terça-feira, 19 de junho de 2012

COMO REAGIR À MERCANTILIZAÇÃO DA MPB?


Por Alexandre Figueiredo

A música brasileira se transforma, é verdade, mas não a ponto de seguir o descaminho que está seguindo atualmente.

Antigamente, as classes pobres exprimiam seu saber, produziam conhecimento, sua cultura é de excelente qualidade.

Mas hoje, o que vemos é a mediocrização cada vez mais escancarada, o império do "mau gosto" que enriquece os barões de entretenimento que são equiparados, pelo discurso intelectual dominante, a pequenos engraxates de rua, mas são tão ricos quanto qualquer latifundiário poderoso do interior do país.

É uma mediocrização que ocorre há muito tempo, mas hoje atinge níveis quase totalitários. Claro que expressões da cafonice musical existiam desde 1961, mas naquela época tais ídolos não se julgavam os "donos da MPB" nem se passavam por coitadinhos para enganar e iludir a opinião pública.

Mas hoje a coisa foi longe demais. Se nos anos 80 havia ainda MPB nos espaços da grande mídia onde privilegiavam brega-popularescos, hoje é são os próprios espaços da MPB que são tomados gradualmente pela patota brega-popularesca,  jogando no ostracismo quem não aceita compactuar com a cafonice dominante.

E, o que é pior, quase não há espaço nem condições para o povo pobre exprimir sua cultura de verdade. O povo pobre é manipulado pela televisão, que estabelece uma concepção caricata do povo pobre. O povo pobre assimila essa concepção e se torna a caricatura dessa caricatura, e assim se "condiciona" a produzir a "sua" cultura da forma de como os executivos e produtores de TV veem as classes populares.

Nem as chanchadas dos anos 40 e 50 chegaram longe a essa concepção caricatural. Pelo contrário, as chanchadas, pelo menos, se assumiam ficções, comédias, e sua visão era assumidamente romântica e fantasiosa. As chanchadas tinham a psicologia do Carnaval, movida pela fantasia, pela brincadeira.

Já o brega-popularesco, não. É uma forma perversa de manipulação do povo pobre, que fica mais perversa ainda quando conta com um forte lobby intelectual, contra o qual só mesmo alguém de grande visibilidade é capaz de contestá-los.

Chegou-se ao ponto de a intelectualidade achar que o povo pobre de hoje não pode se renovar culturalmente fazendo sambas de verdade, baiões autênticos e música caipira genuína. Quer dizer, o povo só pode renovar-se culturalmente através da "cultura de massa" que foi elaborada pelos executivos e produtores da mídia "popular", mas que hoje é atribuída à "vontade do povo pobre".

Em outras palavras, o que essa intelectualidade diz, sob aplausos dos desavisados, é a mais cruel visão elitista sobre cultura popular. Segundo essa visão, desaconselha-se o povo pobre de apreciar o seu próprio patrimônio, o próprio legado de seus pais, avós, tataravós, ancestrais. O "patrimônio" do povo, agora, é o dos programadores de rádio e TV e dos editores da imprensa popularesca.

E é um patrimônio que, num julgamento informal, se define como "lixo". Um patrimônio que não é do povo, mas dos barões do entretenimento que comandam o país. E que injetam dinheiro para empurrar um Michel Teló para os gringos, quando ele apenas canta para imigrantes brasileiros na Europa e EUA, voltando para cá sob o falsíssimo rótulo de "rei do mundo". O jabaculê brasileiro se globalizou, mas os europeus não são trouxas para aceitar qualquer engodo vindo do "alegre país sul-americano".

E o que fazer diante desse quadro em que até os cientistas sociais e os críticos musicais mais badalados simplesmente não querem que o povo faça cultura de verdade, sob o pretexto, bastante hipócrita, de que a cultura popular de outrora era parada no tempo, ultrapassada, antiquada?

O povo precisa ser reeducado. É necessário que a regulação da mídia se volte também para os aspectos culturais, e não se limite apenas a algumas medidas de cunho técnico, tecnológico e profissional nem a mero receituário de conduta para jornalistas políticos.

Há algo na chamada "cultura popular" e constatar isso nada tem a ver com higienismo, elitismo ou preconceito. Isso porque existe uma discrepância qualitativa entre o que se fazia culturalmente nas classes pobres e o que se faz hoje.

Nem a capacidade da Internet de uma informação mais diversificada e acessível consegue minimizar a mediocrização cultural existente no Brasil. Pelo contrário, a Internet acaba reforçando, na medida em que se torna a expressão de reciclagem dessa mediocridade, e a digestão difusa e confusa de informações só faz piorar as coisas. Brega "hiperconectado" é, ainda assim, brega.

Devemos lutar para superar isso. Desmascarar o discurso intelectual sem medo de ir contra figuras badaladas. Até porque essas figuras não se projetaram pela consistência de ideias, mas pelo poderio que já exerciam nos círculos midiáticos. Numa observação mais cautelosa, veremos até que suas ideias estão muito longe de corresponder aos aplausos e ovações que eles recebem em suas concorridas palestras.

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