai usar agora: Maluf é a possibilidade concreta de parar Serra. Chalita. O Lobo Mau.

Menos, campeão, menos. Maluf representa apenas um ganho concreto: noventa e cinco segundos na TV.

(Caras, na boa. Se a gente soubesse que esse tempo era tão importante assim, era fácil resolver: reunia os meio-intelectuais-meio-de-esquerda nas janelas de nossos respectivos apartamentos e, no meio da propaganda do Serra, a gente combinava e saía todo mundo gritando junto ao mesmo tempo: HaddadHaddadHaddadHaddad, por noventa e cinco segundos, de modo que ninguém conseguisse ouvir a propaganda do ˜inimigo˜.)

A verdade é que, nesses cálculos de custo x benefício que sempre pautam a política mais do que gostaríamos, certos atos – certas alianças e certas figuras – têm um custo tão alto que simplesmente não há benefício nenhum que os compense.

“Ah, mas você falou em Belo Monte lá atrás.” Pois sim: falei em Belo Monte justamente porque foi preciso imaginar um cenário absurdo e fantasioso para que a aliança com Maluf pudesse ser pensada como viável e proveitosa. Porque, no terreno das possibilidades reais, não há nada, rigorosamente nada – nem mesmo ganhar a eleição, qualquer eleição – que possa compensar os óbvios custos de uma aliança com o político sobre cuja cova o PT paulista se ergueu.

Então temos dois problemas aí. O primeiro é se aliar com Maluf – que já seria coisa grave o suficiente se se tratasse de, em troca, obter os benefícios de parar Belo Monte, impedir a quarta guerra mundial, acabar com a fome das criancinhas no mundo etc.

O segundo, e a meu ver muito mais grave, é a burrice de achar que a aliança com Maluf traz algum benefício ao PT.

Ana foi reprovada no curso por causa de uma questãozinha que ela guglou e não disfarçou, sendo que poderia ter chutado, deixado em branco ou mesmo colado e parafraseado a resposta. O PT certamente perderá boa parte de sua militância não-fanática por conta de noventa e cinco segundos de um programa de TV que ninguém vê – para não falar da perda de uma coisinha chamada memória, a memória de sua própria história. Mas estas – a memória, sua bela história – o PT já perdeu faz tempo.

PS: Havíamos combinado de escrever posts ruins sobre a aliança, eu e ela, numa blogagem-coletiva-de-pobre. Ela, é claro, não cumpriu com o acordo e escreveu um post magnífico, explicando o mundo pra gente.

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