quinta-feira, 14 de junho de 2012

LADY GAGA É "PERFORMÁTICA". E DAÍ?


Por Alexandre Figueiredo

O lobby de intelectuais, músicos, cineastas e jornalistas que querem que o brega-popularesco seja visto como uma "cultura de grande valor", sabemos, lançou mão de muitos argumentos duvidosos, confusos e contraditórios, mas mesmo assim sedutores e persuasivos.

Aparentemente, essa "frente ampla" comandada por intelectuais etnocêntricos que dominam os processos acadêmicos e detém o poder da visibilidade, quer que a cultura brasileira se limite a duas forças a coexistir no mainstream do entretenimento.

Uma delas é o brega-popularesco, promovido a "verdadeira cultura popular" às custas de muita choradeira intelectual que acusava a rejeição a esses ídolos como expressão de "preconceito" e "horror elitista".

Outra é a parcela da MPB autêntica que não oferece ameaça ao mercado. Envolve desde artistas autênticos e veteranos até uma geração mais recente que apenas expressa uma colagem de informações difusas. Embora talentosos e bem informados, são artistas que se enquadram na chamada "MPB obediente", que não se preocupa em reagir aos ditames do mercado, mesmo agindo independente dele.

Para uma intelectualidade que anda espalhando que a história da cultura brasileira nasceu em 1967, essa dicotomia é a fórmula garantida para o que eles entendem de "música transbrasileira pós-moderna". O marco dessa intelectualidade é o III Festival de Música Popular Brasileira, realizado em outubro de 1967 em São Paulo e não mais transmitido pela "subversiva" TV Excelsior, mas pela moderada TV Record.

Foi a partir desse festival que se consolidou a chamada "cultura de massa" através do deslumbramento dos dois principais artistas do Tropicalismo, Caetano Veloso e Gilberto Gil. A música "Alegria, Alegria", de Caetano, que narra o vislumbramento de uma banca de jornais durante um passeio pelas ruas, é um hino inaugural dessa fase.

Para os conceitos fukuyamianos de Pedro Alexandre Sanches, com seu "fim da História da MPB", o III Festival foi para ele o que a queda do Muro de Berlim foi para Francis Fukuyama. 1967 também foi o ano em que tanto Caetano Veloso quanto Fernando Henrique Cardoso - que lançava a chamada Teoria da Dependência no livro Dependência e Desenvolvimento na América Latina, escrito em parceria com o hoje falecido sociólogo chileno Enzo Faletto - tornaram-se paradigmas, hoje nem sempre assumidos, de um tipo de pensamento dominante na intelectualidade brasileira.

Para esta, a MPB nasceu em 1967. Tudo o que veio antes era Antiguidade (no caso da cultura brasileira difundida a partir do surgimento da indústria fonográfica e do rádio) ou pré-história (no caso das manifestações hoje consideradas folclóricas). O que essa intelectualidade defende hoje como "caminho seguro para a cultura popular" é a sua mercantilização, e de forma camuflada esses intelectuais defendem a transformação na cultura brasileira num hit-parade a alimentar o mercado e a mídia.

Usam discursos "progressistas", mas o que defendem está em sintonia com o conservadorismo ideológico presente nas ideias de FHC e Caetano. Mas estes também nunca assumiram exatamente esse conservadorismo ideológico, como Pedro Alexandre Sanches - que, em muitos momentos, parece escrever como se fosse um adido cultural do PSDB - também não.

Pelo contrário, Cardoso e Sanches são famosos por vender uma imagem pseudo-esquerdista para seu público, o primeiro para as plateias universitárias da França, o segundo para os leitores da Folha de São Paulo que migraram para Caros Amigos, Fórum e, até pouco tempo atrás, Carta Capital.

E o discurso confuso é herança de Caetano Veloso e suas retóricas pós-modernas. E a intelectualidade dominante de hoje, mesmo falsamente posicionando-se à esquerda, tal como o "mano baiano", se lança contra as plateias da MPB esquerdista, algo que também encontra clara consonância com Fernando Henrique Cardoso se dizendo "decepcionado" por não existir um modelo de "esquerda" que ele tanto sonhou.

Para eles, não vale mais a esquerda que cobra, que analisa, que critica. A esquerda tem que ficar calada, sorrir de forma debiloide e aceitar o que o mercado determina para tudo. Não é surpresa que os artistas rebeldes que a intelectualidade badalada de hoje dizem defender são nomes que estão falecidos, como Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção, ou quase aposentados, como Geraldo Vandré.

Vandré, por sinal, é também um dos autores mais parasitados pela pseudo-sofisticação dos neo-bregas dos anos 90, sobretudo do chamado "sertanejo romântico", através da canção "Disparada". No entanto, os mesmos breganejos evitam gravar a contundente canção "Caminhando", que lembra muito as canções de protesto gravadas pelo chileno Victor Jara (assassinado pelo aparelho repressivo do general Augusto Pinochet) e que uniam versos enérgicos e belas melodias.

Claro, se a MPB que os intelectuais etnocêntricos e seu "esquerdismo" tucano desejam tem que ser obediente e não fazer rebeldia contra o "inocente deus mercado", o brega-popularesco também não deve partir para a rebeldia. Se até as canções "de protesto" dos funqueiros "de raiz" são de um conformismo atroz com o "sistema" (no fundo eles só querem menos policiamento nas favelas e o direito de frequentar os locais dos "bacanas"), o que dizer dos breganejos naturalmente conservadores?

Na MPB obediente, a rebeldia apenas tem que se limitar à superfície, mais uma rebeldia de gestos do que de sentido, ou melhor, uma rebeldia mais pela forma do que pelo conteúdo. Como no caso do rapper Emicida, que forjou uma provocação aos policiais que o fez ficar algum tempo na prisão. É um desses atos que não passam de marketing, criando polêmicas vazias que em nada contribuem para a transformação da humanidade.

É mais ou menos o que Lady Gaga faz com seus trajes espalhafatosos e seus factoides. Ela é "performática", e daí? Emicida é "performático", Felipe Cordeiro, do Kitsch Pop Cult, também, Gaby Amarantos também. E daí?

A banalização da performance pós-moderna, que em outros tempos, como há 45 anos atrás, resultaria em verdadeiros happenings (como eram considerados os eventos culturais de impacto naqueles tempos) e, há uns 35 anos atrás, ainda nos mostrava um Sérgio Sampaio e um Itamar Assumpção (e seu parceiro e hoje ainda vivo e ativo Arrigo Barnabé), esvaziou todo o sentido provocativo.

O que temos, através das pregações dessa intelectualidade badalada, são simplesmente "provocações" que não provocam, "problemáticas" sem problemas, "debates" que não debatem coisa alguma, dentro de uma perspectiva de espetáculo onde até mesmo a rebeldia e a polêmica são inofensivos, feitos mais para alimentar o sensacionalismo midiático. Nada que um Michael Jackson não poderia ter feito em sua vida.

Na Europa, pelo menos tivemos um Jean Baudrillard, um Pierre Bourdieu e um Guy Debord para analisar criticamente a indústria do "espetáculo". E ainda temos Umberto Eco para cumprir tal missão. Mas no Brasil seus equivalentes são barrados logo na primeira inscrição para o Mestrado, porque contrariam os interesses dos titios George Soros, Henry Ford e Nelson Rockefeller (estes dois in memoriam) que despejam seus dólares nas faculdades brasileiras a título de "ajudas filantrópicas".

Ajudas que, pelo que se vê, nada ajudam no progresso da humanidade, a exemplo da "cultura popular" subserviente ao mercado que quer prevalecer no Brasil com o apoio da intelectualidade associada.

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