sexta-feira, 29 de junho de 2012

O CENSO 2010 E SUAS LIMITAÇÕES


Por Alexandre Figueiredo

Mais uma vez, o Censo diz que "aumentou" a proporção de mulheres para cada homem no Brasil. Em relação a 1980, quando parecia haver 99,8 homens para cada grupo de 100 mulheres, a situação "melhorou" fabulosamente 30 anos depois, com 96 homens para cada grupo de 100 mulheres.

Como se as milhares de mulheres mortas pela violência conjugal, pelos latrocínios, pelos péssimos atendimentos à saúde, pelos acidentes de trânsito, pelas chacinas, pelos temporais e trovoadas, pelas "queimas de arquivo", fossem ocultadas pela informação "feliz" de que "mulher, no Brasil, existe que nem capim".

Em tese, Mércia Nakashima e Eliza Samúdio estão vivas e leves e soltas, pelos dados de 2010, levantados há algum tempo. Isabella Nardoni segue tranquila nas suas tarefas de escola e a juíza Patrícia Acioli segue naturalmente com seu trabalho. Em compensação, o Censo 2010 aponta sérias limitações e critérios em seu trabalho que põem em xeque a ilusão de que "tem mulher para todo mundo no Brasil".

A hipótese, além de, por incrível que possa parecer, favorecer mais o machismo do que o feminismo, é afirmada e confirmada dentro das limitações de alcance dos recenseadores e dos critérios viciados que o IBGE adota nos últimos 40 anos.

LOCAIS DIFÍCEIS E PERIGOSOS

No primeiro caso, o Censo dificilmente consulta locais de difícil acesso, seja pelo aspecto geográfico, seja pelo sentido sociológico ou de segurança pública. Estima-se que cerca de 100 mil brasileiros do sexo masculino sejam ignorados em todo recenseamento. São pessoas situadas nos dois extremos da pirâmide social, que por diversos motivos não são sequer citados em consultas censitárias, quanto mais entrevistados.

São homens de negócio que vivem sempre viajando, e não há como creditar aviões de passageiros como extensões do território brasileiro. Mas isso é uma parte menor da pirâmide social. Do outro extremo, se vê desde pessoas que vivem em locais dificilmente acessíveis no interior do país ou nas favelas, como pessoas consideradas "socialmente desagradáveis", como mendigos e marginais, muitos deles de difícil acesso para entrevistas, por razões óbvias.

Além disso, a população masculina, que continua tendo o peso maior nas migrações, acaba sofrendo uma distorção geográfica por causa do êxodo rural. A distorção consiste nesses homens viverem nas capitais, mas ainda serem creditados como moradores das cidades de origem no interior do país.

Salvador é o sintomático caso. A cidade possui maioria de homens na sua população, fato claramente visto no cotidiano, sobretudo nos bairros populares, mas oficialmente os dados do Censo declaram o contrário, ou seja, maioria feminina. Isso porque a cidade, não bastasse os mendigos e marginais, além dos favelados localizados em lugares de difícil acesso, ainda mantém uma demanda de homens que vive "clandestinamente" de acordo com os padrões censitários.

São homens que chegam das cidades do interior - uns transportados por ônibus da Secretaria da Saúde, a pretexto de só passarem uns dias em tratamento ou consulta médicos - e que, vivendo na pobreza e no desemprego, não são considerados "moradores" de Salvador, mas ainda vinculados a suas cidades de origem, que são "esvaziadas" pelo poder político tanto pela opressão coronelista quanto pelo "higienismo" de políticos regionais indispostos a arcar com a dívida pública.

VALE O QUE SE DIZ

Outro aspecto do Censo é o critério viciado adotado em suas pesquisas. Vale o que diz. Se, por exemplo, uma dona-de-casa que brigou com seu marido na véspera da visita de um recenseador disser a este que ela não tem marido, por uma simples questão de desabafo, então o marido não existe. É "menos um homem" nos dados censitários.

Há, nas boates e no eventos noturnos em geral, uma "maneira de dizer" das jovens moças, quando afirmam que "não existe homem" nesses locais. Assediadas com frequência por pretendentes masculinos, o que essas moças querem dizer, na verdade, é que não há homens atraentes para o gosto delas, que os demais homens, por serem "feios e desajeitados", simplesmente "não são homens". É como alguém que diz "não bebo" quando, na verdade, apenas diz que não bebe bebidas alcoólicas, mas bebe água, café, sucos e outros líquidos.

PAÍS DAS MARAVILHAS

Numa época em que as mulheres viviam de forma mais restrita que hoje, o ano de 1960, o Censo de então apontava uma maioria masculina na população brasileira, num quadro social menos complexo que o de hoje. Estimava-se, na época, cerca de 102 homens para cada grupo de 100 mulheres.

Seria natural que, com a vulnerabilidade feminina no confuso quadro social em que vivemos significasse uma redução drástica do número de mulheres, e não seu aumento. Não se quer, com isso, que se deseje que as mulheres vivam trancadas nos seus lares, mas elas de uma forma ou de outra se tornaram mais vulneráveis a tragédias do que em 1960.

Além disso, não parece que mais homens morreram de uma forma mais intensa do que antes, mas dentro de uma proporção que não difere muito da de cinquenta anos atrás. Em compensação, a alta mortalidade feminina pelos assassinatos conjugais, latrocínios, acidentes de trânsito, doenças e outros infortúnios mostra o quanto é necessário, em vez de ocultar os cadáveres femininos pela fantasia censitária, adotar medidas para evitar que mais mulheres morram em acidentes de trânsito, violências ou pelo descaso dos hospitais.

A informação de que o Brasil "tem mais mulheres" não protege a mobilização feminista. Antes ela atenua a culpa dos machistas e marginais que dizimam muitas mulheres, inclusive jovens. Esse mito, anunciado aos quatro ventos, apenas revela um "país das maravilhas", um Brasil de fantasia feito para o turismo sexual que, embora seja oficialmente combatido por lei, é informalmente defendido e mantido pelos bastidores do mercado hoteleiro e estimulados pelo entretenimento da velha grande mídia.

Enquanto isso, cerca de 100 mil homens vivem no Brasil, na sua maioria, praticamente sem direitos reais de cidadania. E, o que é pior, nem mesmo para contar número nos Censos do IBGE eles servem. É uma dívida social que as autoridades empurram com a barriga, escondendo a miséria por debaixo do tapete.

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