segunda-feira, 25 de junho de 2012

A ARMADILHA "TRANSBRASILEIRA"


Por Alexandre Figueiredo

"O rei morreu. Viva o Rei!!". A célebre frase significa, no anedotário popular, que o rei continua reinando nos corações das pessoas, ainda que tenha morrido.

Mas quando se diz "o mercado morreu. Viva o mercado!", no caso do entretenimento brasileiro, não só o mercado continua reinando nas emoções de seus adeptos como ele continua mais vivo do que nunca.

A intelectualidade etnocêntrica - leia-se Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e companhia - diz que o mercado morreu. Querendo defender ideias de direita num discurso esquerdista, fingem concordar que o mercado fonográfico está em colapso, a velha grande mídia está agonizante e, querendo forçar muito a barra nos seus argumentos, acham que o botão de um mouse de um computador de um cidadão comum é o botão que vai detonar a explosão cultural mundial da humanidade.

Balelas. Argumentos meio porraloucas, Contracultura de boutique. Tudo para esconder os interesses mercadológicos que estão por trás do discurso de "morte do mercado". Nos enganem que gostamos, intelectuais. Que tal vender o peixe anunciando que o mercado morreu, que voltamos ao tempo do escambo, que os escritórios agora estão nos porões das casas de qualquer um, que qualquer imbecil despolitizado agora é "guerrilheiro zapatista-guevariano"?

Ser "pós-moderno", "transbrasileiro", "hiperconectado" e outras expressões bonitinhas é o imaginário do pseudo-ativista plantado pelo discurso intelectual dominante. Que não é tido como dominante, pasmem, daí o posicionamento ideológico de seus pregadores, que evitam sempre os mesmos cenários dos urubólogos.

Dependendo do palanque ou do auditório em que um discurso neoliberal é difundido, ele ganha matizes "esquerdistas" sem que qualquer de seus princípios sejam alterados. As gerações mais recentes sofrem, em maioria, da memória curta cultuada pelas emissoras de TV e rádio, pela imprensa e pela Internet, desde os obscurantistas anos 90.

Cafonices, sensacionalismos, aberrações, baixos valores morais, outros valores supérfluos e até tolos. Tudo isso povoa o imaginário juvenil diante da overdose de alienação midiática que antecedeu a overdose de informações posteriormente assimilada. Tudo isso criando uma visão esquizofrênica que faz do Brasil uma triste peculiaridade mundial.

Afinal, são pessoas que "adoram" Che Guevara, mas defendem as regras de mercado. São pessoas que dizem "abominar radicalmente" o imperialismo, mas usufruem de tudo o que este lhes oferece. Assimilam valores tão contraditórios, que criam um repertório ideológico confuso, que se fosse um bolo seria algo bastante moderno na cobertura, mas velho e podre no recheio.

E aí vem Pedro Sanches falar em "cultura transbrasileira". Nada mais neoliberal do que isso. Pois o "transbrasileiro", como foi escrito antes, é o mesmo "transnacional" no ideário neoliberal. Dá no mesmo. São palavras dotadas de um mesmo sentido ideológico.

No lado econômico e "transnacional", empresas estrangeiras que, com um certo esnobismo, exibem a bandeira do Brasil que tomaram para si, enquanto enfraquecem concorrentes brasileiras, seja pela própria competição voraz, seja pela compra de ações.

Já no lado cultural e "transbrasileiro", vemos regras e paradigmas do hit-parade norte-americano penetrando na cultura brasileira usando termos oportunistas como "neo-folclore", "pop pós-moderno", "cultura hiperconectada".

Assim as autoridades do FMI gostam. Prega-se o neoliberalismo na cultura como se ele fosse um "novo socialismo". E a juventude que lê Caros Amigos e Fórum às pressas, acompanhando os pais dissidentes de antigas leituras da Folha de São Paulo, não tem a menor ideia do que está por trás do atraente discurso que assimilam sem verificar.

Acabam levando gato por lebre caindo na armadilha "transbrasileira".

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