quarta-feira, 6 de junho de 2012

A ACOMODAÇÃO DA MPB DOS ANOS 90


Por Alexandre Figueiredo

A geração que fez a MPB autêntica dos anos 90 perdeu uma boa chance de representar um foco de resistência cultural, um ponto de ruptura, quebrando o cerco fechado da mesmice brega-popularesca que dominava as rádios então.

O brega-popularesco era, na época, o "pensamento único" da dita "cultura popular" determinada pelos interesses dos barões da mídia daquela época, carneiros vorazes do "deus mercado" que hoje se disfarçam de "coiotes coitadinhos" da pseudo-esquerda "paçoqueira" e "farofa-feira".

Os tempos passam e mesmo a admirável novidade das gerações mais jovens conhecer a MPB de 1967-1972 hoje se tornou rotineira, viciada. A MPB dos anos 90 que, na ressaca do Rock Brasil, mostrou o sambalanço, os "malditos" pós-tropicalistas (como Sérgio Sampaio, Walter Franco e outros) e a fase mais audaz de Gal Costa logo os discos desse intervalo, entre tantos outros, passou também a ser perseguida pelos mesmos ídolos brega-popularescos da safra 1989-1992.

Essa safra de ídolos neo-bregas, puxados pelo comercialismo fácil do barão da música brega Michael Sullivan, tomava conta da maioria das rádios do país, tendo sido os hoje conhecidos ídolos do "sertanejo romântico", do "pagode romântico", da axé-music, do "forró eletrônico" e outros ritmos neo-bregas da temporada.

Simbolizando a Era Collor, tanto pela afinidade do jabaculê neo-brega com o cafajestismo político do presidente Fernando Collor, os ídolos neo-bregas foram derrubados, em primeira instância, com o impeachment do então chefe do Executivo federal. E ascendeu-se a geração da MPB autêntica que, embora não tenham sido artisticamente revolucionários, pelo menos tinham atitude para mostrar para o povo e para a juventude que havia música brasileira de qualidade.

Só que passou-se o tempo, os neo-bregas de 1989-1992 foram adotados pela Rede Globo e jogados para fazer a "MPB de mentirinha" da indústria fonográfica atual, e, assim como na política Fernando Collor e José Sarney viraram "coitadinhos" pseudo-progressistas, na música temos Michael Sullivan e os neo-bregas da virada de década (80-90) posando de "vítimas de preconceitos".

Construiu-se um grande lobby de intelectuais, artistas, cineastas, críticos musicais para defender a breguice reinante, num processo insuspeito, porém nunca assumido, de eliminar a cultura brasileira e substitui-la por um hit-parade com bases locais.

E, se vemos a mais completa rendição de um Zeca Baleiro à breguice reinante, nos demais cantores a condescendência com os modismos dominantes - nunca assumidos desta forma - é muito grande. Se Marisa Monte chegou a ser condescendente com o É O Tchan, há quinze anos atrás, sua colega de movimento, Adriana Calcanhoto, fez o mesmo em relação a Michel Teló. Como se não bastasse gravar um sucesso de Claudinho & Buchecha num de seus projetos de música infantil (mas aqui vale a mesma ressalva da Legião Urbana gravando sucesso do Menudo, até que o arranjo embelezou as versões).

"É tudo música", tenta justificar a cantora gaúcha. Talvez por boa-fé, ela afirma que existe espaço para todas as tendências na música. Só que não percebemos mais isso. A MPB autêntica anda perdendo seus próprios espaços, e o que vemos quando seus artistas defendem o brega-popularesco é, na verdade, a redução dos verdadeiros artistas a pedintes culturais.

Sim, é isso mesmo. Nomes do Rock Brasil tentam mendigar espaço nas vaquejadas e agrofestivais nos quais a Banda Calypso é um dos nomes mais fortes. Aí vão tocar com Chimbinha para ver se ele enfia um roqueiro brasileiro nesses eventos. O mesmo com a MPB autêntica, com Geraldo Azevedo cortejando Ivete Sangalo para ver se ele entra num megafestival do interior da Bahia.

O brega-popularesco está tirando a MPB autêntica e o Rock Brasil de seus próprios espaços. E não são nomes como Michel Teló, Mr. Catra, Ivete Sangalo e Banda Calypso os verdadeiros pobrezinhos de marré de si. Pelo contrário, eles estão no poder, são os ricos e poderosos, eles são o PSDB da música brasileira, eles são a Veja, a revista Caras, a Rede Globo, a Folha de São Paulo.

Por isso, não há como dizer que Michel Teló é um coitadinho. Nem ele, nem Leandro Lehart, nem Benito di Paula, nem Zezé di Camargo, nem Michael Sullivan, são coitadinhos. Eles estão no poder, cresceram alimentados pelo esquema jabazeiro das rádios e representam apenas o hit-parade brasileiro, sem qualquer valor social para a verdadeira cultura popular.

É triste ver que essa geração anos 90 da MPB se acomodou completamente, e preferiu aceitar a hegemonia dos ídolos brega-popularescos que ditam as normas do mercado brasileiro. Se iludiram com a postura "simpática" e "ingênua" dos ídolos brega-popularescos, e pensam que eles não estão no mainstream. Mas aí a cultura, nas mãos deles, torna-se tão somente uma mercadoria insípida e de pouca serventia para a sociedade.

Se é tudo música, nem tudo, porém, é boa música.

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