quinta-feira, 17 de maio de 2012

ODAIR JOSÉ OU PAT BOONE NÃO QUERIA SER BOB DYLAN


Por Alexandre Figueiredo

Nos seus primeiros artigos depois de uma reviravolta na intelectualidade cultural de esquerda, MC Leonardo e Pedro Alexandre Sanches ainda tentam convencer os leitores de Caros Amigos de que a música brega é o máximo e a salvação suprema da humanidade planetária.

Nem precisamos muito falar sobre o que MC Leonardo escreveu porque, com os argumentos de sempre, relata as "maravilhas" da tal "roda de funk" que ele já havia falado em outras oportunidades, e sem dúvida alguma nada que pudesse assustar os executivos das Organizações Globo, que tão excelentes relações têm com o ritmo carioca.

Falaremos mais do que o discípulo (confirmado e não desmentido) de Francis Fukuyama, Pedro Alexandre Sanches (por ele ser o defensor do "fim da história" para a MPB) escreveu, na mesma edição de maio de Caros Amigos, tendo sido sobre o novo disco do ídolo brega Odair José, produzido por Zeca Baleiro, um cantor que jogou no lixo a sua missão de combater os brega-popularescos.

Sempre com os mesmos argumentos urubólogos de acusar a consciência crítica nossa de "intolerância" - já que o termo "preconceito" está desgastado e o pessoal deve ter medo de ser assombrado pelo fantasma de Millôr Fernandes - , Pedro Sanches mais uma vez prova ser um seguidor não só de Fukuyama, mas também das ideias do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e sendo um irmão ideológico da quase xará de sobrenome Yoani Sanchez.

Tudo porque incomoda ao colonista-paçoca que se critique o brega-popularesco pelo seu pretensiosismo e pelo culto aos ídolos "coitadinhos". O que Pedro Sanches entende por "intolerância" é na verdade a nossa preocupação natural de que o brega, invadindo espaços alheios, sobretudo os da MPB autêntica e de qualidade, deixe a MPB no ostracismo.

Claro, somos "intolerantes" com Odair José, Michel Teló, Gaby Amarantos - hoje bem à vontade nos cenários da Rede Globo, tal qual Mr. Catra - , Tati Quebra-Barraco, Leandro Lehart, Benito di Paula e Zezé di Camargo. Mas não seria Pedro Sanches intolerante com Chico Buarque e Rita Lee, só para citar dois nomes que nunca fizeram parte de uma "MPB obediente", subserviente às regras da "cultura de massa"?

O PRETENSIOSISMO BREGA

Deixemos de brincadeira. O que reclamamos é que a hegemonia do brega-popularesco, da Música de Cabresto Brasileira, é seu pretensiosismo e sua ganância expansionista. E a perda de tempo de Pedro Alexandre Sanches de vender os ídolos bregas como se fossem "militantes neo-zapatistas modernistas" não consegue esconder o óbvio: o brega é capitalista, é neoliberal, é adepto das regras do "livre mercado", e a única coisa que quer é ampliar seus espaços, para render mais dinheiro e criar ainda mais reservas de mercado para garantir o poderio econômico.

Aqui temos uma analogia do discurso de Pedro Alexandre Sanches com o discurso neoliberal, e o anti-esquerdismo dele torna-se tão claro que suas ideias (e das do "parceiro do RJ" MC Leonardo) praticamente nunca dialogam com as de outros colunistas realmente de esquerda, como Emir Sader e Rodrigo Vianna.

Isso porque a "diversidade cultural" que Pedro Alexandre Sanches defende não é muito diferente da "democracia" que a imprensa neoliberal defende. E as acusações de "preconceito", "higienismo" e "intolerância" que Sanches lança contra o que os críticos da mediocrização cultural fazem não diferem muito das acusações de "robôs petralhas" que um Reinaldo Azevedo faz de quem critica a "independente" revista Veja.

O brega é piada, é mera música comercial, é entretenimento. Musicalmente, é medíocre. Essa é a verdade. Só que ninguém quer admitir as limitações ideológicas, artísticas e éticas da música brega e seus derivados, antes quisessem levar o pretensiosismo e a arrogância de falsos coitados resmungões - que contradizem sua imagem meio estereotipada de "gente simples" - às últimas consequências.

PAT BOONE, POR PIOR QUE TENHA SIDO, NÃO É PRETENSIOSO

Há uma analogia exata e literal dos ídolos bregas considerados "geniais" e a geração de cantores românticos que pegaram carona no fenômeno Elvis Presley para fazerem um rock asséptico e pasteurizado.

Se o Brasil tem ou teve Odair José, Luís Ayrão, Wando, Benito di Paula, Michael Sullivan e Luís Caldas, os EUA tiveram Pat Boone, Paul Anka, Neil Sedaka, Ricky Nelson e Bobby Darin. Cantores meramente hit-makers com notáveis limitações artísticas, e, embora alguns tenham feito lá suas relativas façanhas (Paul Anka teve uma música gravada por Frank Sinatra, "My Way"), ninguém ali foi revolucionário, ousado e se houve alguma "pretensão", ela mesmo assim teve seus limites que a fizeram mais despretensiosa.

Por pior que tenha sido Pat Boone, por exemplo, ele nunca quis pegar carona nos louros da Contracultura, assim como os demais citados. A pretensão desses cantores era tão somente concorrer com Elvis Presley, o que não era demais. Os equivalentes brasileiros também são analógicos nisso, querendo competir com o "nosso Elvis", Roberto Carlos.

Odair José gravou uma canção chamada "Eu Queria Ser John Lennon". Mas Pat Boone, em que pese ter gravado um disco de sucessos de rock pesado - mais por brincadeira do que por qualquer oportunismo - , nunca quis ser John Lennon e nem sequer Bob Dylan.

Além do mais, Odair José nunca foi um sujeito revolucionário. No fundo, como todo ídolo brega, sua personalidade sempre foi bastante conservadora. Da mesma forma que Pat Boone também é conservador. Odair nunca foi um rebelde, nunca foi cantor de protesto, e muito da sua imagem de "subversivo" era resultante de muitos mal entendidos que até mesmo o próprio cantor contestava seriamente.

Da mesma forma, Odair contestou o próprio Paulo César Araújo quando este, no seu famigerado livro Eu Não Sou Cachorro, Não, exagerou nos rótulos de "rebelde" ao autor de "Eu Vou Tirar Você Deste Lugar". "Eu só componho canções de amor", reagiu o cantor, meio incomodado.

Pensando bem, talvez os próprios bregas pudessem viver bem dentro de seus limites artísticos e ideológicos, sem que alguém cobre deles uma falsa sofisticação que faz um Alexandre Pires se contradizer entre um tributo "requintado" a Lupicínio Rodrigues e a vulgaridade de "Kong". Ou então a cobrança de uma postura "combativa" e "revolucionária" dos ídolos bregas que nada podem fazer senão vender muitos discos e lotar plateias.

Neste sentido, se muitos ídolos da música brega e derivados ainda são pretensiosos, mais pretensiosos são o mercado, que quer a música brega invadindo outros redutos além dos seus, e a intelectualidade, que sonha e cobra dos ídolos bregas um combativismo esquerdista que eles não têm e nem estão interessados em ter.

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