terça-feira, 26 de junho de 2012

GABY AMARANTOS NÃO INVADIU A GLOBO. A GLOBO É QUE GOSTOU DELA


Por Alexandre Figueiredo

Às vezes, nota-se um certo nervosismo em certos escribas, que já não conseguem ter o poder de influência e domínio do que antes.

Quando veio o escândalo de Veja envolvida no esquema de Carlinhos Cachoeira, o colunista Reinaldo Azevedo escreveu um texto que mostrava claramente sua fúria diante das acusações feitas contra a revista.

Agora eu pude ver o nervosismo por parte de MC Leonardo e Pedro Alexandre Sanches, que sempre foram estranhos no ninho em relação ao elenco progressista da revista Caros Amigos. Uma boa revista, mas que até hoje não possui uma linha editorial de cultura bem resolvida.

Com o "funk carioca" deixando mais claro que nunca passou de uma "cracolândia" musical, MC Leonardo parece tentar explicar sua "militância", deixando subentendido, no título, "Um Toque para a Esquerda", uma certa animosidade que o dirigente funqueiro tem com a esquerda. Enquanto isso, ele se encontra bem à vontade quando fala de seus pares no jornal Expresso, das Organizações Globo.

Quanto a Pedro Alexandre Sanches, nota-se que ele anda recebendo críticas pelo modo como ele defende a mistura de alhos com bugalhos na música brasileira. Depois que ele escreveu um texto sobre Chico Buarque em que ele mais se preocupava em falar mal de um assessor do cantor, o "colonista-paçoca", meio nervosamente, tenta creditar o sucesso nacional de Gaby Amarantos como algo "revolucionário".

O título é muito pretensioso: "A Terra treme ao som tecnoindígena", como se ele não visse diferença entre o tecnobrega e as músicas indígenas que o Brasil houve há milênios. Tentando definir o sucesso do brega, em especial o tecnobrega de Gaby Amarantos, Sanches tenta definir o hit-parade brasileiro como se fosse um "folclore moderno", que seria algo como dizer que um chiclete de bola é igual a uma fruta que cai de uma árvore.

Sanches festeja o sucesso de sua musa Gaby Amarantos como se ela tivesse invadido a grande mídia numa operação conspiratória. Dependendo desse ponto de vista, está pronto, o tecnobrega rendeu os barões da grande mídia e o socialismo foi instaurado no Brasil. Não é bem assim, é o oposto. A grande mídia recebeu muito bem o tecnobrega e a Globo gostou muito de Gaby Amarantos. A Caras também.

Num certo momento, Sanches recorre a argumentos "subversivos" que até Steve Jobs em seus surtos mais conservadores teria sido capaz de dizer. O de que a máxima da cultura brasileira atual é "roubar, piratear" em vez de reciclar. Num dado momento, ele evoca seus "heróis" Wando, Alípio Martins e Odair José e, numa outra passagem, Zezé di Camargo, que ele também acha "revolucionários".

Tentando convencer a gente de que a MPB autêntica não é "melhor nem pior" que o brega-popularesco (na verdade, a MPB é melhor), Sanches parece meio perdido nas suas argumentações, porque ele tenta até agora escrever o seu "Manifesto Antropofágico" mas hoje os tempos são outros e o Brasil ainda desconhece as armadilhas que já foram, no Primeiro Mundo, devidamente identificadas por gerações de pensadores, de Walter Benjamin a Umberto Eco.

Ao longo do texto, ele também recorre a argumentações "etnográficas", a partir do já citado título. É muito tendencioso, da mesma forma do que inverter o sentido da "sabedoria" pela pouca idade dos jovens de hoje, mais receptivos as pregações pró-bregas de Sanches. É forçar a barra demais definir o tecnobrega como "som indígena", ou então definir outros ritmos bregas como o "funk carioca" como "negritude". Tudo isso é comércio, não cultura étnica. Isso está claro.

Sanches, na verdade, defende a substituição da cultura brasileira pelas regras comerciais do hit-parade. Mas, para que ele possa defender tal ideia sem assustar os leigos, ele tenta forjar um discurso falsamente folclórico, usando dos clichês do mais rasteiro discurso "subversivo", com essa rebeldia postiça de adolescentes riquinhos, que acham que vão mudar o mundo com o clique de um mouse.

Talvez seria hora de Pedro Alexandre Sanches pedir ao colega de pregações popularescas Hermano Vianna algum lugarzinho na Rede Globo. Que Sanches "criticou" ignorando a cumplicidade entre a grande mídia e o tecnobrega. Pessoalmente, adoraria ver Pedro Alexandre Sanches tendo coluna no Fantástico ou fazendo a agenda cultural no programa de Fátima Bernardes.

Não é qualquer um que pode ser de esquerda. Para ser de esquerda, tem que pensar como esquerda. Isso não é determinismo ideológico. Isso é coerência. Quem escolhe um caminho é para andar nele.

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