domingo, 10 de junho de 2012

A MÚSICA BRASILEIRA COMO RELES MERCADORIA


Por Alexandre Figueiredo

Um dos fatos preocupantes da música brasileira hoje, como um todo, é o avanço de todo o mercantilismo de seu processo, a redução da música e dos valores culturais a meras mercadorias, processo defendido até mesmo pela intelectualidade, tal como já sabemos por aqui.

O mais grave, disso tudo, é que não há crise midiática nem da indústria fonográfica que impeça o avanço dessa mercantilização feroz e voraz, como não há como ver sentido em alegações falsas de que a "cultura de massa" de hoje reflete os desejos naturais e as emoções das classes populares.

Tudo ficou mercantilizado. E, para um país onde as gerações mais recentes de consumidores da mídia e do entretenimento só conhecem a noção de "verdade" pelos recursos mentirosos do marketing, a noção de mercadoria se torna totalitária na medida em que intelectuais etnocêntricos tentam negar seu sentido.

Eles, nos seus malabarismos discursivos, reafirmam a sobrevida do "deus mercado" justamente quando, no discurso, anunciam sua morte. Herdeiros da verborragia tendenciosa de Caetano Veloso, eles, tal como o cantor baiano, têm uma forma habilidosa de querer dizer "sim" quando parecem dizer "não". Pedro Alexandre Sanches é bem caetânico, neste sentido.

Até a MPB autêntica começa a perder seu vigor, começa a se cansar na batalha midiática. O superinformado Zeca Baleiro agora se vende para a mídia por R$ 1,99. Nando Reis fez seu CD de brega pensando nas verbas do MinC - que também injetaram uma boa "gaita" nos bolsos do inexpressivo Tchakabum, que lançou a dançarina Gracianne Barbosa, mulher do cantor neo-brega Belo - e nas futuras escalações em agrofestivais do interior do país.

Tudo agora é assim, infelizmente. Surge-se a MPB "feijão com arroz", de Maria Gadu, Jorge Vercilo e Ana Carolina, que apenas revisita elementos musicais já conhecidos através de Nana Caymmi, Djavan e Ângela Ro Ro. Eles fazem música de alguma qualidade, mas já não consistem mais na geração criativa como aquela que conhecemos nos anos 70.

A geração anos 90, como Marisa Monte, Chico César, Lenine e Zeca Baleiro até evocavam, de alguma forma, os artistas de MPB do passado, em claras semelhanças comparativas. Mas eles ainda eram dotados de informações culturais próprias.

Por razões óbvias, Maria Rita Mariano se assemelha claramente com a mãe, Elis Regina, não só pela influência óbvia mas pelo fato de seu círculo social ser o mesmo, pois inclui o pai, César Camargo Mariano, e cantores como Milton Nascimento e Jair Rodrigues, além dos amigos de Maria Rita serem também descendentes da geração 60, como Wilson Simoninha e Jairzinho Oliveira.

Mas Maria Rita consegue assimilar bem o espírito sessentista da mãe e adaptá-la aos tempos atuais. Talvez a exposição de Maria Rita Mariano como celebridade não consiga mostrar bem o grande talento que a cantora possui, mas pelo menos tem o atenuante de fazê-la ficar um pouco mais conhecida do grande público.

HIT-PARADE NO LUGAR DA CULTURA MUSICAL BRASILEIRA

Só que isso não impede que o poder mercadológico se torne mais voraz. Mesmo a MPB autêntica parece se adaptar às leis de mercado, que quer matar a cultura brasileira e pôr no lugar a simples dicotomia entre a música de qualidade e a música de maior apelo comercial, como vimos, nos EUA, entre o pop adulto e o pop convencional, numa relação que, no Brasil, já se estabelece entre a MPB e o brega-popularesco.

Aí vemos os malabarismos retóricos da intelectualidade etnocêntrica - incluindo Pedro Alexandre Sanches que, mesmo nas páginas de Caros Amigos e Fórum, parece escrever para os leitores da Folha de São Paulo e O Globo - querendo nos convencer de que as rádios FM e a TV aberta refletem a "vontade do povo".

Por enquanto, muitos julgam "progressistas" essas pregações. Mas é a mesma lorota da "democracia" que os urubólogos de plantão fazem na velha grande imprensa, com claro nível de equivalência. Se Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede e Merval Pereira falam da "democracia de livre mercado", Pedro Alexandre Sanches fala da "diversidade cultural das novas mídias". Qual a diferença desse sentido? Nenhuma.

O que a intelectualidade etnocêntrica, supostamente progressista mas claramente conservadora, quer é a transformação da música brasileira em reles mercadoria. Eles criam manobras discursivas querendo dar a impressão contrária, e falam até, com uma evidente demagogia verbal, que só querem ver o mundo explodir através do botão de um mouse.

Criam um discurso "revolucionário" que já vimos nos primeiros gurus da globalização neoliberal, há 20 anos atrás. E que renderam muitos aplausos desavisados e fizeram pessoas sem um hábito constante e decente de leitura transformar os livros de lorotas administrativas em campeões de venda do mundo inteiro.

Essa intelectualidade tenta desmentir o máximo a obsessão pelo mercantilismo musical, exaltando os chamados "grupos com donos" da axé-music, do forró-brega, do tecnobrega e do "funk carioca" como se fossem o "grito de revolta da periferia", só faltando a tola comparação de rotular o cantor Michel Teló como o "Julian Assange brasileiro".

No entanto, passados os aplausos de focas de seus fãs subordinados, ou daqueles que leem Caros Amigos e Fórum às pressas e, por isso, não notam o gritante contraste, ideológico, metodológico ou, simplesmente, lógico, entre um Emir Sader e um Pedro Alexandre Sanches, a intelectualidade etnocêntrica, ao conseguir que se prevaleça a visão mercantilista da música brasileira, com bregas cada vez mais pretensiosos e a MPB autêntica cada vez mais obediente, "lavam suas mãos" diante do estrago feito.

Afinal, a essas alturas, esses intelectuais, ricos às custas da visibilidade alta,  já compraram seus apartamentos na área nobre de Nova York, para passarem suas temporadas longe do "desprezível povo brasileiro" que eles fingiram defender solidariamente.

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