sábado, 9 de junho de 2012

A CRISE DA GRÉCIA ALERTA O BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

O Brasil tem muito pouco o que comemorar. Os progressos sociais são relativos e frágeis. A subida de posições no ranking econômico mundial se deu mais pela crise europeia do que por supostas façanhas brasileiras.

O Brasil melhorou, é verdade, mas muito longe de colocar o país no Primeiro Mundo ou para promovê-lo a potência maior da humanidade futura.

Ainda há muitos aspectos de atraso, em vários setores. Na cultura, isso se torna mais evidente, quando a chamada cultura popular de hoje está muito aquém do que as classes populares foram capazes de produzir no passado. Afinal, o que se vê como "verdadeira cultura popular" não é mais do que uma simples mercantilização através da mediocrização cultural comandada por empresários e barões da grande mídia.

O Brasil pode se tornar a Grécia de hoje, em crise de suas próprias referências históricas. Na crise grega, que atinge níveis preocupantes e já despertou o alarme na União Europeia, o reflexo na cultura se dá não só pela falta de investimentos para o setor, representado no seu governo pelo chamado Ministério Helênico da Cultura. Ela se dá também pela falta de segurança e pela corrida voraz pelas escavações ilegais, que, assim como os roubos de obras de arte, são em boa parte encomendados por colecionadores particulares.

Cineastas têm dificuldade de concluir seus trabalhos. Poetas e escritores não podem publicar suas obras. A crise cultural faz com que muitos artistas e intelectuais partam para um exílio voluntário em outros países. Mas há um clima de solidariedade em torno deles, como em toda séria crise, que faz unir pessoas que vivem infortúnios comuns. São situações extremamente negativas, sofríveis, mas elas mostram um ponto bastante positivo, que é reforçar a solidariedade e a união dos que sofrem as mesmas dificuldades.

Talvez o pior caso seja o Brasil, porque a verdadeira cultura perde seus espaços. O patrimônio cultural do passado também sofre quase o mesmo desprezo da Europa, apesar dos investimentos serem mais favoráveis e as atenções, modestamente positivas.

Isso porque, apesar dos incentivos governamentais - em que pese os equívocos cometidos pela atual gestão do Ministério da Cultura - , não se estimula o grande púbico à apreciação da verdadeira cultura. Pelo contrário, quando alguém toma essa iniciativa, é tratado, pela intelectualidade dominante, como "preconceituoso" e "elitista", a não ser que aceite uma gororoba cultural com alhos e bugalhos, juntando o bom e mau gosto, as coisas de valor reconhecido a as de valor bastante duvidoso.

Ou seja, a "cultura" que prevalece é a do mau gosto, que não traz valores sociais reais nem conhecimento ou progresso para a população. Uma "cultura popular" controlada por empresários, com perfil mais próximo de capatazes de fazendeiros, mas fantasiados de "produtores culturais" e tratados, pela retórica intelectualóide, como se fossem tão pobres quanto pequenos engraxates de rua.

Ou seja, a nossa cultura está em crise. Mas, infelizmente, muitos entendem crise como aquela de cunho político e econômico. Se vaza casos de corrupção, então a crise existe. Mas se a corrupção ocorre escondida, a crise "não existe". Da mesma forma, o sentido de crise se limita, aos olhos de muitos, à crise financeira, daí que valores culturais duvidosos que rendem lucro nunca lhes sugere existir uma crise.

Ver que o povo praticamente não consegue mais produzir sua cultura senão sob os ditames dos programadores de rádio e TV ou dos editores da chamada "imprensa popular" - pequenos burgueses que tratam o povo pobre feito gato e sapato - , que preferimos chamar de "imprensa jagunça", é preocupante.

A mercantilização cultural, através da transformação do "mau gosto" não na causa nobre alardeada pela intelectualidade dominante, mas numa mercadoria onde o grotesco, o piegas, o medíocre e o pitoresco são vendidos como "qualidade inerente do povo pobre", mostram o quanto essa crise se dá, em consequência sobretudo pela ditadura militar e pelos governos civis de cunho mais conservador.

Afinal, foram esses cenários políticos que condicionaram não somente os barões da grande mídia que hostilizam os movimentos sociais. Eles também criaram condições para o fortalecimento de veículos de comunicação "populares" que, silenciosamente, também condenam os movimentos sociais, na medida em que se empenham em transformar as classes populares num bando de patetas.

E esses cenários políticos também criaram os intelectuais que bajulam as classes populares mas só querem saber da "cultura de massa" popularesca. Com um quê de populistas, com outro quê de conservadores, esses intelectuais são os que mais desincentivam a verdadeira cultura brasileira, defendendo, quando muito, uma MPB obediente que aceite compactuar com as breguices que dominam o mercado brasileiro.

Ou seja, que diferença têm esses intelectuais com a Secretaria de Estado da Cultura, de Portugal, ou do Ministério Helênico da Cultura grego, no desincentivo ao verdadeiro patrimônio cultural? As verdadeiras expressões culturais, que não investem no comercialismo nem na porralouquice performática "pop", estão marginalizadas, ora na apreciação privativa de algumas elites generosas, ora no confinamento de museus deixadas à própria sorte.

Portanto, o Brasil deve abrir o olho. Louvar a mediocrização cultural como se fosse a "nova cultura popular" não tornará o país mais próspero. Michel Teló só vai para o exterior para, quando muito, competir com o ídolo do pop descartável, Justin Bieber. Fora isso, o astro brasileiro em nada contribui para a verdadeira cultura popular, queiram ou não queiram os intelectuais diante dessa constatação que lhes é desagradável.

Afinal, esses intelectuais não podem ser considerados os donos das vontades do povo. A escravidão que esses patrícios fazem da vontade popular pode pôr o Brasil a perder e se transformar num país sem referências nem valores sólidos, como a Grécia da crise dos tempos atuais.

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