quarta-feira, 6 de junho de 2012

O DÓCIL PRECONCEITO CONTRA O POVO POBRE


Por Alexandre Figueiredo

A imagem construída, pela mídia e pela indústria do entretenimento, das classes populares, apela para um estereótipo caricato que a opinião pública deixa passar por causa da retórica aparentemente positiva e inofensiva que é trabalhada.

Mas sabe-se que o povo pobre é transformado pela mídia do entretenimento em sua própria caricatura, principalmente com o apoio propagandístico de críticos musicais, cineastas e cientistas sociais envolvidos, até mesmo às custas de documentários, monografias e resenhas.

Há um grande contraste entre o povo pobre que ainda sofre suas misérias e limitações sociais e a "periferia alegre" que se vê nos espetáculos midiáticos do tecnobrega, "sertanejo pegação" e do "funk carioca", além de outras tendências do brega-popularesco.

Mas é estarrecedor que pouca gente se dê conta desse contraste, quando se nota que o mesmo poderio político, econômico e midiático que promove a perseguição e até o extermínio contra trabalhadores rurais é o que patrocina o "feliz" espetáculo brega-popularesco.

Sim, porque o povo, tido como sujeito e autor dos espetáculos de entreteninento bregas, neo-bregas e pós-bregas, num pretenso apelo popular, na verdade não é mais do que marionete da indústria do entretenimento, que tenta pregar, sob o claro apoio de intelectuais influentes, que o "melhor" do povo pobre está justamente naquilo que ele tem de pior, a sua falta de educação, de senso crítico, de senso estético ou mesmo de qualidade de vida.

E, como verdadeiros porta-vozes da colonização cultural midiática, encharcada de manobras de interesse das oligarquias rurais, das corporações midiáticas e até das multinacionais, os intelectuais se comportam como antigos jesuítas modernos, querendo dar espelhos e apitos para as populações indígenas.

E, tidos como "sem preconceitos" com muita vaidade e de peito estufado, esses intelectuais, no entanto, são dotados dos mais terríveis preconceitos, os mais cruéis em relação ao povo pobre. E são preconceitos sutilmente expressos para soar aos incautos como se fossem visões generosas da cultura popular.

O povo pobre é visto, pela intelectualidade etnocêntrica, como se fossem um bando de "bons selvagens". A imagem que intelectuais "tarimbados", a partir de figuras como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, trabalham da população pobre é de um povo estereotipado, caricato, ao mesmo tempo grosseiro e tolo, oscilando entre o pornográfico e o piegas, dotado de qualidades ruins que "só são ruins" para a gente, mas que são atribuídas como "felicidade do povo".

Será que o povo pobre é feliz com essa personalidade debiloide trabalhada pela mídia do entretenimento? Será que o povo pobre terá um caminho próprio sendo marionete de rádios e TVs? Será que o povo pobre fará uma cultura de verdade sendo privado de seu patrimônio cultural, agora apropriado pelas ricas elites "esclarecidas", nas quais se insere a intelectualidade etnocêntrica?

Evidentemente, não. Todo esse entretenimento "popular" blindado pelo proselitismo de "paçocas", "farofa-fás" e outros engodos intelectualoides na verdade só interessa aos empresários do entretenimento, barões da grande mídia, políticos, latifundiários e outros poderosos que estão por trás dessa "verdadeira (sic) cultura popular".

Há muita grana por trás desse verdadeiro processo de domesticação das classes populares. E não dá para fazer vista grossa desse processo, sob pena de fazer ruir nosso rico patrimônio cultural através de expressões duvidosas que nada contribuem para nosso progresso social e só servem para o consumismo rasteiro e efêmero.

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