quarta-feira, 20 de junho de 2012

BREGA-POPULARESCO TENTA SUA "ISO 9000"


Por Alexandre Figueiredo

A música brega, em várias de suas "vertentes", tenta agora se "vitaminar" e correr atrás de pretextos e contextos que antes se recusava a admitir sequer em teoria.

Se antes desprezava a MPB autêntica, os bregas e seus derivados agora pegam carona nela para se promoverem. Se antes tratava os roqueiros brasileiros como um bando de derrotados frustrados, hoje tenta uma "parceria" com os mesmos para levar vantagem.

E até o jabaculê tornou-se muito mais sofisticado. Ele se foca, agora, não mais nos programadores de rádio, embora estes sejam sempre considerados, mas em intelectuais que, às custas de uma metodologia delirante, esotérica e demagógica, tentam reafirmar os "sucessos do povão" como se fosse alguma "causa nobre" para a humanidade.

E dessa forma o brega chegou ao estágio dos chamados pós-bregas, a terceira linhagem da música brega mais informada, mas não necessariamente talentosa, como reza a natural mediocridade artística dessa "cultura de massa" brasileira.

Se nos anos 60 e 70 tivemos os bregas originais, isolados na sua concepção provinciana da realidade, e nos anos 80 e 90 tivemos os neo-bregas juntando o brega de seus antecessores com macetes obtidos da "burguesificação" da MPB nos anos 80, os pós-bregas possuem alguma noção de "cultura pop", já que é uma geração que consulta muito a Internet e tem mais acesso a escolas de música e a contatos com outras frentes culturais, sobretudo através da Universidade e de outros ambientes urbanos.

O que não significa que os pós-bregas sejam melhores. No fundo, bregas, neo-bregas e pós-bregas são igualmente medíocres, mesmo sendo os neo-bregas mais "sofisticados" e os pós-bregas mais "arrojados". O que diferencia uns e outros é apenas uma tendenciosa ambição de manter as aparências, através de uma busca de novos públicos - ou, sendo mais claro, novas demandas de consumidores (o brega é neoliberal) - que não o chamado "povão" (as classes populares estereotipadas pelo rádio e TV).

O pós-brega inclui as gerações mais recentes do forró-brega, mais o tecnobrega, o "funk carioca" e as chamadas tendências "universitárias". Da mesma forma que o neo-brega é o brega que chegou à Rede Globo, imitando a aparente sofisticação da fase "elitista" da MPB dos anos 80, o pós-brega é o brega que chegou à MTV.

São pós-bregas nomes como Mr. Catra, Michel Teló, Gusttavo Lima, Gustavo Lins (sambrega), Jeito Moleque, Gaby Amarantos, Dário Jeans, Banda Calypso, Tati Quebra-Barraco, Gaiola das Popozudas, Stefhany Absoluta, Leva Nóiz, Tchê Garotos, Luan Santana. É controverso dizer que Cláudia Leitte seja uma pós-brega na axé-music, mas sabemos que o emergente cantor Thiaguinho, ex-Exaltasamba, ainda segue a linha neo-brega de Alexandre Pires.

Mas, em todo caso, pós-bregas e neo-bregas são bregas do mesmo jeito. O que une os dois, os "sofisticados" neo-bregas e os "modernos" pós-bregas é a preocupação de forjar uma "ISO 9000", de promover um programa de "qualidade total" para a música brega.

SAMBREGA AO GOSTO DA ANTIGA 89 FM

E um dos fenômenos recentes dessa leva, que também se enquadra no pós-brega, é o grupo Sambô, de Ribeirão Preto, que se autointitula "samba rock". O conjunto, considerado um dos hypes da temporada, é uma mistura daquele antigo pretensiosismo "sambista" de Os Morenos - que, na Bahia, o Harmonia do Samba é um dos representantes - misturado àquele "pop rock" igualmente pretensioso feito que, nos anos 90, era feito sob encomenda para a programação de rádios como a antiga 89 FM e sua congênere carioca, a Rádio Cidade.

