quinta-feira, 10 de maio de 2012

PSEUDO-SOFISTICAÇÃO DO BREGA NÃO SALVA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Nos últimos anos, a geração de neo-bregas de 1989-1990 ensaia uma pseudo-sofisticação, gravando com orquestras, trajes de gala e tudo o mais.

Contraditoriamente, eles querem se afirmar como "ídolos da canção popular" seguindo a cartilha da chamada "MPB burguesa", aquela "MPB" de traje de gala e muita pompa que afastou o grande público depois de um breve período de sucesso comercial por conta das grandes gravadoras.

Pois a intelectualidade considerada "influente" quis e ainda quer provar que esses neo-bregas que fizeram o "sertanejo" e o "pagode romântico" e, em parte, outros estilos do brega-popularesco, são a "salvação" da mesmice da Música Popular Brasileira, o que é um contrasenso.

Afinal, nomes como Chitãozinho & Xororó, Só Pra Contrariar, Soweto, Grupo Molejo, Chiclete Com Banana, Zezé di Camargo & Luciano, Art Popular, Exaltasamba, Leandro & Leonardo, Mastruz Com Leite, Frank Aguiar e Latino fizeram de tudo para enfraquecer e destruir a MPB, e até mais do que quando Guilherme Arantes, Simone e Zizi Possi viajavam para Los Angeles só para gravar seus LPs de carreira.

Hoje, no entanto, a "turma de 1990" da música brega que, quando muito, fazia uma pálida, caricata e confusa imitação dos ritmos populares brasileiros, quer entrar no primeiro time da MPB às custas de muitos covers e DVDs superproduzidos, cheios de convidados e de muito luxo e pompa. E muito puxa-saquismo a Caetano Veloso, Gilberto Gil e qualquer um da MPB que demonstrar alguma condescendência à música brega e seus derivados.

Os neo-bregas dos anos 90 levaram geralmente cinco ou seis anos para perceberem a importância da MPB autêntica acima do brega. Mas isso depois de fazerem suas fortunas gravando muita música brega nos discos de maior sucesso. Depois, meio que impotentes, tentam apelar de todas as formas, e se hoje eles parecem "artisticamente sofisticados", não é de forma espontânea , mas de maneira forçada, oportunista e superficial.

Com o êxodo da MPB autêntica das grandes gravadoras, quando seus artistas migraram para a Trama e Biscoito Fino, foram os neo-bregas dos anos 90 preencher, na ótica míope dos donos de gravadoras, aquilo que estes entendiam ser "a MPB", aquela feita com trajes de gala, muita pompa e jogos de luzes.

E aí aqueles mesmos "sertanejos" e "pagodeiros" que irritavam os ouvidos de muita gente nas rádios controladas por oligarquias entre 1990 e 1992 - anos de intensa divulgação desses "artistas" - , passaram a se servir dos mesmos arranjadores, músicos de estúdio, engenheiros de som e até artistas gráficos e coreógrafos que os artistas da "MPB burguesa" tinham em suas mãos uma década antes.

NADA ESPONTÂNEO, TUDO ENSAIADO

E, de repente, esses "artistas" passaram a sofrer um processo de trainée, como se fossem calouros de reality shows musicais. Aprenderam de malabarismos vocais até de domínio de palco, e seus discos ainda precisam de outros arranjadores para parecerem, à primeira vista, musicalmente "bem feitos".

Sobra profissionalismo, admite-se. Tudo bem treinado e ensaiado. Mas não existe espontaneidade. Tudo é muito tendencioso, até mesmo na escolha de canções para serem gravadas como covers. Até porque metade do que esses intérpretes gravam é de repertório alheio, pela incapacidade de fazerem algo realmente criativo, quando partem para um repertório autoral.

Afinal, não se pode definir como "criativas" músicas que não passam de pálidos arremedos de Jorge Ben Jor, de Renato Teixeira ou até de Zeca Baleiro (em que pese a condescendência deste para os brega-popularescos). E são músicas que, gravadas em discos, são antes lapidadas por outros arranjadores, os responsáveis maiores dessa suposta guinada artística dos neo-bregas de 1990.

E por que os neo-bregas não pensaram em fazer MPB antes? Como se havia escrito em outra oportunidade, muito antes dos neo-bregas reclamarem do "preconceito" da MPB contra eles, eles deveriam perceber o preconceito que eles tinham contra a MPB. "Coisa de bacana", diziam na época. Antes eles faziam sua breguice felizes da vida. Hoje tentam dizer que foram "mal orientados" no começo de suas carreiras. Por que não reagiram a isso o quanto antes?

Daí o oportunismo e o tendenciosismo. Muito fácil gravar covers de Lupicínio Rodrigues, Lamartine Babo, Tom Jobim, ou de Renato Teixeira, Milton Nascimento, Jorge Aragão e Wilson Simonal. Há um arranjador por trás, um produtor, um meastro, outros músicos apoiando.

Mas é muito mais fácil porque os neo-bregas de 20 anos atrás precisam se apoiar em algo para se sustentar no sucesso a qualquer preço, nem que se reduzam, na prática, a meros crooners de palcos de TV ou de casas de espetáculos, que é o que eles acabam se tornando na verdade.

E o resultado dessa pretensa "sofisticação artística" dos neo-bregas dos anos 90 nem é tão bom assim quanto parece, porque em muitos casos soa piegas e bastante pasteurizado, mas para o público padrão de uma Nativa FM ou de uma Rede Globo, isso é "sofisticação".

Esses intérpretes acabam até levando às últimas consequências os defeitos que muitos atribuem à MPB dos anos 80, com mais excesso de pompa ainda. Guilherme Arantes costuma ser atacado por conta de letras como as de "Brincar de Viver" ou pela acusação de pasteurizar os arranjos em seus discos. Mas os ídolos "sertanejos" e "pagodeiros" da "safra" de 1989-1990 hoje fazem a mesma coisa, até pior, e são elogiados.

A atual fase dos neo-bregas dos anos 90 - já não só os da safra 1989-1990, mas seus seguidores e derivados - não representa de forma alguma a salvação para a Música Popular Brasileira. Pelo contrário, a geração que baniu a MPB das rádios nunca iria resolver o problema gravando tributos a Renato Teixeira, Lupicínio Rodrigues, Wilson Simonal e outros.

Na fase pseudo-sofisticada, os neo-bregas não se afirmam como cultura popular de verdade, até porque se utilizam de muita pompa para atingirem seu objetivo. E mostra que eles, no fundo, passam a ser amestrados pela mesma indústria que transformou a MPB dos anos 80 num asséptico engodo burguês.

No fundo, os méritos acabam sendo, neste caso, para as elites que, protegendo os neo-bregas do passado recente, os fantasiaram da falsa MPB da grande mídia. E os "grandes artistas" que se tornaram os neo-bregas, em vez de enriquecerem a cultura brasileira, enriquecem seus próprios bolsos ornamentando os palcos da grande mídia, do Domingão do Faustão à Ilha de Caras.

No final das contas, tudo fica na mesma. São sempre os mesmos sucessos sem graça de 1990. Os arranjos mais elaborados não fazem as músicas melhores, já que a mediocridade artística de seus "artistas", mesmo hoje melhor treinados, mantém o mesmo caráter enjoado e superficial dos mesmos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...