domingo, 10 de junho de 2012

A FUTILIDADE COMO ESTÍMULO À AUDIÊNCIA


Por Alexandre Figueiredo

Triste do país em que o sensacionalismo, as futilidades e o pitoresco valem mais do que valores éticos, do que a verdadeira cidadania e o progresso social.

Até agora, a velha grande mídia tem servido à população, durante décadas, do espetáculo da imbecilização social e da mediocrização cultural, às custas da exploração caricata das classes populares através do grotesco, do piegas, do aberrante, do fútil e outras coisas piores.

Pois o fenômeno de audiência da televisão aberta na última semana, pasmem, foi a edição do programa Agora É Tarde, da TV Bandeirantes, com a funqueira Valesca Popozuda como principal entrevistada do apresentador Danilo Gentili, ex-integrante do programa CQC e, tal qual outro integrante, Rafinha Bastos (hoje comandando a franquia brasileira do Saturday Night Live), é afeito a declarações "polêmicas".

Valesca Popozuda, a inexpressiva funqueira que, num só perfil, soa como um cruzamento de Carla Perez com Tati Quebra-Barraco, nunca foi famosa por um sucesso musical. Ela torna-se famosa por factoides sobretudo de cunho "sensual", às custas das formas físicas "infladas" por doses generosas de silicone. Sobretudo pegando carona em times de futebol e escolas de samba para promover a imagem da maior "mulher-fruta" do país, aquela que não tem nome de fruta nem de carne.

A entrevista, que apenas evocou o passado de frentista de posto de gasolina da funqueira, além da vontade dela de colocar um dançarino transexual na Gaiola das Popozudas, ficou nesse tom dos "dotes sensuais" da funqueira, que foi lançada à fama pelo documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denize Garcia, um dos produtos da campanha intelectualoide de promover o "funk carioca" como se fosse "arte superior". Em certo momento, ela deita na mesa do apresentador, numa "sensualidade" que nada tem de sedutora, mas puramente grotesca, gratuita, exagerada e caricata.

Claro, para uma rede de televisão que tem José Luiz Datena e Bóris Casoy, e cujo próprio CQC tem um pé no Instituto Millenium através da pessoa de Marcelo Tas, a "façanha" do Agora É Tarde não é novidade alguma. A própria Band deixou passar uma reportagem na Bahia em que uma repórter insistia que um pobre assaltante era estuprador, mesmo sem qualquer confirmação.

O pobre que é humilhado porque sua miséria o fez ladrão é o mesmo que, bajulado tendenciosamente, é servido por quatro bolsas de silicone que governam seus instintos sexuais desenfreados. Para ele, talvez Valesca Popozuda fosse grande coisa, o máximo de sensualidade feminina. Mas, para os homens esclarecidos, ela é apenas uma expressão das aberrações grotescas que a mídia empurra para o imaginário popular.

E a futilidade, para os executivos da TV aberta ávidos pelo faturamento extremo, é a fórmula que, para eles, torna-se eficaz no impulso dos índices de audiência. O programa de Gentili atingiu o terceiro lugar do Ibope com a edição com a funqueira. Mas quem perdeu o programa não perdeu grande coisa. Talvez os espectadores que o vieram é que perderam, porque poderiam fazer outra coisa importante em vez de ver uma musa vulgar vendendo seu corpo para a fama.

São coisas assim que a verdadeira Regulação da Mídia pertende acabar, porque os princípios da cidadania vão muito além de um simples controle de comentaristas políticos reacionários. Glúteos siliconados também inspiram "urubologias" culturais.

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