terça-feira, 12 de junho de 2012

A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA SE ACHA DONA DA HISTÓRIA


Por Alexandre Figueiredo

O pretensiosismo em torno da intelectualidade dominante no Brasil chega a tal ponto que eles se julgam acima das ideologias, senhores dos vivos e dos mortos e donos do passado e do futuro.

Em vários textos ando "enchendo o saco" de muitos falando dos equívocos cometidos por gente como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, senhores da visibilidade e de uma visão oficialesca da cultura popular, através da qual seus julgamentos nem sempre coerentes ganham respaldo mais pelo prestígio obtido tendenciosamente por esses intelectuais do que pelo sentido que suas ideias conseguem realmente transmitir.

É estarrecedor como parte da opinião pública de esquerda dá ouvidos a eles. Só pelo pensamento que transmitem, Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches se situam, literalmente e da forma mais explícita possível, no mesmo plano ideológico de Merval Pereira, Eliane Cantanhede e outros.

Araújo, Sanches e outros "tarimbados" pensam a cultura com uma visão meramente mercadológica, mas tentam camuflar seus pensamentos com alegações falsamente progressistas, tomando como ponto de partida a suposta solidariedade às classes populares.

A única diferença que Pedro Sanches e PC Araújo, assim como seus pares, possuem em relação a um Merval Pereira ou uma Eliane Cantanhede é que os intelectuais etnocêntricos adotam um discurso mais sutil e aparentemente mais otimista.

É claro que, nas minhas leituras dos textos de Pedro Alexandre Sanches em Caros Amigos e na revista Fórum, ou em outros textos que pesquisei pela Internet, notei que, de vez em quando, o jornalista também tem seus surtos "urubólogos" dignos de um "colonista" da Folha de São Paulo. A fruta não cai longe da árvore.

Mas, nos aspectos gerais, o discurso tende a ser otimista, com aquele verniz "socializante" que os comentaristas políticos não possuem. O que faz com que os incautos não consigam associar, por exemplo, um Pedro Alexandre Sanches ao seu mestre Otávio Frias Filho, ou não vejam estranheza em ler um artigo de Paulo César Araújo publicado especialmente em O Globo.

Só que essa intelectualidade também é perigosa na formação da opinião pública tanto quanto a dos comentaristas políticos mais reacionários. Seu perigo não é tanto pela visão que eles têm sobre cultura popular, mas da forma que propagam essa visão e dos meios que se utilizam para que essa visão prevaleça.

Eles se apropriam de recursos narrativos sofisticados - como a História das Mentalidades (que evoca a história de personagens anônimos) e o Novo Jornalismo (que narra reportagens na forma de romances) - , só para defender modismos mercadológicos, sendo este um dos meios deles tentarem defender a "cultura de massa" com discursos "nobres" e pretensiosos.

Eles se apropriam e distorcem de ideias de intelectuais já falecidos, tirando-as de seus contextos originais e deturpando até mesmo posições ideológicas desses pensadores. Se acham donos dos pensamentos deles, como intelectuais divinizados que se julgam ser.

O pior é que eles também se julgam senhores do passado e do futuro. Paulo César Araújo tratou a história da Música Popular Brasileira como se fosse uma massinha de modelar e distorceu as coisas, tentando inverter as posturas ideológicas, transformando ídolos bregas, de perfis bastante conservadores e ideologicamente resignados, em "cantores de protesto", enquanto transformava Chico Buarque num "arauto do milagre brasileiro".

Paulo César Araújo fez algo que não é muito diferente do que a Rede Globo faz. Araújo, em muitos aspectos, fala como se fosse um colunista de Veja. Mas, em primeira instância, as esquerdas se sentiram seduzidas pelo seu discurso sedutor, pelo ar sinistro dele, pela sua retórica que até mesmo nas "urubologias", busca uma tonalidade "suave" e persuasiva.

Esses intelectuais querem distorcer a história da cultura popular, apagar ou condenar ao esquecimento, ou então à deturpação etnocêntrica, de tudo que foi produzido antes de 1967, ano em que a "cultura de massa" se instaurou de vez no Brasil.

Esses intelectuais não querem esclarecimento. O que eles querem é subtituir a cultura verdadeira pelo hit-parade à brasileira, e nada como malabarismos e manobras discursivas para atingirem esse objetivo. Nem que seja à custa da deturpação da memória do passado histórico e de seus personagens.

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