quinta-feira, 28 de junho de 2012

O LATIFÚNDIO SEMPRE APOIOU O BREGA


Por Alexandre Figueiredo

Um dos fatores mais sombrios por trás da chamada "cultura" brega, e que a intelectualidade dominante tem muito medo de admitir, é que, desde os seus primórdios, a cafonice cultural brasileira sempre contou com o apoio dos proprietários de terra.

Desde os primeiros ídolos cafonas, como Waldick Soriano e Orlando Dias (pseudônimo de José Adauto Michiles), o coronelismo brasileiro, através de sua influência econômica em casas de espetáculos, botequins e emissoras de rádio, entre outros veículos e espaços, se dispôs a respaldar a divulgação dessa "cultura" estereotipada que pouco tem de brasileira e pouco tem de relevância social para o folclore brasileiro.

Se percebermos as relações entre economia e cultura, que sempre exerciam uma simbiose dentro do brega-popularesco - mesmo seus defensores deixam vazar a informação que o "valor" de seus ídolos está nas plateias lotadas, na alta presença nas rádios e TVs e nas altas vendas de discos - , não é difícil ver a influência latifundiária até mesmo nas áreas urbanas.

Primeiro, pela relação que tem das grandes fazendas na distribuição de produtos no comércio das capitais, inclusive São Paulo. Ou pela capitalização no comércio informal que se confunde estruturalmente com as feiras livres, mas vendem até produtos piratas e contrabandeados. Ou então pela influência que possuem nas emissoras de rádio "populares", que até pelo seu equipamento muito caro precisa do financiamento de grandes fazendeiros.

Portanto, parece uma realidade pouco agradável a quem está acostumado com o sentimentalismo publicitário dos ídolos bregas, sempre promovidos como "coitadinhos", mesmo quando conseguem o tão sonhado sucesso comercial e ficam ricos e famosos com isso.

MANOBRA IDEOLÓGICA

Como a cultura é um instrumento de emancipação social em potencial, os proprietários de terras, preocupados com a ascensão dos movimentos dos trabalhadores rurais, decidiu patrocinar cantores que, de forma retardatária, soassem como arremedos dos cantores seresteiros, evidentemente sem a força artística dos originais.

Dava para perceber a diferença artística gritante entre o que as classes populares produziam de música e o que os ídolos cafonas faziam. O primeiro aspecto disso se dá pela influência estrangeira arbitrariamente imposta pela mídia dominante, que introduz elementos estrangeiros não para enriquecer uma cultura local, somando-se a ela, mas para enfraquecê-la, subtraindo-a quase toda.

O segundo aspecto se diz ao conteúdo artístico e ideológico. Melodicamente, são músicas mais fracas, numa avaliação não somente estética, mas comunicativa. Ideologicamente, seus cantores são conservadores e suas letras, mesmo quando reclamam de alguma coisa, sempre mostram algum teor resignado, decisivo para induzir nos ouvintes uma melancolia que culmina no mais mórbido conformismo social.

Desse modo, em vez de protestarem pela reforma agrária, vão para o bar se embriagarem ao som dessas canções preguiçosas, que nada têm da imagem "revolucionária" que um poderoso lobby de intelectuais trabalha com insistência na mídia e nos meios acadêmicos.

TURISMO E INTELECTUALIDADE

O brega permaneceu "anti-brasileiro" até o final dos anos 60. Interesses que variavam do desenvolvimento econômico subordinado do chamado "milagre brasileiro" até a competitividade regional do turismo, quando, já nos anos 70, Belém e Salvador ingressavam na disputa pelos turistas estrangeiros.

Dessa forma, o estrangeirismo sempre latente no brega se desdobrou em brasilidades falsas e tendenciosas do "sambão-joia", das lambadas, e, mais tarde, da axé-music. A reboque disso tudo, o coronelismo brasileiro ainda investia na conversão da música caipira numa linha de montagem "tex-mex" que enfraqueceu as duplas caipiras originais e fez a fortuna de duplas e cantores que já se lançavam ao sucesso nos anos 80, como Chitãozinho & Xororó, Gian e Giovani, Christian & Ralf (com Christian tendo integrado o "movimento" brega-exportação junto com Michael Sullivan, Morris Albert e Terry Winter) e, um pouco mais tarde, Leandro e Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano.

