sábado, 9 de junho de 2012

A NECROFAGIA A SERVIÇO DO "DEUS MERCADO"


Por Alexandre Figueiredo

Triste intelectualidade que se apropria da memória dos falecidos para distorcer suas ideias e desvirtuar até mesmo o contexto de seus pensamentos.

Só mesmo a memória curta das gerações mais recentes e a pouca informação das mesmas para aplaudir cientistas sociais e críticos musicais que, com uma retórica engenhosa mas confusa e cheia de contradições, tentam convencer as plateias de suas visões nem sempre confiáveis sobre a cultura popular.

E essa argumentação, como vimos, chega ao ponto de usurpar a memória dos falecidos, distorcendo suas posições e seu pensamento, ao sabor da defesa tendenciosa das tendências comerciais da mediocridade cultural reinante. É a necrofagia, recurso que os intelectuais etnocêntricos fazem para defender a mediocridade brega-popularesca evocando personagens e fatos históricos.

Oswald de Andrade e Gregório de Matos são as maiores vítimas. Mas há também Raul Seixas usado para assinar embaixo em tudo o que o roqueiro baiano, em vida, nunca iria defender. No âmbito da política, é Juscelino Kubitschek usado até a exaustão para justificar qualquer fisiologismo político e ideológico. E até Leila Diniz foi usada para "defender" as "mulheres-frutas" e as dançarinas do É O Tchan.

Só que qualquer um pode ser usado para a defesa póstuma de ideias alienígenas. A retórica liberal-tropicalista da intelectualidade mais influente, a partir dos métodos "seguros" de Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna e Ronaldo Lemos, que detém o monopólio quase total da visibilidade, dos aplausos animados e dos microfones abertos, dá o tom dessa apropriação.

Eles criam uma retórica que o também jornalista Ricardo Alexandre havia definido como "ideias de direita com um discurso de esquerda". Esses intelectuais falam em "morte do mercado", "fim da grande mídia", enquanto tentam definir o mesmo consumismo subordinado das classes populares manipuladas pela mídia como "ativismo social", "revolução tecnológica", "rebelião cultural" ou outras coisas parecidas.

O mais grave é que esses intelectuais, de tão endeusados, se acham "deuses", e, se julgando acima dos vivos e dos mortos, usam a memória dos falecidos a seu bel prazer. Tudo dentro de uma tradição retórica onde a confusão e a mescla caótica de conceitos e preconceitos, teses e antíteses, é herança dos piores momentos do Tropicalismo da fase "máfia do dendê".

O maior medo é ver Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção "justificando" verdadeiras aberrações musicais. Para o público incauto - cujo critério de "pouca idade" é elogiado por Pedro Alexandre Sanches por "não ter os preconceitos (sic) dos mais velhos", o que, em outras palavras, significa que é mais manipulável às ideias por ele difundidas - , basta levar pau da crítica especializada para virar "gênio".

Mas uma coisa é ser uma pessoa bastante inteligente e inconformada com os rumos da vida, como os ídolos "malditos" que Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio sempre foram. Outra coisa são os ídolos cafonas que sempre se comportaram feito carneirinhos dóceis às regras do mercado, mas que pela natural mediocridade não podem fazer sucesso comercial a vida toda.

Aliás, é justamente logo quando seus sucessos começam a cansar e os ídolos brega-popularescos não conseguem lotar plateias como antes, que eles passam a sonhar com a expansão de mercado e aí reclamam de não frequentarem os mesmos espaços da nata da MPB autêntica. Aí fazem choradeira e a intelectualidade associada assina embaixo, lançando mão das "urubologias" de cunho cultural.

E como essa intelectualidade gosta de impor as coisas, a gente do além-túmulo tem que estar preparada para, de repente, suas ideias serem usurpadas e distorcidas pela intelectualidade "tarimbada" que quer defender certos modismos e tendências de mercado como se fossem "causas nobres". Os falecidos não estão mais aí para reclamar.

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