segunda-feira, 11 de junho de 2012

COMO JOGAR UM INTELECTUAL NEOLIBERAL PARA A ESQUERDA?


Por Alexandre Figueiredo

Certos intelectuais se formaram no ideário neoliberal, às vezes com alguma teoria esquerdista, sobretudo através de análises dialéticas entre Max Weber sobre Karl Marx e Geörg Hegel.

Na análise econômica, sabemos que eles, em que pese alguma simpatia pelo socialismo, acabam por reafirmar o desejo de subordinação econômica dos países emergentes, querendo que o Brasil se limite a ser o paraíso do entretenimento, convertido em mero playground do mundo, com consumismo pleno, mas cidadania dentro dos limites que não abalam as estruturas sociais dominantes.

Na análise cultural, as coisas não ficam tão fáceis, embora também não seja fácil dissimular os vínculos neoliberais. Paulo César Araújo, não fosse a crise política do PSDB, seria o grande historiador cultural dos anos de governo José Serra. Hermano Vianna foi aluno de um falecido antropólogo ligado ao grupo de Fernando Henrique Cardoso, daí os claros vínculos da visão cultural do irmão do músico Herbert Vianna com a Teoria da Dependência de FHC.

Pedro Alexandre Sanches e Ronaldo Lemos se formaram no mesmo padrão ideológico desenvolvido por Otávio Frias Filho no chamado Projeto Folha. Na Bahia, Milton Moura e Roberto Albergaria preferem se entrosar com o poderio midiático de A Tarde, Rádio Metrópole e Rede Bahia do que defender qualquer marco regulatório da mídia local.

Mas como todos eles mexem com cultura e não necessariamente política, precisam se posicionar, falsamente, à esquerda ideológica tanto para evitar que a opinião pública realmente de esquerda dê seu parecer sobre a cultura popular, quanto para evitar naufragarem juntos com a direita política na qual se vinculam de forma não assumida.

E como eles fazem para migrarem para a esquerda intelectual, feito corsários que, vendo seu líder morrer em naufrágio, vão se refugiar justamente na embarcação rival?

Simples. Estabelecem uma rede de relações e uma reformulação do discurso, evitando a raiva explícita dos comentaristas políticos reacionários, e tentam forjar uma pose "progressista" através de uma retórica "alegre" e "otimista" que, na aparência, se contrasta com o mau humor dos comentaristas políticos reacionários.

Alguns procedimentos podem ser identificados:

1) BAJULAR INTELECTUAIS DE ESQUERDA MAIS MALEÁVEIS - O intelectual cultural de centro-direita vai a círculos sócio-culturais mais progressistas, porém flexíveis, e encontra intelectuais de esquerda mais maleáveis, que podem assim arrumar espaços de expressão progressista para o catequismo neoliberal enrustido desse intelectual. Claro que ele não poderá ir a redutos sérios como o Centro de Estudos Barão de Itararé, mas encontrará alguns cenários mais flexíveis, sobretudo lugares para palestras, para fazer sua pregação.

2) PEGAR CARONA NA PRÓXIMA DEBANDADA DE COLEGAS DE ALGUMA INSTITUIÇÃO - Se um grupo mais conservador passa a prevalecer, seja num veículo midiático, seja num círculo intelectual de uma instituição, o intelectual cultural de centro-direita com pretensões de pseudo-esquerda precisa observar quem são os descontentes de ocasião e pular fora junto com eles.

3) PAPARICAR SEMPRE AS CLASSES POPULARES - O processo pode ser bem semelhante ao que os comentaristas políticos mais reacionários fazem quando citam jargões como "democracia" e "sociedade civil organizada". Embora haja uma clara analogia de sentido ao que um comentarista político de direita diz sobre "democracia" e o intelectual cultural etnocêntrico diz sobre "diversidade cultural", geralmente o estilo dos comentaristas políticos permanece em estado bruto, o intelectual cultural ganha porque pode adotar um discurso aparentemente mais generoso.

4) TENTAR SE ASSOCIAR A FIGURAS PROGRESSISTAS MAIS CONHECIDAS - O intelectual cultural de centro-direita precisa, de alguma forma, associar sua imagem a nomes mais conhecidos, como Paulo Henrique Amorim e Emir Sader, e, por isso, precisa seguir o Twitter do Emir e colocar o blogue Conversa Afiada no linque dos relacionados em seu blogue. É claro que um Altamiro Borges e um Eduardo Guimarães lhe soam mais indigestos, um Rodrigo Vianna não é muito badalado, por isso lhe basta apenas correr atrás dos mais conhecidos.

5) LANÇAR ARGUMENTOS CONFUSOS, MAS APELATIVOS - O intelectual cultural de centro-direita, para caprichar no seu pseudo-esquerdismo, precisa, além de adotar um discurso mais otimista e alegre, precisa encher de referenciais dos mais diversos para que leitores pouco preparados só "pesquem" as palavras-chave e o vejam como um "grande intelectual de esquerda". Se escrever um texto sobre forró-brega, procure criar uma narrativa que vá, da maneira mais difusa possível, da literatura de cordel à pop-art de Nova York, passando pela moda da Swinging London e citando o maior número de personagens possível. O leitor incauto não irá estranhar o que faz o nome de Patti Smith num texto sobre o Calcinha Preta, confiando na "reputação" daquele que escreveu o confuso texto.

6) ADOTE JARGÕES ESQUERDISTAS - Falar em "reforma agrária no ar" para defender as rádios "pequenas" do interior do Pará, que tocam ídolos bregas, é uma maneira de adotar um discurso pseudo-esquerdista se aproveitando de jargões do meio. E isso pode até mesmo camuflar o fato de que latifundiários que mandam metralhar agricultores são donos da maior parte dessas rádios. O intelectual em questão deve também enfiar a palavra "regulação da mídia" e chamar Dilma Rousseff de "presidenta" como meio de dar a impressão de que também é um intelectual "esquerdista".

7) EVITE FALAR MAL DE PENSADORES DE ESQUERDA - O intelectual cultural de centro-direita com pretensões de pseudo-esquerda sente o maior desprezo por Emir Sader, por Venício Artur de Lima e pelas visões culturais de José Ramos Tinhorão e Dioclécio Luz. É um desprezo um tanto rancoroso, ressentido, mas para o bem de sua pretensão, ele terá que citá-los de forma "imparcial", como por exemplo um veículo da mídia conservadora mais moderada faz em relação a reportagens sobre Che Guevara.

8) CAPRICHE NOS FALSOS ATAQUES DOS ANTIGOS ÍDOLOS DE DIREITA - Enquanto isso, o intelectual cultural de centro-direita terá que fazer falsos ataques àqueles que, na verdade, são seus ídolos autênticos. Seus "alvos" passam a ser então seu mestre Fernando Henrique Cardoso, a Rede Globo, a Folha de São Paulo, as revistas Veja e Caras e figuras como Eliane Cantanhede, Marcelo Tas e Marcelo Madureira. Os ataques podem até ser "grosseiros" e "forçados" - como dizer, por exemplo, que Fátima Bernardes é uma "bruxa feia" e William Bonner tem voz de taquara rachada - , porque aí a plateia incauta se entusiasma e adere às manobras desse intelectual pseudo-esquerdista.

Foi através desse manual que os conhecidos intelectuais de pseudo-esquerda no nosso Brasil defendem valores conservadores sobre cultura popular, que muitos ainda acreditam ser "progressistas". O que fiz foi identificar as manobras já feitas para esses "pensadores" obterem a visibilidade fácil.

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