terça-feira, 29 de maio de 2012

ZECA BALEIRO QUER SER "MIDIAMANÍACO"


Por Alexandre Figueiredo

Entre 1990 e 1992, uma geração pós-tropicalista surgiu como uma tentativa de furar o cerco da hegemonia brega-popularesca das rádios, representada sobretudo pelos hoje "sofisticados" ídolos do "sertanejo" e do "pagode romântico'.

Puxados por Marisa Monte, que, depois de seu LP de estreia, iniciou uma carreira mais autoral, a geração teve, entre outros, os cantores Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto e outros. Teve também a falecida Cássia Eller, e, além do mais, a cena abriu caminho, junto com as investidas MPB do Rock Brasil (através, sobretudo, de Paralamas do Sucesso, Titãs e do falecido Cazuza), para a turma do mangue beat de Pernambuco, sobretudo Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A.

Tomando como paralelos a música brasileira e o cenário político do país, enquanto nomes como Kaoma, Chitãozinho & Xororó, Só Pra Contrariar (de Alexandre Pires), Raça Negra, Latino, Chiclete Com Banana e Leandro & Leonardo simbolizavam a Era Collor, a geração 90 da MPB autêntica representava o Fora Collor, ou o Já Era Collor, podemos dizer.

Era novidade, depois da ressaca do Rock Brasil representada pelos sucessos dos Engenheiros do Havaí - última grande banda de sucesso do rock brasileiro dos anos 80 - , ver jovens com menos de 18 anos redescobrirem a Gal Costa fase 1867-1972 e Paulinho da Viola era uma grande novidade.

Nessa época, entre 1993 e 1994, ver um garotão de 21 anos cantar "Fumacê" dos Golden Boys, "Eu Quero Mocotó", de Erlon Chaves e "Mamãe Passou Açúcar Ni'Mim", de Wilson Simonal, era mais ousado do que botar língua para fora e fazer o sinal do demo com os dedos das mãos.

Mas o tempo passou e a Globo, tratando de amestrar os neo-bregas da Era Collor, os transformou numa "MPB de mentirinha" que, tendenciosamente, também bebia nas fontes da MPB de 1967-1972. E se era novidade, para a geração MTV, ouvir Wilson Simonal e Gal Costa em 1993, em 2002 já era rotineiro.

A essas alturas Ivete Sangalo já se fantasiava de Gal Costa e Alexandre Pires posava de "novo Simonal" (sem necessidade, porque Wilson Simoninha faz muito melhor esse papel, por razões óbvias). Afinal, a MTV já ensinou, em parte, um pouco de MPB para os leigos, veio a Internet com maior acervo de informações e aí os oportunistas chegam e pegam carona na causa do cometa.

E hoje, com o brega-popularesco se aproveitando da superestima exagerada da MPB imediatamente pós-tropicalista, já não há novidade em saber a historiografia da MPB a partir de 1967.

A garotada que só ouvia "rock 80" em 1987 hoje carrega consigo versões em CD do Phono 73 e da Sessão das Dez (da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista de Raul Seixas, Miriam Batucada, Sérgio Sampaio e Edy Star). E alguns fãs de brega-popularesco já usam como gosto musical secundário a MPB pós-tropicalista dos anos 90 para cá.

O que poderia ser ruptura acabou dando em condescendência, e, por isso, vemos que um dos nomes da cena MPB de 1992, Zeca Baleiro, hoje entregou os pontos, apoiando tudo o que for brega que estiver na sua frente. Colunista de Isto É, Baleiro já havia até mesmo escrito um texto sobre Waldick Soriano que agradaria muito bem Paulo César Araújo e Patrícia Pillar.

Zeca Baleiro era um similar menos ousado de Lenine. Ambos se servem de uma salada referencial que inclui de hip hop ao cancioneiro nordestino, da Nouvelle Vague do cinema francês à literatura de cordel. Mas enquanto Lenine se fixa na defesa da MPB autêntica, Zeca entrega o ouro ao brega-popularesco, talvez estimulado por ter uma música regravada pelo breganejo Daniel.

Tendo produzido o mais disco recente de Odair José, Zeca Baleiro agora quer ser um ídolo de massa. E já começa a partir para frases de efeito, criticando, numa apresentação no último fim de semana no Festival da Mantiqueira, os polêmicos (e desafetos entre si) Lobão e Caetano Veloso, também conhecidos pelas frases de efeito. Baleiro os acusou de "midiamaníacos".

Apesar de desafetos, Lobão e Caetano Veloso se inserem dentro de um contexto midiático mais conservador, e ainda que o roqueiro e autor do sucesso "Me Chama" tenha feito críticas ao brega-popularesco bastante ácidas, foi condescendente com Amado Batista e Mr. Catra quando era editor da revista Outra Coisa. E Caetano Veloso é um histórico defensor do brega-popularesco, fato comprovado em várias situações.

E isso desde 1973, quando o mesmo Odair José do disco produzido por Zeca Baleiro foi cantar com Caetano a música "Eu Vou Tirar Você Deste Lugar", sob vaias da plateia, criando uma tendência, defendida hoje pela intelectualidade etnocêntrica - sobretudo um Pedro Alexandre Sanches que também defende Odair José e escreve igualzinho ao Caetano Veloso em O Globo - , de que aquele que for mais vaiado pela plateia e levar bronca da "crítica especializada", vira "gênio".

Zeca já se insere num segundo escalão da mídia conservadora, liderado pela Isto É/Bandeirantes, não tão reacionários como Veja e Globo, mas já preocupantes em seus surtos reacionários recentes (como no caso do Brasil Urgente da Band Bahia). Sendo assim, Zeca Baleiro mais parece uma "terceira via" dos ídolos "midiamaníacos" do que uma real ruptura a eles.

Aliás, Zeca Baleiro se recusa a romper. Ele quer entrar no mercado, quer entrar nas trilhas de novela. E, um dia, ele será mais um midiamaníaco à procura de uma polêmica fácil. Só terá, talvez, um "apoio mais popular" do que os outros dois.

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