Como meio de manter as aparências, o mercado brega-popularesco, desde os anos 70, apostava numa suposta "diversidade cultural", às custas de "monoculturas" impostas como modismos em diferentes regiões do país.

Criando um mercado de entretenimento que revelou um jovem empresariado de perfil parecido com os capatazes de fazendeiros, mas com roupas mais modernas como camisetas com palavras em inglês e tênis, o brega-popularesco, além de alimentar o mercado turístico e estabelecer alianças com oligarquias políticas e midiáticas regionais, recentemente passou a usar um novo lobby para tornar seu mercado ainda mais totalitário.

Desse modo, os empresários do entretenimento brega se beneficiaram quando Fernando Henrique Cardoso tornava-se conhecido pelas ideias neoliberais difundidas por sua Teoria da Dependência. Juntando a fome com a vontade de comer, o empresariado da "cultura" brega viu nisso uma ótima mina de ouro, pois usando a intelectualidade para desfazer, aos poucos, a influência do antigo ISEB e dos CPCs da UNE, cortava-se pela raiz qualquer chance de repensar os rumos da verdadeira cultura brasileira.

Assim, a associação de oligarquias políticas, midiáticas e econômicas com o meio acadêmico - que passava a ser patrocinado até por corporações estrangeiras - fez criar, nos gabinetes, colegiados e salas de aula, a partir da Universidade de São Paulo, um "padrão USP" de pensar a cultura popular, com a sutil penetração dos conceitos de "cultura de massa" que passaram a prevalecer nos últimos anos.

Eram os mesmos conceitos de "cultura de massa" duramente contestados e combatidos por intelectuais da Europa e dos EUA, incluindo gente como Noam Chomsky e Umberto Eco, mas em especial nomes como Guy Debord e Jean Baudrillard. Era uma linhagem crítica originária da "Escola de Frankfurt", movimento de pensadores da Comunicação que veio a ser mundialmente conhecido a partir do exílio deles nos EUA.

Como não havia mercado para a "cultura de massa" que fosse levado a sério no Primeiro Mundo, o Brasil tornou-se terreno fértil para suas pregações apologéticas. E nada como o "padrão USP" que, no final dos anos 80, passou a valer em quase todas as universidades do país, públicas e privadas, para difundir esses princípios que permitiram a prevalência do brega-popularesco como uma "cultura séria".

TUDO POR DINHEIRO

E aí, paralelo às pregações neoliberais da USP, veio o Projeto Folha para impor o paradigma neoliberal de jornalismo. Desses dois contextos, surgiu o maior ideólogo do brega-popularesco do momento, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, discípulo de Fernando Henrique Cardoso na USP e do "patrão-colega" Otávio Frias Filho na Folha de São Paulo.

Mas a intelectualidade interessada de todo o país passou a defender o brega-popularesco, visando abocanhar verbas de pesquisa e bônus para viajar pelo país e pelo resto do mundo. Isso valeu tanto para um Paulo César Araújo na UFF como para um Milton Moura e Roberto Albergaria na UFBA, ou para um Hermano Vianna na UFRJ.

Todos eles passaram a defender a "cultura de massa", identificada no Brasil pelo brega-popularesco, como se fosse uma "cultura séria". Sob o intuito de desqualificar os verdadeiros movimentos sociais, esse lobby de intelectuais, mesmo claramente identificado com os interesses de grupos midiáticos como Globo e Folha, tentava vender o brega-popularesco como se fosse um "ativismo social das classes populares".

Muita mentira, muitas inverdades foram veiculadas nesse sentido. E isso tão somente para fortalecer o mercado e o empresariado. Isso não fortaleceu a cultura popular de verdade. E fez com que o latifúndio se fortalecesse na condição de "mecenas" do país. E, além disso, permitiu que os latifundiários financiassem até mesmo o ingresso de Michel Teló nas paradas de sucesso internacionais.

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