O grupo tornou-se famoso por gravar, em arranjos de sambrega, canções roqueiras como "Rock'n'Roll" do Led Zeppelin, "Sunday Bloody Sunday" do U2 e "Mercedes-Benz" de Janis Joplin. Nada mais pretensioso do que isso, apesar dos aparentes elogios da mídia especializada. Afinal, não é algo que uma banda poser de Los Angeles não seja capaz de fazer, dentro de seu contexto. Além disso, o Sambô é empresariado pelo mesmo que já empresaria grupos de "pagode romântico" e tem no seu passe o cantor Thiaguinho.

Com uma diferença de contexto, o Sambô se equivaleria aos Virguloides, numa aparente inversão de intenções que não esconde a mediocridade visível. Se os Virguloides se intitulavam "rock samba", o Sambô se intitula "samba rock". Mas, a julgar pelas fórmulas que cada grupo adota, o samba e o rock igualmente diluídos, as breguices dos dois grupos são essencialmente as mesmas.

PUXA-SAQUISMO À MODERNA MPB

O Sambô participou dos eventos que incluíram nomes da MPB autêntica e como Wilson Simoninha e Jair Rodrigues. E daí? Se hoje vemos uma tendência, através da intelectualidade etnocêntrica, de juntar a há muito menosprezada MPB moderna da Trama, talvez como um mecanismo de isolar a geração "biscoito fino", ao esquema dos neo-bregas e pós-bregas, nenhum brega se enobrece porque se apresentou ao lado dos bacanas da MPB.

Isso porque é apenas um processo entre tantos de manter as aparências. A "qualidade total" não envolve a vocação natural, que é inexistente, nem o compromisso social de expressar o verdadeiro saber do povo. Mas a intelectualidade insiste em dizer que o tal "saber do povo" vem das rádios e TVs de maior audiência, o que se conclui que, para um Pedro Alexandre Sanches da vida, "periferia" são a famiglia paraense Maiorana, os irmãos Marinho, o Otávio Frias Filho, o Luciano Huck e os herdeiros de Antônio Carlos Magalhães.

Os neo-bregas e pós-bregas apenas capricham nas "pesquisas", como maus alunos que, levando bronca do professor depois de levarem zero num trabalho escolar, tentam "caprichar" nas pesquisas bibliográficas para fazer algo mais "convincente", mas que no fundo nada contribui para seu real aprendizado, aquele que vai muito além da busca de mais pontos na avaliação escolar.

Os neo-bregas já fizeram isso, no final dos anos 90, gravando muitos covers de MPB para tentar impressionar a opinião pública. E tiveram ajudinha da Rede Globo toda vez em que havia um tributo de um figurão da música brasileira ou um evento comemorativo de uma efeméride, tipo aniversário de uma cidade ou de um monumento e fatos históricos.

Virou até clichê um neo-brega gravar "Nervos de Aço" de Lupicínio Rodrigues e "Tocando em Frente" de Renato Teixeira. Ou então "Romaria", também de Renato Teixeira, e "Canção da América", de Milton Nascimento. Do samba, então, "Saudades da Amélia" de Ataulfo Alves e Mário Lago e "Trem das Onze" de Adoniran Barbosa são alguns dos clichês.

Só que, com os avanços da Internet e com um acesso maior às informações, os neo-bregas e pós-bregas fazem hoje o que se recusariam radicalmente a fazer, há 20 anos atrás. Sabem que estão em desvantagem, não são tão talentosos quanto os verdadeiros artistas da música brasileira, por isso tentam uma carona, uma bajulação, um aparato, para ver se levam vantagem.

A moderna MPB, de artistas de sambalanço, figuras performáticas e cantoras ecléticas, vira alvo desse puxa-saquismo dos neo-bregas e pós-bregas. Ou mesmo dos antigos bregas que querem se manter no mercado ou recuperar o sucesso perdido.

E, com um poderoso lobby para criar o hit-parade brasileiro, que vai sufocar a verdadeira diversidade cultural brasileira, aquela que prima pela verdadeira qualidade artística, a MPB moderna sofre a tentação de tentar se compactuar com os bregas em geral visando um acordo meramente comercial.

Afinal, se a MPB moderna possui o talento e a inteligência, o brega possui o mercado como moeda de troca. Para que a MPB autêntica possa se apresentar nos eventos musicais controlados pelas oligarquias regionais, sejam elas micaretas, vaquejadas, aparelhagens, "bailes funk" e o que vier.

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